Poucas pessoas podem falar com tanta naturalidade sobre o complexo universo da análise táctica como Michael Cox. É um dos gurus da escrita desportiva, um nome reconhecido globalmente. Transformou a análise de jogos num fenómeno de culto. Tudo a partir de abordagem original ao mundo da escrita futebolística.

O homem que popularizou a análise táctica

Ler Michael Cox é, sobretudo, encontrar uma passagem secreta para o mundo mágico das movimentações, dos ajustes tácticos e dos lances que decidem jogos mesmo debaixo do nariz dos adeptos. O seu trabalho online – perpetuado pela sua colaboração com alguns jornais – transformou-o num dos escritores britânicos dedicados ao mundo do futebol mais célebres. Poucas pessoas manejam tão bem conceitos como pressing, variação de flancos, substituições cirúrgicas como este londrino.

Ao contrário do mais célebre escritor dedicada à análise táctica, Jonathan Wilson, a fama de Cox começou a forjar-se na internet. Foi aí que o seu site, Zonal Marking, conquistou rapidamente a admiração de todos os que conhecem profundamente o quão complexo é analisar tacticamente um jogo. Da mesma forma que Wilson se especializou no universo editorial (conta já com vários livros publicados), Michael Cox manteve-se no ativo na rede, alterando progressivamente a natureza da sua escrita e do seu espaço até passar de ser um escritor de culto para transformar-se num fenómeno de popularidade.

Em conversa com o @FutebolMagazine, Cox desvela-nos o que o levou a escrever sobre tácticas quando decidiu ser jornalista desportivo, quais são os seus planos para o futuro e porque a universalidade dos jogadores é a próxima grande revolução táctica do futebol moderno.

Entrevista a Michael Cox

Jonathan Wilson conta que a ideia de escrever sobre tácticas surgiu depois de um jantar no Bairro Alto de Lisboa, durante o Euro 2004. Qual foi o teu momento inspirador?”

Curiosamente, a primeira vez que comecei a escrever sobre tácticas foi durante o Euro 2004. Não o publiquei, tenho-o ainda guardado num pequeno caderno o que acontecia durante os jogos, as posições dos jogadores, os momentos em que os jogos se ganhavam ou perdiam. Uma versão inicial do Zonal Marking (ZM) mas em papel. Passado uns anos recuperei a ideia quando decidi tornar-me escritor de futebol. Parecia um formato novo e original de escrever sobre o jogo – o Jonathan Wilson tinha feito um trabalho fantástico sobre a evolução da história das tácticas mas não se focou em excesso em jogos concretos. Mas o projeto era uma porta de entrada na escrita desportiva realmente e nunca pensei que ainda estivesse ativo.

O ZM é, provavelmente, o mais importante espaço de debate de tácticas no mundo do futebol em atividade. Para ti é ainda um hobby pessoal ou já o olha de outra forma?

Honestamente para mim ainda é um projeto muito pessoal. Passo algum tempo sem o atualizar – porque tenho trabalho noutras áreas – mas está lá para que possa escrever quando sinto que tenho de o fazer. Não gosto da ideia de ter de o fazer com regularidade para não correr risco de perder o prazer em tê-lo. O mais provável é que esteja a caminho de uma escrita mais desenvolvida mas menos regular.

Escrever sobre tácticas exige um trabalho analítico e um discurso com precisão cirúrgica. No entanto, as tuas análises capturaram a imaginação do público como se estivesses a descrever a poesia dos dribles de Messi ou o poder sobre-humano dos remates do Cristiano Ronaldo. Como o consegues?

Não sei se sou capaz de conquistar a imaginação dessa forma. Imagino que se fosse capaz de escrever com a classe de Barney Robnay ou Andrew Thomas o faria, mas conheço as minhas limitações. Digamos que sou como o Gary Neville, posicionado nas costas do Cristiano Ronaldo. A análise é neutral e isso é muito mais importante do que pode parecer. Nunca favoreço nenhum clube com a análise, o que é um ponto de partida básico mas também não favoreço nenhum estilo de jogo particular, sistema táctico ou escola de treinadores. Acho que isso é ainda mais importante do que o estilo de escrita se o tema em discussão é a análise táctica.

Quanto tempo demoras a preparar a análise de um jogo, desde o apito final até que o texto está online? Quais são os passos a seguir?

Eu diria que duas horas. Durante o jogo tomo notas e confirmo sempre se estou certo em relação ao posicionamento dos jogadores e às suas movimentações em campo. Assim, quando chega o fim do jogo, já sei o que vou escrever e só tenho de decidir se sinto que o encontro foi decidido por uma mudança táctica em concreto ou se as variações foram acidentais, o que também pode suceder.

Só escreves sobre jogos que te motivam para analisar em detalhe ou sentes-te obrigado a escrever sobre alguns jogos ainda que tenham sido aborrecidos ou inexpressivos no sentido táctico?

Realmente é um pouco de ambos, é difícil encontrar o equilíbrio certo. O ideal seria escrever só sobre jogos com um interesse táctico real mas não podes ignorar, por exemplo, uma final da Champions League ainda que seja um jogo aborrecido. No fundo quero que as pessoas leiam o que escrevo não porque estou desesperado por atenção mas porque quero que desfrutem e sintam vontade em ler aquilo que faço. É normal que foque o meu trabalho atualmente nos jogos mais sonantes mas isso é porque também colaboro com várias publicações e se eu não escrevesse sobre equipas como o Arsenal e o Manchester United seria mais difícil contribuir com outros projetos. Está tudo interligado de certa forma, o que não está mal, mas como consequência disso talvez o meu trabalho mais pessoal não seja uma abordagem tão pura como foi no inicio!

