Meyba, os anos do FC Barcelona mais catalão

Durante quase um século da sua história o FC Barcelona não teve um fornecedor oficial de camisolas. O clube que há duas décadas que tem uma parceria privilegiada com a norte-americana Nike no entanto vestiu como nunca a sua identidade catalã quando nos anos oitenta decidiu vestir as camisolas da marca local Meyba traçando para sempre um laço de união emocional entre o clube e a sociedade catalã.

O primeiro sponsor do Barcelona

Até aos anos vinte os calções que acompanhavam a camisola do FC Barcelona – originalmente azul e grena dividida em duas tiras, mais tarde em quatro – eram brancos ou negros até que se formalizou o azul. O segundo equipamento era branco e azul até à aparição, nos anos setenta, do amarelo. O que no entanto unia cada uma das camisolas, época após época, era a ausência de qualquer tipo de publicidade e fornecedor oficial. Se a ausência de patrocinador se manteve até à aparição da Unicef, em 2006, duas décadas antes o clube formalizou pela primeira vez um acordo com uma marca para fornecer o material desportivo utilizado.

E não foi nem com a gigante Adidas – que dominava quase a seu belo prazer o mercado à época – nem com outras marcas de prestigio como eram Puma, Umbro, Kappa, Le Coq Sportif ou Admiral – e muito menos com as marcas americanas que pouco tinham que ver com o mundo do futebol, como a Nike. Não. A primeira aventura das camisolas oficiais do FC Barcelona e das suas respectivas réplicas, comercializadas desde então nas ruas da cidade condal, aconteceu da mão de uma ambiciosa empresa local de material desportivo que na década de oitenta abraçou a aventura do mercado futebolístico ao mesmo tempo que era já uma referência em desportos minoritários como a natação, pólo aquático ou hóquei em patins, extremamente populares na região.

O acordo formalizado em 1982 prolongou-se durante uma década e marcou um antes e um depois na simbologia emocional do próprio Barcelona que nesse período viveu um renascimento competitivo marcado por duas finais da Taça dos Campeões Europeus – incluindo a sua primeira vitória –  e da Taça das Taças, mas também três títulos de campeões nacionais e alguns dos uniformes mais emblemáticos da história do clube como a introdução, pela primeira vez, do laranja como cor alternativa preferencial como homenagem à tradição heráldica da bandeira catalã. Nada por acaso numa simbiose que vinha acompanhada do estabelecimento da normalidade política do próprio quotidiano político catalão após a consolidação do processo de Transição política vivida em Espanha após o final do franquismo.

Os anos dourados do renascido Barça

A empresa Meyba tinha sido fundada por José Mestre e Joaquin Ballbé em 1940, nos duros dias do pós-guerra. Depois de quatro décadas onde se estabeleceu respeitosamente no mercado têxtil desportivo, a empresa de Barcelona chegou a um acordo com a direcção de Josep Luis Nuñez para fornecer de forma oficial material desportivo ao clube. Foi uma das formas encontradas pelo clube para encontrar financiamento para a operação de aquisição de Diego Armando Maradona que chegava nesse verão à Cidade Condal por um recorde mundial. Na seguinte temporada o M, desenhado em tons blaugrana sob um fundo branco, começou a aparecer nas camisolas do clube. A marca manteve um estilo sóbrio no desenho dos equipamentos principais, quase sempre com um fundo azul marcado por duas tiras verticais em grenã, sem grandes variações, trabalhando sobretudo com o azul claro para o equipamento alternativo, rompendo assim vários anos de opção amarela.

