Mundial 1938, o verão de Leónidas

O Brasil tem a distinção de ser a única seleção a ter participado em todos os Campeonatos do Mundo. Mas só à terceira tentativa começou a deixar no ara quilo que poderia ser. Foi graças a um dos seus “malandros”, Leónidas da Silva, que o Verão francês teve tudo para se tornar na primeira parte de uma saga histórica canarinha.

 De “Homem de Borracha” a “Diamante Negro”

Leónidas era conhecido no meio futebolístico brasileiro como o “Homem de Borracha”. Para sacristães como Mário Filho ou Nelson Rodrigues, sempre ávidos de baptizar na pia baptismal do jornalismo as novas estrelas da arena, a alcunha fazia todo o sentido. Em França preferiram Leónidas preferiram para a cor da pele. Tinham ficado dez anos antes impactados com Andrade, o astro uruguaio. Deram-lhe a alcunha de “Diamante Negro”. Com Leónidas o fascínio foi similar. A alcunha ficou. Mas o avançado gostava de olhar para si de outra forma. Durante anos repetiu até à exaustão o seu célebre disparo de costas para a baliza, no ar. O pontapé de bicicleta. Nesse Verão francês apresentou-o ao resto do Mundo. No Brasil já o conheciam de sobra.

Gostava de afirmar que era o inventar do gesto técnico. Não o era e provavelmente sabia-o. Desde a década de dez que essa complexa habilidade técnica tinha sido registada a nome de Ramón Unzaga, um basco com alma de chileno. Mas ninguém, fora do circuito sul-americano, tinha visto Unzaga jogar. E Leónidas era um produto da modernidade. A invenção ficou-lhe eternamente associada. O génio carioca nem precisava dela para entrar na história mas dessa forma apanhou um atalho para a eternidade. O outro que tentou percorrer e que acabou contra um muro de camisolas azuis, transcorreu em França, em 1938. Leónidas queria ser o primeiro campeão do Mundo brasileiro da história. Um declaração de intenções que perseguiu a tantos outros depois, de Heleno de Freitas – com quem jogou no Botafogo – a Ademir, o herói maldito de 1950. Marcador do primeiro golo canarinho na história da competição – em 1934 contra a Espanha de Zamora diante do qual falhou uma grande penalidade – a estrela do Flamengo chegou a terras gaulesas como único emissário sul-americano.

Os argentinos, a quem Rimet tinha prometido o Mundial, não perdoaram ao presidente da FIFA a subtil traição, culpada do desejo de levar a prova que tinha inventado a casa. Os uruguaios, flamantes campeões inaugurais, continuavam o seu particular boicote. Não tinham saciado a sua sede de desforra pela afronta europeia quatro anos antes e continuavam a recusar-se a subir ao ringue. A sua geração há muito que estava longe do nível exibido nos anos vinte. A escolha de não viajar era calculada. Mais vale uma lenda imaculada que uma realidade desgraçada. O Brasil era, portanto, o único país sul-americano disposto a desafiar a hegemonia europeia, tão evidente quatro anos antes. Contra os checos, húngaros, franceses, alemães (mas já não austríacos, engolidos pelo Anchluss e anexados também ao promissor Breslau XI) mediam o seu lugar na história. Mas era a Itália, essa invencível Squadra Azurra, que os brasileiros tinham no ponto de mira.

 O herói de 1938

Leónidas foi o herói da competição. Foi o rei goleador de um torneio onde se contavam os melhores avançados da época, do italiano Piola ao checo Nejedly. O avançado canarinho – num Brasil que ainda vestia de branco impoluto  – apontou sete golos. Ao longo da sua história internacional de doze anos, disputou 37 jogos com a seleção. Com os tentos obtidos no Mundial de França, alcançou a cifra de 37 golos, uma média de um tento por jogo. Na história dos goleadores brasileiros nos Mundiais os seus 8 golos (contando com a participação de 1934) ocupa o sexto lugar no ranking. Com apenas quatro jogos disputados na competição.

A primeira prova de génio de Leónidas chegou no encontro inaugural dos brasileiros contra a Polónia. Foi o duelo mais memorável da competição marcado pelos quatro golos apontados por Wilimoswski, o avançado polaco que mais tarde se transformou em oficial da Alemanha nazi, e pelo hat-trick de Leónidas. O avançado abriu a contagem ao minuto 18 e depois de Romeu e Perácio terem igualado os tentos de Scherfke e Willimovski, o prolongamento reservou um duelo entre os dianteiros europeu e sul-americano. Ganhou o “Homem de Borracha” com dois golos a seu favor. Um deles, memorável, marcado sem a chuteira, com a facilidade de quem dribla a areia à sombra do Corcovado. Na ronda seguinte, frente aos vice-campeões do Mundo, os checos, Leónidas abriu o marcador mas o empate de Nejedly forçou a um prolongamento. Uma vez mais foi o “Diamante Negro” a abrir a contagem mas a dureza das entradas de jogadores de ambas partes transformou o duelo de Bordeaux num dos jogos mais sujos da história da competição. Houve baixas de vulto para ambas partes. A mais grave de todas, a do dianteiro. A lenda diz que o Brasil preferiu reservar Leónidas para uma hipotética final.

Uma das maiores mentiras da história. Os brasileiros sabiam do valor da Itália de Pozzo e nunca evitariam alinhar o seu melhor jogador se Leónidas não estivesse, como estava, gravemente lesionado. Sem ele a Azzura venceu o seu primeiro match-ball com o Brasil (haveria outros duelos históricos entre ambos na história da competição) e pavimentou o caminho para o bicampeonato Mundial. Ao Brasil, já com Leónidas recuperado e de novo a marcar, ficou a consolação de uma vitória de Pirro contra a Suécia que lhes deu direito a pisar pela primeira vez o pódio.

O primeiro herói brasileiro

Leónidas voltou ao Brasil consagrado como uma estrela de nível mundial. Ao contrario de Friedenreich, o seu antecessor, que a Europa raramente viu, as suas gestas tinham encontrado eco na imprensa e no público. Sendo negro, numa época em que o Brasil e o seu futebol ainda lutavam contra os preconceitos raciais, foi transformado no perfeito exemplo de integração por oposição ao flamante Heleno de Freitas, filho da classe média alta de origem europeia.

O Brasil contava com ambos para liderar o ataque ao titulo no seu Mundial, em 1942, mas o deflagrar da II Guerra Mundial adiou o torneio em oito longos anos. Tempo suficiente para ambos avançados falharem a competição. Faltariam duas décadas desde a explosão de Leónidas para aparecer Pelé e o Brasil levantar o troféu Jules Rimet. Nesse Verão, em França, o “Homem de Borracha” escreveu apenas o prólogo para a popularização global do jogo bonito!

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