O Mundial era um sonho antigo de Jules Rimet. A recusa do Comité Olimpico em incluir o futebol no programa dos Jogos de 1932 e a ambição uruguaia limitaram-se a acelerar o processo. O Mundial nasceu no meio de dúvidas. Oitenta e quatro anos depois a herança sobrevive.

 A ambição de criar um Campeonato do Mundo profissional

No congresso da FIFA de 1928 criaram-se as bases do torneio. Durante quase uma década, desde que assumiu a presidência da FIFA, o dirigente francês lutou pela organização de um torneio mundial que ultrapassasse a barreira do amadorismo defendido pelo Comité Olímpico. O aparecimento de ligas profissionais nos países da Europa Central e nas margens do rio de la Plata forçava as seleções mais poderosas do planeta a enviar equipas menores aos Jogos Olímpicos. Os ingleses, diretamente, desistiram de participar. Rimet queria contornar esse handicaap criando um torneio onde o profissionalismo fosse admitido. A magistral exibição de poder de uruguaios e argentinos nos Jogos de 1928 apenas contribuíram para acelarar o processo. Rimet persuadiu as federações da FIFA a dar a aprovação para uma primeira edição experimental. O modelo original era em tudo similar aquele que mais tarde se faria popular. Um total de 16 equipas divididas em quatro grupos de quatro dando depois lugar a uma segunda fase.

A representação seria feita, numa primeira edição, por convite entre os países europeus e do continente americano. Rapidamente vários países europeus propuseram-se como organizadores do torneio. Mas no final a FIFA preferiu a candidatura do Uruguai. O sucesso internacional da seleção celeste, bicampeã Olímpica, fazia do pequeno país um anfitrião lógico. Em 1930 o Uruguai comemorava 100 anos de existência. Para celebrar-lo o governo prometeu pagar todas as despesas aos países que atravessassem o Atlântico, entregando a FIFA parte das receitas das bilheteiras. Não havia como dizer-lhes que não. Começou então a longa viagem de Jules Rimet e da sua taça rumo ao Mar de la Plata.

Uma organização complexa

Futebolisticamente o Uruguai superava facilmente qualquer oposição. Tinha-o demonstrado nas várias digressões que a sua seleção foi fazendo pela Europa. A vitória olímpica tinha deixado de lado qualquer dúvida. Quem estaria disposto agora a desafiar Andrade e companhia? Mais do que isso, quem estaria disposto a fazer o caminho inverso e viajar até ao hemisfério sul para desafiá-los no seu próprio estádio. A resposta foi rápida. Muito poucos.

Viajar da Europa à América do Sul só se fazia de barco e a viagem durava um pouco mais de quinze dias. Em 1930 a Europa começava a sofrer na pele os efeitos da Grande Depressão, ainda um fantasma distante quando a organização do torneio foi entregue aos sul-americanos. Os gastos eram elevadíssimos – ainda que a promessa uruguaia se mantivesse de pé – e a recompensa era pouco apetecível. Afinal, não deixava de ser um torneio sem historial e que podia não sobreviver à sua primeira edição. Além do mais, a prova ficou marcada para o final de Julho, em pleno Inverno uruguaio, o que fazia a deslocação ainda mais penosa. Poucos se lembram hoje, mas o primeiro golo do Mundial, de Lucien Laurent, foi marcado debaixo de uma copiosa nevada que provocou também sucessivos atrasos na inauguração do estádio Centenário de Montevideu onde, originalmente, se disputariam todos os jogos. Mesmo assim, determinado, Jules Rimet embarcou com a pequena estátua alada na sua mala. E esteve perto de fazer a viagem sozinho.

Durante um ano a FIFA enviou convites a todas as federações europeias, exceptuando as Home Nations, os países do Reino Unido que tinham criado uma organização paralela em 1928. Todos recusaram. Em Maio de 1930, a apenas dois meses do certame, nenhuma seleção europeia estava inscrita e a prova tinha apenas 9 países confirmados, todos das Américas. Jules Rimet teve então de se deslocar pessoalmente, com a ajuda do braço direito, Henri Delauney, pelo Velho Continente para tentar conseguir uma representação mínima da Europa.

No final, depois de semanas de negociações onde ficou estabelecido que as próximas edições seriam na Europa, quatro países acederam a encarar a larga viagem. A França aceitou apenas depois de Rimet prometer que a organização do certame em 1934 seria sua. As pressões políticas de Mussolini adiaram por quatro anos o sonho gaulês e abriram uma ferida com os sul-americanos que durou quase duas décadas em sarar. A modesta Roménia só participou depois do próprio monarca, Carol II, ter aceite arcar com todos os gastos da sua equipa. O que implicava não só a viagem mas também indemnizar os patrões dos jogadores, que por essa época eram todos amadores que trabalhavam mais de oito horas diárias em fábricas.

O navio SS Conte Verde zarpou para o Uruguai com apenas quatro equipas. Partiu de Génova, onde recolheu os romenos e jugoslavos. Depois passou pelo sul de França onde entraram franceses e belgas bem como três árbitros europeus que fariam equipa com outros três sul-americanos. Jules Rimet foi o último a embarcar. Trazia consigo o troféu e a ilusão de um sonho que marcaria a história do desporto que ajudou a desenvolver.

A coroação do Tricampeão do Mundo

Nessa longa viagem de 15 dias já adivinharia talvez a vitória final do Uruguai frente à Argentina num Monumental cheio. Depois de uma série de jogos com resultados previsíveis – por falta de equipas suficientes o modelo foi alterado – onde a única surpresa foi a campanha impressionante dos Estados Unidos, a viver a primeira era dourada do soccer, o jogo decisivo colocou frente a frente os velhos rivais “gaúchos”. Na véspera do jogo dezenas de barcos atravessaram o Mar de la Plata carregados de adeptos argentinos, a maioria sem bilhetes. Muitos ficaram parados no meio do rio, presos em bancos de espesso nevoeiro.

Duas horas antes do apito inicial o estádio estava lotado, os nervos à flor da pele e o árbitro do encontro, o belga John Langenus só aceitou subir ao campo quando as autoridades locais lhe garantiram uma escolta policial até ao barco de regresso a casa. Cada parte disputou-se com uma bola diferente. Na primeira jogou-se com o esférico trazido pessoalmente pelos argentinos que chegaram em vantagem ao intervalo. No segundo tempo, já com a bola da casa, o Uruguai confirmou o favoritismo e venceu por 4-2. A cada golo, o estádio explodia e com ele toda a cidade de Montevideu.

 No final o Uruguai celebrou o que hoje chamam de tricampeonato Mundial – contando com os dois títulos olímpicos que eram, na prática, o Mundial existente nos anos vinte – com uma empolgada volta de honra. Rimet voltou, tranquilamente, para o barco, rumo a França. Sabia que o seu sonho tinha começado finalmente. Podia parecer uma pequena nota de rodapé na imprensa do dia seguinte nas velhas capitais europeias mas estava a caminho de converter-se no maior espetáculo desportivo mundial.

1.347 / Por