Acreditas na visão romântica, para alguns, de que há uma forma certa e uma forma errada de jogar futebol?

Posso soar aborrecido mas estou no meio no que a esta discussão diz respeito. Não acredito numa filosofia de “vencer a qualquer custo” mas acho que cada equipa deve ter as suas características principais, o seu estilo de jogo. Para mim os melhores jogos são, precisamente, quando equipas tão diferentes se cruzam – contra-ataque vs futebol de posse ou uma equipa com dois extremos contra uma que não usa nenhum. Não defendo que uma equipa deva dominar constantemente a possessão porque gosto de variedade. Não desfrutaria em ver o Stoke de Tony Pulis todas as semanas mas prefiro que exista um Stoke em cada liga em vez de vinte equipas a tentar imitar o modelo do Barcelona. A chave está na variedade, tanto dentro das ligas como nos diferentes campeonatos. Portanto, a minha posição é que cada equipa e clube tenha a sua identidade e que a deve manter. O futebol evoluciona mas as pessoas não podem estar constantemente desesperadas em copiar o modelo dominante – seja francês, espanhol ou alemão.

Tacticamente falando, em que direção é que achas que o futebol contemporâneo está a ir? A popularização do falso nove, o uso de extremos contra equipas que favoreçam a possessão, o 4-6-0…

É muito difícil de prever. Atualmente creio que a direção aponta para jogadores que são ao mesmo tempo impressionantes portentos físicos e técnicos e que possam cumprir muitos papeis diferentes e um enfoque constante na universalidade onde os defesas começam os ataques e os ataques iniciam o processo defensivo. Já está a acontecer em algumas das melhores equipas e imagino que brevemente seja um padrão comum a quase todos os clubes. Quando isso começar a suceder as formações vão passar a contar cada vez menos e podes jogar num 4-4-2 moderno, porque os avançados vão saber jogar como médios-extra, e de certa forma não será tão diferente de um 4-6-0 por exemplo.

Para quando o teu trabalho em formato de livro?

Quero fazer isso e já tive várias reuniões sobre esse assunto mas não há ainda nada concreto. Os livros devem ter um contexto histórico e uma abordagem a longo prazo e eu sinto-me mais cómodo com o presente e o futuro imediato.

Quando vês os jogos desde casa como reages às mudanças tácticas que detectas. Curiosidade, uma pose mais analítica, a euforia do analista?

(risos) Acho que nenhuma dessas reações! A mais próxima provavelmente seja a última mas é muito raro ver um treinador fazer algo durante o jogo que seja tão certeiro. Se isso acontece o mais provável é que seja consequência de um erro sério anterior. A análise é um pouco mais um cálculo do risco. Por exemplo, quando o Manchester United foi derrotado pelo Tottenham Hotspurs há umas semanas, David Moyes substituiu Chris Smalling, passou o Valencia para lateral e o Januzaj moveu-se para ocupar a posição de extremo-direito. Sofreram o golo porque o Valencia defende mal mas depois marcaram porque o Januzaj realizou um grande passe. Moyes optou por uma abordagem mais arriscada. Se alguma dessas jogadas não tivesse acontecido teríamos estado a falar de uma “mudança de génio” ou um “erro terrível”. Mas como sucederam lances em ambas direcções foi uma mudança neutra. Algumas vezes as tácticas influenciam a evolução de um jogo mas são os jogadores que determinam se elas são um sucesso ou não.

Para ti, qual foi o grande desenvolvimento táctico que fez com que te chamasse à atenção a ideia de escrever e analisar tácticas, o teu equivalente táctica a Pelé, Cruyff ou Maradona?

Para mim foi um prazer assistir ao Barcelona de Pep Guardiola num sentido táctico. Tinha tudo. Um modelo a longo prazo com um estilo de jogo concreto e uma geração de jogadores notáveis, onde talvez se encontre o melhor futebolista de sempre. No entanto também havia uma constante evolução de ano para ano e quando venceram a segunda Champions League (2011) eram uma equipa bastante diferente da que venceu a final de Roma (em 2009).  Guardiola soube ir sempre mais longe na sua ideia, apostando cada vez mais em passadores em vez de jogadores fortes fisicamente, pressionando cada vez mais a defesa rival, centrando o jogo cada vez mais em Messi. Alguma das formações tácticas nos seus últimos meses eram fascinantes e a partir de certa altura o Barcelona jogava quase sempre num 3-3-4. Não acredito que funcionasse sempre mas era fascinante de ver. Havia sempre também uma variação de jogo a jogo – ou Busquets recuava no terreno para garantir que havia sempre um jogador livre, ou Alves avançava mais pela ala para explorar o espaço do lateral rival. Outros jogadores moviam-se também das suas posições e isso permitia ter a certeza que se tratava de um plano perfeitamente ensaiado. Honestamente, duvido que o Barcelona de Guardiola seja ultrapassado durante muitos anos quanto a interesse táctico. O seu Bayern pode ser uma equipa melhor mas não contam com o fascínio da Masia e a própria conexão histórica e emocional de Guardiola que dava a essa equipa uma aura especial.

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