Não entra nas listas dos grandes treinadores. Nem sequer dos grandes jogadores. Mas foi uma das figuras incontornáveis da história do futebol espanhol dos últimos 60 anos. Nunca antes, nem depois, houve um homem tão comprometido e dedicado com o Real Madrid como este anónimo operário que viveu as épocas mais brilhantes da história de um clube repleto de heróis com nome próprio. Luis Molowny foi, sem dúvida, um homem para todos os ofícios.

Um homem intemporal num clube único

Quando Molowny abandonou os relvados o Real Madrid começava a forjar o seu mágico historial. Não teve a sorte de viver em campo o início da segunda vida do clube, depois de meio século de uma complexa e nem sempre bem sucedida existência. No entanto, sempre deixou saudades num estádio reconstruido e rapidamente rendido às novas estrelas galácticas que Santiago Bernabeu foi incorporando ao seu novo projecto desportivo. Mas Molowny nunca se foi. Voltou. Várias vezes. Sempre para servir como bombeiro, talvez o maior dos apaga-fogos que o futebol espanhol conheceu. Não era fácil ser-se Molowny mas o canário lograva-o com bastante êxito. Soube sempre viver acima das expectativas que criava cada vez que o seu telefone tocava e do outro lado alguém lhe pedia para salvar a casa merengue do desastre iminente onde se metia com preocupante regularidade. Logrou-o sempre e, no entanto, acabou por ser o eterno preterido face a outros nomes de maior prestigio quando se tratava de começar do zero um novo projecto. Se tivesse tido a confiança dos presidentes madridistas, a começar pelo próprio Santiago Bernabeu, talvez tivesse passado duas décadas ao leme do clube espanhol. Mas não. Foi e veio como um fiel ajudante que não sabia dizer que não. E o tempo, o historial, a memória, acabou sempre por falar mais alto. Como treinador principal conquistou três ligas espanholas, duas Taças UEFA e duas Copas del Rey. Tudo isto em apenas cinco anos. Isso, sim, bem espaçados no tempo. Como a sua memória.

O primeiro jogador “roubado” ao Barcelona

Conta a história da eterna guerra entre Real Madrid e Barcelona que Molowny assinou pelos brancos porque Santiago Bernabeu, uma velha raposa, enviou o seu representante de avião até às ilhas Canárias onde o jovem “Mangas“, como era conhecido, começava a dar nas vistas como interior direito. Quando o emissário do Barcelona chegou – tinha viajado de barco, sem grandes pressas – já o contrato estava assinado e o jogador a caminho de Madrid. A estreia sucederia semanas depois com um golo de cabeça para marcar o início de uma história de amor que durou seis largas décadas. O golo, inevitavelmente, seria apontado contra o Barcelona.

Como jogador merengue Molowny fez parte de uma geração histórica que fez a ponte entre a equipa do final dos anos 40, nos difíceis anos do pós-guerra onde o grande emblema da capital era o Atlético Aviácion, e aqueles que viriam a reinar na Europa. Titular absoluto, formou com Alfredo Di Stefano uma bela dupla que ganharia duas ligas e a primeira Taça dos Campeões da história do futebol. Já internacional pela Espanha – estreou-se numa vitória por 5-1 contra Portugal em 1949 – o médio foi forçado a retirar-se com a chegada à constelação de estrelas no estádio Chamartin de Kopa e Rial no ano seguinte. Voltou às suas Canárias e começou a forjar a sua carreira como treinador. Depois de provar as camadas jovens surpreendeu tudo e todos ao assumir o controlo do modesto UD Las Palmas. Com o conjunto canário fez história no final dos anos 60. Durante dois anos consecutivos lutou até ao fim pelo titulo, algo inédito tendo em conta o historial do clube e a época dourada que viviam muitos dos emblemas do futebol espanhol nesses anos. Em ambos os casos saiu derrotado no último jogo. A fama de homem justo e sério que tinha no relvado acompanhou-o para o banco e em 1974, com Santiago Bernabeu a viver mais uma crise desportiva, foi chamado ao velho Chamartin para tomar conta da equipa. E começou uma longa história de honesta servidão.

