Mirandinha, o homem que levou o samba a Inglaterra

Em 1987 o futebol inglês vivia mais isolado do que nunca, afastado das competições europeias e a viver anos terríveis de violência nas bancadas. No meio do cinzentismo generalizado a chegada a Newcastle de Mirandinha provou ser um raio de luz inesperado. O primeiro brasileiro a jogar em Inglaterra antecipou em meia dúzia de anos a revolução da era Premier League.

A consagração de Wembley

Num Wembley absolutamente lotado, o Brasil aterrou para levantar os fantasmas da mudança de geração que se exigia depois do fracasso no México, meses anos, naquele que marcou o ponto de viragem de uma geração mítica. Carlos Alberto Silva, novo seleccionador nacional, decidiu começar a chamar vários jogadores jovens que se destacavam no Brasileirão para substituir algumas das velhas glórias do Espanha 82 e México 86. Um deles era Mirandinha, um rápido avançado que no Palmeiras se estava a converter numa das grandes sensações goleadores do futebol brasileiro. Fazendo jus ao seu recente cartel, o avançado não desaproveitou a oportunidade. Lineker tinha acabado de adiantar os locais quando Mirandinha surgiu do nada para bater Peter Shilton, depois de este não ter travado um remate de Muller, e assim igualar a contenda que terminou empatada. Foi uma carta de apresentação ao futebol inglês que podia ter ficado por aqui não fosse o treinador do Newcastle United, William McFaul, presente em Wembley nessa tarde de 19 de Maio de 1987, ter ficado impressionado com a sua agilidade e rapidez. O Newcastle tinha acabado de perder a sua grande estrela depois de uma luta encarniçada entre o Manchester United de Alex Ferguson e o Liverpool de Kenny Dalglish ter levado Peter Beardsley a Anfield Road onde se converteu de imediato num dos grandes idolos da Kop. Sem o génio de Beardsley, os Magpies procuravam um perfil de futebolista capaz de complementar a criatividade de uma emergente promessa chamada Paul Gascoigne. McFaul entendia que esse homem podia ser Mirandinha. Semanas depois a transferência entre o clube do Nordeste inglês e o Palmeiras foi oficializada. O avançado cearense transformava-se assim no primeiro brasileiro a jogar no futebol inglês, quase uma década depois da abertura do mercado aos futebolistas não britânicos.

O Rei do Norte, versão nordestina

Mirandinha tinha começado a despontar no Botafogo, a principio dos anos oitenta, depois de ter passado pelo Ponte Preta e pelo Palmerias. No clube carioca passou dois anos antes de viajar pela geografia brasileira, com breves passagens pelo Náutico, Portuguesa, Cruzeiro e Santos antes de voltar a aterrar em São Paulo para voltar a vestir a camisola verde. Era um avançado rápido que parecia mais propenso ás habilidades de um desporto individual do que um jogo colectivo tal era o seu apetite por brilhar em solitário. Em 1986, na ressaca do Mundial do México, emergeu como a grande figura goleadora do campeonato brasileiro e chegou à selecção. Depois veio o jogo de Wembley, o inesperado negócio e a aterragem na fria Newcastle para viver uma experiência única para um desportista brasileiro. Nos anos oitenta a colónia brasileira no futebol europeu tinha aumentado consideravelmente. A limitação de estrangeiros ainda existia mas a percentagem de atletas canarinhos era cada vez maior. Inglaterra era a última barreira e foi Mirandinha quem a quebrou.

Em Newcastle foi recebido com grande expectativa e St. James´s Park, um estádio com um grupo de adeptos fanáticos, preparou-se para misturar a dureza do jogo do nordeste com a magia do samba. No jogo de estreia de Mirandinha, frente ao Norwich, um novo empate a um golo ainda que, agora, sem golo da sua parte. A sua técnica, essa, ficou de imediato patente e duas semanas depois, à terceira jornada, chegou o seu primeiro golo oficial, logo contra o Manchester United de Ferguson em Old Trafford. Jogando como falso avançado, com Gascoine no seu apoio directo, Mirandinha usava a sua técnica e velocidade para aproveitar os enormes espaços entre as duas habituais linhas de quatro das defesas inglesas. Depois, chegou o Inverno, e com ele a dureza dos jogos em campos de lama e neve a que o brasileiro não estava habituado. Muitos pensavam que Mirandinha ia desaparecer do mapa mas foi precisamente nesses meses onde a sua atitude mais se evidenciou e lhe permitiu chegar ao final da época com treze golos, uma das melhores marcas de sempre de um estreante na First Division. St. James´s Park tinha encontrado o seu novo idolo.

