“Se servem para morrer por Itália, servem para jogar por Itália”. Com essa frase lapidar, Vittorio Pozzo, selecionador italiano, deu por encerrado o debate dos Oriundi. A história, no entanto, manteve a discussão viva nas décadas seguintes. A vitória da Itália no torneio de 1934 foi muitas vezes atribuída à influencia de Mussolini, organizador do torneio. Talvez tenham sido os astros sul-americanos naturalizados apressadamente os verdadeiros responsáveis do primeiro Mundial ganho pela Azzura.

 O futebol italiano segundo Mussolini

Em 1930 a Itália não marcou presença no torneio inaugural. Para Vittorio Pozzo era cedo demais. O selecionador tinha recebido ordens directas de Mussolini. Preparar uma equipa capaz de ser coroada a melhor do Mundo. Para tal o líder do governo italiano, consagrado pela marcha a Roma dos seus “camisas negras”, deu a Pozzo tudo o que este necessitava. Fez os clubes e autoridades assinarem um pacto de cooperação que iria reger os destinos do futebol transalpino, a Carta de Viareggio. Validou a primeira liga profissional quando o amadorismo ainda era a norma no futebol europeu.

Permitiu a Pozzo realizar largos estágios que interrompiam o campeonato, a seu belo prazer, para forjar uma verdadeira equipa. Se as grandes potencias sul-americanas disputaram entre si o primeiro Mundial, os italianos dedicaram-se a desafiar as nações da bacia do Danubio que davam cartas no futebol europeu. O triunfo na Taça Dr. Gero – a versão para seleções da popular Mitropa, contra húngaros, checos e, sobretudo, austriacos, deu a Pozzo o sinal de que tudo ia na direção correcta. A Azzura estava preparada para assaltar o troféu instaurado quatro anos antes por Jules Rimet. Mas a pressão de organizar o torneio, debaixo do olhar atento de Mussolini, rapidamente se converteu num problema para o selecionador.

Naturalizar os melhores do Mundo

No Congresso FIFA de Budapeste em Setembro de 1930 decidiu-se que a edição seguinte do Campeonato do Mundo seria disputada em solo europeu. Rimet tinha prometido a organização aos franceses mas pressões politicas levaram a que no congresso de 1932 a mesma fosse entregue à Itália de Benito Mussolini. Para evitar a desorganização vivida no Uruguai, Rimet decidiu criar uma fase de qualificação para determinar os finalistas. Todos os países 32 países presentes no congresso aceitaram. Todos, excepto o Uruguai, que declararia que a sua ausência era a resposta às potências europeias pelo desplante de quatro anos antes. O primeiro campeão só voltaria 20 anos depois conseguindo assim um curioso recorde, o de maior longevidade em invencibilidade da história da prova.

Apesar da pressão politica, a Itália necessitava qualificar-se para o seu próprio torneio. Pela única vez na história o organizador não tinha o apuramento garantido. A questão foi facilmente resolvida. Uma arbitragem escandalosa no San Siro permitiu à Itália vencer por 4-0 a Grécia na primeira-mão. Os gregos nem se preocuparam em apresentar-se ao segundo jogo. Mesmo assim a Federação italiana apercebeu-se de que a equipa de então não estava ao nível das grandes potencias que não tinham perdido tempo a recuperar de uma surpreendente derrota na Taça Gero. A campanha magistral da Áustria de Hugo Meils e Mattias Sindelaar, o crescimento competitivo da Hungria e Checoslováquia eram as grandes ameaças ao organizador. Vencer seria mais difícil do que nunca. Mussolini não estava preparado para ouvir desculpas. Depois de manobrar nos bastidores para conseguir a organização do torneio, o “Duce” exigiu à Federação nada menos que uma vitória clara.

Passasse o que passasse, esse Mundial teria de ser da “Squadra Azzurra”.

A mensagem foi entendida. A Itália contava com alguns dos melhores jogadores da sua geração. Giuseppe Meazza era o líder natural dos azzurri e estava bem acompanhado mas ainda assim o plantel orientado por Vittorio Pozzo tinha algumas falhas importantes. Depois de vários jogos de teste, a Federação italiana começou a chamar jogadores que não tinham nascido em Itália mas a quem o regime de Mussolini tinha dado a nacionalidade depois de terem deslumbrado os clubes transalpinos que tinham enviado emissários ao Mundial de 1930. A maioria eram filhos de emigrantes que no inicio do século XX tinham trocado a pobreza nos pastos secos do sul do país pela promessa de fortuna do outro lado do Atlântico. Muitos desses “retornados” eram grandes figuras do mundo do desporto e Pozzo rapidamente subverteu as regras do jogo. Os chamados oriundi ou rimpatriati, passaram a ser a espinha dorsal da seleção. Quando a FIFA solicitou explicações à Federação Italiana de Futebol, o selecionador nacional apresentou-se diante de Jules Rimet declarando “Se estes homens podem morrer pela Itália então também podem jogar pela Itália”. O caso ficou fechado. Uruguaios e argentinos iriam caminhar lado a lado com italianos com a camisola azul ao peito.

