Millwall Bushwackers, a firma que todos adoram odiar

Poucas pessoas conhecem o Millwall F.C. Não há quem não conheça os Millwall Bushwackers. A firma hooligan mais odiada e perigosa do futebol inglês define em si toda a história do hooliganismo. Apesar de pertencerem a um clube periférico no futebol inglês, são o ponto de partida e de chegada sobre qualquer relato sério do fenómeno das firmas mais violentas.

“Nobody Likes Us, We Don´t Care”

Não existe filme, série ou livro que aborde o hooliganismo inglês que não conte com episódios protagonizados pela F-Troop, o nome de rua dos Millwall Bushwackers. O seu protagonismo é tal que supera o do próprio clube que apoiam, uma formação modesta e habitual das divisões secundárias do futebol inglês. Poucos visitaram o pequeno The Den – um estádio da Londres suburbana onde se encontram os adeptos do clube – mas ouviram falar das lutas de rua, das punições exemplares e da cultura de violência que emana desde a firma mais polemica do Reino Unido.

Ser membro dos Millwall Bushwackers é um passaporte para um inferno de adrenalina, violência gratuita, alcoolismo, consumo de drogas, viagens destinadas a acabar atrás das grades e uma devoção peculiar a um clube de futebol cujo o ponto alto foi um décimo lugar na primeira de duas temporadas que passou na First Division no final da década de oitenta. “Nobody Likes Us, We Don´t Care” é o grito de ordem dos adeptos que sabem que são persona non grata no futebol inglês. E que desfrutam com o seu estatuto de rebeldes e incontroláveis. Talvez por isso tenham sido, desde o aparecimento do fenómeno The Football Fatory – filme produzido em 2004 a partir de um livro publicado em 1997 – uma das claques de culto do universo underground do futebol europeu.

A firma mais violenta do Reino Unido

A violência faz parte do quotidiano dos adeptos do Millwall desde os seus inícios.

Clube com origens modestas na cultura portuária do Tamisa, apoiado essencialmente por estivadores e trabalhadores da Londres suburbana industrial do final da Revolução Industrial, os jogos em casa dos Millwall eram sempre motivo de controvérsia. Particularmente os derbys locais com o mais célebre West Ham United. Desde 1906 que existem relatos de encontros violentos antes, durante e depois dos jogos entre ambas equipas. Até aos anos 60 o clube tornou-se célebre pelos encerramentos oficiais do seu estádio e as punições aos seus adeptos mas foi com o desenvolvimento da cultura de hooliganismo, nos sixties, que a fama dos adeptos do Millwall atingiu proporções nacionais.

A primeira vez que o “hooliganismo” atingiu a imprensa nacional aconteceu, inevitavelmente, num jogo protagonizado pelo Millwall, em Bradford. Um dos adeptos da equipa londrina atirou uma granada para o relvado – que mais tarde se soube, estava desativada – causando o pânico e abrindo as portas para encontros violentos contra adeptos rivais. Foi o pontapé de saída para o aparecimento de várias firmas violentas por todo o país, associadas a clubes como o West Ham, Chelsea, Leeds, Manchester United, Newcastle, Everton ou Sheffield. A fama do Millwall como clube violento e associado à extrema-direita foi tal que o programa da BBC Panorama o utilizou como exemplo, em 1977, do fenómeno numa altura em que a situação começava já a estar totalmente fora de controlo. Os Bushwackers, o grupo de elite de 250 adeptos mais violentos e aguerridos do clube, espalhavam o pânico pelo país nas suas incursões. Membros da cultura skin-head (cabeça rapada, casacos de cabedal, botas militares, o estilo era parte fundamental da cultura hooligan) atacavam bares, cercavam adeptos rivais e até cidadãos alheados do futebol, ao mesmo tempo que empunhavam símbolos de ideologia fascista, fazendo estragos preferencialmente em áreas habitadas pelas comunidades emigrantes orientais. Entre os membros contavam-se militares das forças especiais, peritos em artes marciais e ex-boxeurs. E claro, organizavam batalhas diretamente com as firmas rivais sempre que o calendário enfrentava as respectivas equipas!

A batalha de Kenilworth

O episódio mais grave – retratado em detalhe no livro Football Fatory – que envolveu os Bushwackers e ajudou a criar a sua lenda foi a batalha de Kenilworth, ou de Luton. Num jogo da FA Cup, em 1985, o Millwall defrontava o seu vizinho londrino e mais de 20 mil adeptos lotaram o estádio, sobrepassando largamente a sua capacidade. Entre eles estavam não só os Bushwackers e as firmas associadas ao Luton mas também todas as grandes firmas de clubes londrinos – os Headhunters do Chelsea, os Inter-City do West Ham mas também membros das claques de Arsenal, Tottenham e Crystal Palace – no que acabou por ser uma batalha campal histórica. Todos contra todos, sem piedade. O jogo foi interrompido aos 14 minutos com uma primeira invasão de campo. No final do encontro a batalha ganhou proporções dramáticas. Foram arrancados 700 assentos, vigas de metal foram utilizadas como armas e tal como várias armas brancas captadas pelas câmaras de televisão. Mais de 30 detidos, centenas de feridos – alguns graves, como o guarda-redes do Luton, 30 dos quais eram polícias – e uma noite caótica que serviram para o governo conservador de Margaret Tatcher avançar com a sua política de banir as claques organizadas do futebol inglês.

Poucos anos depois, com as tragédias de Heysel Park e Hillsborough frescas na memória, o governo britânico conseguiu finalmente banir o hooliganismo organizado dos renovados estádios da nova Premier League e firmas violentas e polemicas como os Millwall Bushwackers foram relegadas para segundo plano, tornando-se figuras de culto. Recuperadas pelos livros e filmes dedicados ao hooliganismo, voltaram com força no novo milénio protagonizando vários incidentes violentos permanecendo, ainda hoje, o registo da mais perigosa das firmas do futebol britânico. Aquela que todos os outros adeptos adoram odiar mas que muitos tentaram copiar ao longo dos anos na progressiva escalada de violência protagonizada pelos sucessores de Edward Hooligan.

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