Do céu ao inferno, Newcastle em auto-destruição

Se em campo a vida a Mirandinha parecia correr bem, fora dele a situação não era diferente. Rapidamente se transformou num idolo local e era impossível caminhar nas ruas da cidade, com o seu inconfundivel ar de rebelde dos relvados, sem ser abordado pelos entusiastas adeptos Magpies. A maior parte das vezes, fazendo justiça á sua origem, Mirandinha acabava envolvido em peladinhas de rua com os adeptos do Newcastle, o que lhe valeu alguns sermões por parte do clube que temiam que uma lesão ou entrada mais dura o impossibilitasse de jogar no sábado onde as bancadas vibravam a cada toque seu do esférico. Uma história de amor que duraria pouco tempo. O ano de estreia foi memorável, o seguinte foi um desastre.

Forçado a vender Gascoine ao Tottenham – uma vez mais Ferguson perdeu a luta – o Newcastle acabou por apresentar uma equipa muito mais fraca para a época 1988-89 do que parecia apontar pela sua temporada anterior. Mirandinha, ao mesmo tempo, tinha desaparecido da equação de Carlos Alberto Silva apesar da sua genuína ambição de jogar a Copa América no final desse ano. Em Anfield Road, o génio brasileiro deixou a sua marca e marcou um golo memorável que deu uma inesperada vitória aos Geordies mas no final do encontro, apesar do resultado, o clube decidiu dispensar o técnico McFaul face à delicada posição na tabela e a falta de reforços que o treinador exigia. O clube entrou numa das suas habituais espirais auto-destructivas e Mirandinha foi apanhado no meio do furacão. Jim Smith, o novo técnico, preferia uma abordagem mais física e foi excluindo progressivamente o cearense que acabou a época quase relegado para um plano secundário, uma decisão que custou ao Newcastle a despromoção. Mirandinha, confrontado com jogar na segunda divisão inglesa, pediu ao clube que o libertasse para voltar a casa. O Newcastle não colocou entraves e o futebolista assinou pelo Palmeiras para lutar por uma vaga no Mundial de Itália que finalmente não conseguiu graças à emergência de uma jovem estrela chamada Romário que tinha precisamente dado nas vistas na Copa América desse 1989 em que o Brasil recuperou um título que levava décadas sem levantar.

O pioneiro brasileiro no futebol inglês

Após o regresso ao Palmeiras houve várias tentativas de clubes ingleses – incluindo o Newcastle, através de Kevin Keegan – de recuperar Mirandinha mas a experiência de dois anos parecia ter sido suficiente e o avançado preferiu mudar-se para o Japão, antes de finalizar a carreira em 1995. Os seus números deixam atrás uma excelente impressão tendo em conta o dificil contexto que teve de encontrar. Um jogo mais directo e menos táctico do que nunca, um ambiente hostil em muitos casos com estrangeiros e onde o fantasma do hooliganismo era ainda omnipresente, Mirandinha passou pelos relvados ingleses quase uma década antes que a legião estrangeira que brilhou na época da Premier League o pudesse fazer e viveu a dureza de outro tipo de futebol. Tal como os argentinos do Spurs, Osie Ardilles e Ricky Villa, foi dos primeiros sul-americanos a viver na pele a dureza do jogo britânico. O seu papel como pioneiro abriu as portas do futebolista brasileiro aos campos ingleses e ainda que nenhum dos seus compatriotas tenha, verdadeiramente, terminado por consagrar-se na Velha Albion, o cearense deixou claro que é perfeitamente possível conjugar o talento natural e o individualismo tecnicista do jogo sul-americano com a exigência física do futebol inglês. Com ele, durante alguns meses, em Inglaterra o futebol teve outra luz, outra cor e outro som.

574 / Por