Na luta pela independência das nações africanas o futebol jogou um papel fundamental. Em poucas nações isso foi tão verdade como na Argélia. Quando um dos seus filhos mais célebres, Rachid Mekhloufi, decidiu abdicar da sua glória pessoal para lutar pela independência do seu país, os franceses começaram a perceber que a Guerra da Argélia estava perdida.

O jogo que antecedeu uma guerra

Em Outubro de 1954 organizou-se no Parque dos Príncipes um jogo solidário.

Um terrível terramoto tinha devastado de forma impiedosa a zona do Magrebe, na fronteira entre Marrocos e Argélia. Na metrópole francesa, apesar da crescente desconfiança dos homens da República com os movimentos independentistas locais, gerou-se uma corrente solidária imediata para ajudar as vitimas do terramoto. Foi imediatamente convocado a elite do mundo desportivo gaulês para uma série de eventos que culminaria num duelo entre os melhores jogadores gauleses e aqueles nascidos no Magrebe. A equipa magrebina venceu o encontro de forma categórica. Contava com as grandes estrelas da época do futebol francês, Just Fontaine, Ben Barak e Mekhloufi. Era neles que o povo francês confiava para o próximo Mundial, na Suécia, e ninguém contemplava a possibilidade de que só um deles estaria presente no torneio.

Nas bancadas, incógnitos entre uma multidão repleta de emigrantes magrebinos que davam cor e vida aos banlieus que cercavam Paris, os dirigentes da FLN (Frente Libertação Nacional), eram testemunhas da imensa popularidade dos seus compatriotas em França. E do poder mediático que tê-los ao seu lado podia significar na sua causa. Desde o final da II Guerra Mundial, quando os exércitos do general americano George Patton libertaram a Argélia do Afrika Korps de Romell, que os autóctones começaram a sonhar com a independência. Mas a República gaulesa opôs-se ferozmente. O Magrebe era uma peça nuclear na sua estratégia geopolítica e não estavam dispostos a abdicar dela facilmente como os homens da FNL puderam comprovar na década de confronto surdo que travavam.

Um mês depois do jogo de Paris, a guerra silenciosa explodiu finalmente. Uma série de atentados perfeitamente coordenados despoletou a Guerra da Argélia que duraria quase oito longos anos. E que teria como principal protagonista um desses heróis no relvado, dessa tarde no Parque dos Príncipes. O inesquecível Mekhloufi.

O herói verde e branco

O extremo argelino nasceu em Setif.

Foi nessa cidade que os franceses deixaram a sua marca mais sangrenta de repressão em 1945, quando os primeiros nacionalistas levantaram armas contra a República. Mekhloufi tinha 13 anos e viu como vários membros da sua família foram mortos ou presos. No total houve mais de dez mil vitimas. E uma memória que ficou para sempre. Poucos anos depois o seu imenso talento como futebolista levou-o a atravessar o Mediterrâneo. O Saint-Etienne, então um clube provincial mas que começava a formar uma equipa de talentos recrutados nos vários cantos da República, encontrou nele o homem golo que lhe faltava. Foi uma história de amor à primeira vista.

O verde e branco seria a cor da sua vida.

Ao serviço do clube do coração de França, longe do mar que tanto adorava, Mekhloufi transformou-se numa das maiores estrelas do futebol francês da sua era. Disputou mais de cem jogos com os Les Verts e apontou 59 golos. Em 1957 foi decisivo na conquista do primeiro titulo nacional da história do clube. Nesse mesmo ano venceu a Mundial do Exército, um torneio disputado por seleções militares, representando a França. Mas apesar de cumprir com a sua obrigação com o estado gaulês, do qual era cidadão, o seu ouvido estava constantemente na sua Argélia natal.

Vivia-se então o terceiro ano de confronto armado e o conflito estava ainda bastante equilibrado. Os alvos da FNL deixaram de ser apenas militares e passaram a incluir os civis que queriam permanecer sob a protecção francesa o que levou a opinião popular gaulesa, inicialmente dividida, a apoiar de forma clara o exército gaulês. A batalha de Argel tinha sido ganha pelos franceses e agora os independentistas pareciam recuar para um conflito de guerrilha. Mekhloufi sofria com as noticias mas não estava só. Em França existia já uma grande comunidade de jogadores argelinos, internacionais consagrados, que eram constantemente abordados por representantes da FNL infiltrados em França. O movimento de independência queria que eles se posicionasse de forma pública a favor de um estado livre e nada melhor que o fizessem antes da preparação para o Mundial do ano seguinte.