Do Madrid dos “Garcia” ao início da “Quinta del Buitre”

As equipas de Molowny jogavam, acima de tudo, um futebol aberto e ofensivo. Sem contar com a mesma qualidade no plantel que tinham disposto muitos dos seus antecessores recentes, Molowny forjou uma equipa sem estrelas mas tremendamente eficaz e com grande carácter.

No seu primeiro mandato, que durou apenas até ao final da época, Molowny substituiu o consagrado Miguel Muñoz, de quem tinha sido colega de equipa, e venceu a Copa del Rey, a primeira da sua carreira. Um triunfo que não foi suficiente para ficar com o posto. Bernabeu – tal como hoje Florentino Perez – gostava de treinadores de renome e contratou o sérvio Miljan Miljanic, uma das grandes figuras do futebol centro-europeu. O projecto não correu como o esperado, sobretudo devido aos falhanços nas competições europeias e três anos depois o sérvio foi despedido e o clube voltou a recorrer a Molowny. Durante dois anos orientou o chamado “Madrid de los Garcia” – nome dado devido ao facto de que havia cinco jogadores no plantel com o mesmo apelido –  vencendo uma liga de Espanha e disputando uma final da Taça dos Campeões que perderia contra o Liverpool. Nessa equipa pontificava Vicente del Bosque, que sempre lhe chamou “pai espiritual“. A trajectória de ambos apresenta curiosas semelhanças. A derrota em Paris marcou o fim da sua segunda etapa mas depois de mais um período fora dos bancos acabou por voltar a suceder ao seu substituto, Vujadin Boskov em Março do ano seguinte. Em dois meses minimizou a queda classificativa dos merengues, que estavam longe da luta pelos primeiros lugares, mas voltou a ser preterido no defeso, desta feita a favor do seu amigo Di Stefano. Só que o mago dos relvados foi-o menos nos bancos – ficou profundamente marcado por ter perdido, numa época, todas as finais que disputou além de cair na última jornada no jogo decisivo que ditou que o título fosse para o País Basco – e em em 1985 chegou de novo Molowny ao banco.

Com ele começou a formar-se a celebre Quinta del Buitre, cujos protagonistas como Michel, Butrageño, Martin Vasquez, Sanchis ou Pardeza tinham sido lançados, precocemente, nos dois anos anteriores pelo próprio Di Stefano. Durante dois anos o conjunto conquistou duas Taças UEFA – mitificadas pela sequência de reviravoltas nas eliminatórias em casa, imagem de marca dessa geração, e também uma Liga e uma Copa del Rey, um registo que servia de precedente para uma década de sonho (o clube viria a ganhar mais três ligas consecutivas). No final de 1986 o próprio Molowny anunciou que passava a director técnico do clube mas a verdade é que também durou pouco nas novas funções.

Do Madrid dos “Garcia” ao início da “Quinta del Buitre”

Honesto, frontal e dono de um sentido de humor único, Luis Molowny é um dos nomes próprios da história do Real Madrid apesar de raramente constar na lista dos principais e mais emblemáticos treinadores do clube madrilenho. Técnico premiado, jogador de elite na sua juventude, tendo sido um dos mais notáveis internacionais espanhóis da sua geração, foi igualmente uma figura repleta de carisma sem nunca perder o tom humilde que pautou sempre a sua liderança. Sem ter o estatuto de glória que sempre foi vedado aos técnicos do Real Madrid em nome das estrelas em campo, forjou a letras de ouro o seu nome na vida de um clube que continua a ter um historial único. Nos momentos de maior aperto, quando o Real Madrid deixou de ser reflexo de si próprio foi ele, o seu particular homem dos sete instrumentos, que muitas vezes resgatou o clube da sua própria depressão para o reencaminhar na sua própria filosofia de vitórias a todo custo, um ADN forjado nas próprias veias de um canário que em Madrid encontrou sempre o seu lugar ao sol.

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