A polemica campanha italiana

Foi graças a esta manobra engenhosa que os italianos foram ultrapassando as sucessivas eliminatórias. Pela primeira vez na história do torneio não houve fase de grupos. A Squadra Azzura bateu confortavelmente os Estados Unidos por 7-1. Como resposta ao sucesso sul-americano de 1930, todas as equipas qualificadas para os Quartos-de-Final eram europeias. Ajudava, evidentemente, o facto de que o Uruguai tinha ficado em casa e, por culpa de uma greve do sindicato de jogadores, a comitiva argentina fosse composta por juniores e amadores. Claro que entre os europeus havia casos especiais. Nenhum como o italiano com os seus próprios “naturalizados”. Pela Itália destacou-se o genial Raimundo Orsi, o mais popular dos oriundi. Nascido na Argentina, Orsi era a figura de uma equipa totalmente remodelada e invencível. A ele juntaram-se outros ilustres como Guarisi, nascido no Brasil e o trio composto por Enrique Guaita, Luís Monti e Atillio Demaria, que foram também internacionais argentinos. Cinco membros chave da equipa titular que venceria a Espanha na fase seguinte. Um jogo que acabou empatado a 1 bola e que obrigou a repetição.

O polémico e único golo de Meazza deixou claro que seria impossível travar a Itália de Pozzo. Pelos bons e maus motivos. Os espanhóis tinham razões de queixa suficientes. Para além do golo italiano ter sido resultado de uma clara falta sobre Ricardo Zamora, o mítico guardião espanhol, os ibéricos tinham apontado um golo em cada jogo que teria sido suficiente para garantir o apuramento não tivessem ambos sido estranhamente anulados. No fim do torneio a FIFA puniu os dois árbitros da eliminatória mas para os espanhóis era demasiado tarde.

A Itália alcançou as meias-finais onde lhes esperava um Wunderteam que não tinha estado à altura das expectativas mas que, ainda assim, era para muitos o grande favorito a vencer o torneio. O San Siro presenciou a 3 de Junho uma das meias-finais mais polemicas da história. Debaixo de um imenso diluvio que dificultou o jogo de toque dos austríacos, o Wunderteam caiu aos pés das rápidas transições ofensivas orquestradas por Guaita e da polemica arbitragem do sueco Ivan Eklind que permitiu que Orsi fosse uma constante sombra do mago Sindelaar, muitas vezes recorrendo a faltas a roçar o jogo violento para travar o génio austríaco. Durante a segunda parte a equipa de Hugo Meisl chegou mesmo ponderar abandonar o terreno de jogo mas acabaram por aguentar até ao final. Acabariam o torneio em quartos, superados por uma surpreendente Alemanha, e nunca mais estariam tão perto da glória. Uma glória reservada aos italianos perante o olhar atento de Mussolini em Roma.

Uma vez mais o rival era centro-europeu, os checos de Planicka, o melhor guarda-redes da competição. A equipa danubiana adiantou-se no marcador e esteve a dez minutos de levantar o troféu quando os Oriundi voltaram a cimentar o caminho italiano rumo ao seu particular Olimpo. Os golos com sabor sul-americano operaram a reviravolta, com prolongamento pelo meio. Mussolini entregou um troféu especificamente mandado construir para a ocasião. Aos jogadores a gigantesca taça interessava pouco. Queriam a sua réplica da “Deusa da Vitória”. Pozzo, sabedor da dificuldade da sua missão, sorriu finalmente. A sua estratégia tinha funcionado em cheio. Durante os cinco anos seguintes, a Itália ia reinar suprema sobre o futebol mundial.

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  • Tiago Cardoso

    «Acabariam o torneio em quartos, superados por uma surpreendente Alemanha, e nunca mais estariam tão perto da glória.» – se estiveres a falar da Selecção Austríaca de Futebol de 11 Masculino A nos anos 30, não tenho algo a declarar, mas estiveres a falar da Selecção Austríaca de Futebol de 11 Masculino A ao longo da história, lembro-te que «Das Team» ficou em 3º lugar no SUÍÇA’54. 😉

    • Miguel Lourenço Pereira

      Obviamente o artigo refere-se exclusivamente ao Wunderteam!