A escolha da marca Meyba não tinha sido, nem de longe nem de perto, casualidade. Nuñez não era um presidente que apreciava o posicionamento político do clube mas sabia perfeitamente que necessitava do apoio de uma maioria social que, depois dos anos do franquismo, começava a valorar abertamente a atitude do FC Barcelona de forma mais clara como símbolo do catalanismo, recuperando uma frase de inicio dos anos setenta de um dos seus dirigentes, Narcis Carreras, “Mes que un club”. Associar o clube a uma marca desportiva local, não espanhola mas sim abertamente catalã, era representativo dessa mentalidade. Apesar das ofertas de outras marcas, sobretudo a Adidas e a Puma, para vestir o clube, a escolha da direcção do Barcelona durante os anos oitenta manteve-se fiel a essa visão abrangente e catalanista.

A chegada de Johan Cruyff ao clube, em 1987, mudou para sempre a história blaugrana e aos títulos conquistados pelo clube associaram-se imediatamente indumentárias míticas e emocionalmente simbólicas desenhadas pelos artesões da Meyba. Parecia uma simbiose perfeita, para o renascimento competitivo do FC Barcelona uma camisola imbuída no espírito local. Foi assim que nasceu também a mítica camisola laranja utilizada para a final da Taça dos Campeões Europeus de 1992. O Barcelona sabia que, por sorteio, teria de utilizar o equipamento alternativo face à Sampdoria. Como a camisola azul clara também não servia era necessário encontrar um novo modelo. Inspirado na herança holandesa de Michels e Cruyff mas, sobretudo, na mistura do vermelho e amarelo da Senyera, a Meyba forjou uma camisola que entrou para a posteridade. Foi a primeira vez que o clube utilizou, abertamente, uma identidade de cores associada directamente à bandeira política da Catalunha e marcou o principio de uma nova era em que outras marcas desportivas como a italiana Kappa ou a norte-americana Nike souberam explorar em sucessivas variações dessa tonalidade tão catalã.

O fim da parceria catalã

Em 1992 o acordo entre a empresa barcelonesa e o FC Barcelona chegou ao fim. A marca tinha aproveitado a popularidade das suas camisolas blaugranas para entrar em força no mercado espanhol vestindo igualmente outros clubes como Atlético de Madrid, Espanyol, Valladolid, Cadiz ou os vizinhos locais do Espanyol, mas na década de noventa encontrava-se já num período de decadência. O dinheiro começava a falar mais alto e a oferta dos italianos da Kappa era inigualável para os fabricantes locais de tal forma que o acordo tinha sido já assinado ainda antes da final de Wembley que, ironicamente, coroou de forma simbólica para sempre a união entre fornecedor e clube.

Depois de seis anos de Kappa – com alguns dos modelos mais questionados da história do clube – o FC Barcelona assinou finalmente o seu primeiro contrato milionário, com a Nike, que duas décadas depois se mantém vigente, um dos mais longevos do mundo do futebol. Paralelamente a Meyba entrou em decadência e acabou por estar às portas da falência, acabando por se dedicar exclusivamente à produção de calçado e material associado à natação, precisamente os ramos que lhe tinham dado celebridade nos anos sessenta em Espanha. O clube já não tinha a mesma urgência e necessidade de reivindicar-se socialmente perante a sua massa social, uma vez que a actividade política do Barcelona tinha ficado definitivamente estabelecida nesses anos. No entanto é dificil não imaginar que a associação entre a identidade barcelonesa e a Meyba foi parte de um processo mais lato e complexo que ajudou a aproximar ainda mais o clube – a viver naqueles anos uma profunda crise desportiva e institucional – a uma sociedade que começava a despertar do coma social dos anos do franquismo e a valorizar os produtos locais com energia renovada. Para renascer no terreno de jogo e como entidade o clube auxiliou-se dos activos sociais locais e a Meyba, de uma forma ou outra, fez parte desse processo de afirmação. Desconhecida para muitos dos adeptos blaugranas de hoje, foram eles os responsáveis por detrás de alguns dos uniformes mais míticos da história do clube. Mais do que isso, foram eles que ajudaram a relançar a marca Barça. A abrir as portas do futuro com um perfume 100% catalão!

 

 

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