Morte súbita, o drama dos relvados

Só tinha de aguentar mais quatro minutos. Mas o corpo não podia. Chinonso Henry tornou-se no passado mês de Agosto o 93º futebolista a morrer em campo. Só na última década faleceram 40 jogadores de futebol enquanto jogavam. Nunca, como hoje, tanta gente perdeu inesperadamente a vida a fazer aquilo que mais gostava num campo de futebol.

Um desporto letal

Os números são assustadores.

Em quase cento e vinte anos de história, praticamente uma centena de praticantes morreram a jogar ou em consequências de lesões graves, contraídas no relvado. É a maior taxa de mortalidade num desporto com a excepção do automobilismo. Nem o basket, nem o andebol, voleibol, hockey, atletismo ou a ginástica oferecem valores tão deprimentes. E o pior de tudo é que a tendência está longe de inverter-se. Desde o ano 2000, foram quarenta e cinco os futebolistas que perderam a vida a jogar, a exercer com devoção uma profissão que é também uma paixão. Metade de todos os malogrados em mais de cem anos.

Apesar das condições dos estádios permitirem hoje a instalação de serviços médicos altamente preparados, as tragédias continuam a ocorrer. Muitas em países do terceiro mundo, é verdade, mas nos principais relvados da Europa o fantasma da morte fez-se sentir de forma fria, surpreendente e tenebrosa. Por cada Chinonso Henry, um desconhecido futebolista nigeriano, há um Antonio Puerta.

Os casos mais emblemáticos

O primeiro relato que existe de um jogador remonta-nos até 1889.

Em plena viragem de século, William Cropper era um desses desportistas polifacéticos que dividiam o tempo entre os jogos de futebol e crikect. Na tarde de 13 de Janeiro, num encontro amigável entre a equipa do Grimsby e do Staveley, Cropper chocou brutalmente com um defesa rival. Foi retirado do campo em profunda agonia. Minutos depois, no balneário, falecia. O choque tinha-lhe provocado uma ruptura no intestino fatal. O jogo, na época de Cropper, era bastante mais violento. A punição por entradas agressivas raramente era punida, os encontros eram muito mais físicos e as condições do terreno de jogo propiciavam esse constante choque corporal. Nos anos seguintes repetiram-se as mortes no relvado. Os motivos oscilavam entre pneumonias como consequência das temperaturas do inverno britânico, paragens cardíacas  feridas contraídas em jogo mal saradas que levavam a infecções e golpes violentos.

Particularmente célebre ficou a morte de John Thomson. O guarda-redes, de vinte e dois anos, do Celtic mergulhou para recolher uma bola lançada pelo ataque do Glasgow Rangers chocando contra a perna de um avançado dos protestantes. O golpe foi tão forte que Thomson não resistiu aos ferimentos e faleceu horas depois. A lenda do Old Firm sustém que o seu fantasma ainda percorre a linha de golo do Celtic Park.

A partir dos anos 50 as mortes em campo tornaram-se, felizmente, uma raridade. Do falecimento por paragem cardíaca do galês John Kirby à morte do romeno Constantin Tabarcea passaram dez anos sem incidentes. Nas décadas de setenta e oitenta faleceram apenas oito jogadores, quatro por década, a esmagadora maioria por problemas cardíacos como sucedeu com o internacional português Pavão. Num jogo contra o Vitória de Setúbal, no estádio das Antas, o médio do FC Porto caiu inanimado no relvado depois de lançar um ataque para os azuis-e-brancos. Não voltou a levantar-se. A partir da década de noventa a situação começou, progressivamente, a alterar-se, com onze jogadores falecidos em campo, mais do que a soma dos últimos trinta anos.

A prevenção como solução

As autoridades médicas têm sido incapazes de dar a volta a este tenebroso problema. Muitos culpam o excesso de substâncias médicas – legais e dopantes – dadas aos jogadores para superar lesões e aguentar a dor. Outros apontam o dedo à falta de qualidade dos exames médicos de muitos clubes que são incapazes de detectar, sobretudo, problemas cardíacos  O coração traiçoeiro transformou-se, a pouco e pouco, na grande sombra do futebol mundial. As mortes de Marc-Vivien Foe, Miklos Feher, Antonio Puerta, Daniel Jarque deixaram claro que esta situação não era um exclusivo de futebolistas que desenvolviam as suas carreiras em clubes de países sub-desenvolvidos, sem condições médicas para descobrir esses problemas de coração.

A FIFA tem realizado um substancial esforço para garantir que esses episódios não se vão repetir no futuro. Um dos critérios de classificação dos estádios é a existência do material médico necessário para lidar com problemas cardíacos graves. Mas é na prevenção que tem de estar a solução. Exames mais exigentes durante a pré-temporada, acompanhamento médico constante e, sobretudo, tolerância zero com os problemas do coração.

Nos últimos anos vários futebolistas foram forçados a abandonar os relvados ao detectarem-se problemas que podiam levar a uma morte súbita nos relvados. O espanhol Ruben de la Red, o inglês Fabrice Muamba ou o português Fábio Faria são apenas exemplos de uma nova geração que começa a aprender que a vida vale mais que uma bola de futebol. Talvez eles sejam o exemplo a seguir para garantir que nos esperam muitos anos antes do futebol tiver de se despedir da sua 94º vitima mortal.

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