Numa tarde de Abril, quando a liga caminhava para o seu final, e o Saint-Etienne se preparava para defrontar o Breziers, dois internacionais de origem argelina, Mokhtar Arribi e Abdelhammi Kermali, foram até Saint-Etienne comunicar a Mekhloufi que não se iriam reunir com os restantes internacionais convocados para a concentração do dia a seguir. Iam para a Argélia, como clandestinos, lutar ao lado da FNL não de espingarda nas mãos mas com uma bola nos pés. O astro não hesitou nem um só segundo. Fugiram pela Suiça, entraram em Itália e de aí apanharam um avião em Roma com destino a Tunes. Foi onde se encontrou pela primeira vez com os activistas da FNL que lhe explicaram o seu ambicioso plano.

A seleção da FLN

Mekhloufi seria a estrela, o capitão, de uma seleção da Argélia quando o país ainda não era reconhecido internacionalmente. Com o seu talento no relvado iria levar pelo mundo o nome dos argelinos. Com os seus golos ajudaria a fundar um país.

A equipa formada à sua volta estava repleta de internacionais franceses. Foi um duro golpe às aspirações gaulesas para o Mundial desse ano. Enquanto os dirigentes solicitavam autorização da FIFA para disputar jogos oficiais, a equipa passeava por países que apoiavam a causa argelina, desde o Bloco de Soviético aos já independentes estados africanos. A fama de Mekhloufi crescia mundialmente à medida que disputavam jogos em Hanoi, Moscovo, Belgrado, Rabat, Tunez ou Bagadad. Em quatro anos chegaram a jogar por 91 vezes, mais do que qualquer outra seleção mundial, e com um saldo bastante favorável.

Quando os atentados da FNL e os triunfos no campo de batalha demonstraram a Charles de Gaulle, novo presidente francês, que a guerra estava perdida, o prestigio da equipa e de Mekhloufi subiu ainda mais na comunidade árabe que começou a entender o verdadeiro poder do desporto do povo. A paz entre os dois países foi assinada em 1962, em Evian, poucos meses antes do país se converter, finalmente, numa nação livre. Para ironia do destino, o primeiro presidente oficial do país, um dos fundadores da FNL, tinha sido também um dos mais celebres jogadores do país, nos anos 30 e 40, Ahmed Ben Bella.

“Tu és França!”

No final da guerra, enquanto a Argélia se organizava internacionalmente, fazendo-se finalmente representar na FIFA (antes mesmo que na ONU), Mekhloufi e os companheiros voltaram a França. Foram todos aceites pelos seus anteriores clubes, uma prova do respeito que tinham causado em todos estes anos junto do povo francês. Mekhloufi não tinha perdido nada do seu talento individual. O Saint-Etienne sem ele tinha voltado a cair no abismo da mediania mas com o regresso do argelino, a equipa voltou aos triunfos e aos títulos. Em 1964 sagrou-se campeão de França, titulo que repetiu em 1967 e 1968. Nesse ano, a uma semana de explodir em Paris o Maio de 68, foi o autor dos dois golos que deram aos Les Verts a dobradinha, com uma vitória na Taça. Ao subir ao palco, como capitão, recebeu o troféu de De Gaulle que exclamou para admiração de todos que ele era “a França”. Não era.

No final do ano seguinte abandonou definitivamente o Saint-Etienne e voltou para o seu país Natal, depois de um breve período ao serviço do Bastia. Tornou-se um dos maiores símbolos nacionais do país e em 1982 liderou a Argélia ao seu primeiro Mundial como selecionador, com uma geração de jovens prodígios que cresceram a imitar os seus dribles e remates nas ruas. Uma geração composta por Belloumi, Assad e Rabath Madjer que talvez lembrando-se da gesta do seu líder bateu a Alemanha com a mesma autoridade que a seleção da FLN desafiou o mundo para criar um país.

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