O Guiness Book of Records tem-no como um dos 20 treinadores mais bem sucedidos da história do futebol inglês. E não é por acaso. Lawrie McNemeny durante 30 anos foi um técnico audacioso e que nunca descurou um desafio. Mas foi o seu reinado em Southampton que o levou para os livros da história.

A mítica final que o Southampton não podia ganhar

Apesar de se ter convertido numa lenda do futebol britânico, McNemeny foi um jogador medíocre e nunca chegou a profissional. No entanto como técnico parecia conhecer as quatro linhas com a palma das mãos. Nascido em 1936 em Gateshead, Lawrie McNemeny sobreviveu aos duros anos de guerra e tentou uma carreira desportiva que se revelou falhada ao largo dos anos 50. Mas nunca desistiu de estar envolvido no mundo futebolístico que admirava como poucos. Mais tarde comentaria que falhar como jogador lhe permitiu começar mais cedo a preparar-se para técnico. E assim foi. Em 1964, com 28 anos cumpridos, começou a orientar um clube amador do norte de Inglaterra, o Bishop Auckland. Passou então para o Sheffield Wednesday e mais tarde para o Doncaster onde venceu o titulo de campeão da Four Division. Foi então que o Southampton, um histórico que militava na Second Division, decidiu contratá-lo para relançar a equipa. Os Saints estavam na parte baixa da tabela classificativa à chegada de McNemeny. E o técnico fez história.

No seu primeiro ano, em 1976, chegou à final da FA Cup. O rival era o todo poderoso Manchester United e poucos davam por uma equipa da segunda divisão contra os Red Devils. Era uma final que os homens do The Dell não podiam ganhar frente a um gigante do futebol mundial. Mas os veteranos de McNemeny controlaram o jogo de forma absoluta e num golpe de génio de Bobby Stokes, a sete minutos do fim, decidiu a final. Wembley rendeu-se ao jovem técnico e pela penultima vez uma equipa fora da primeira divisão venceu o troféu. O sucesso na taça teve consequências no campeonato e a equipa falhou por pouco a subida de divisão. No ano seguinte, no entanto, sagrou-se campeã da Second Division e voltou à elite.

O renascimento dos Saints

Na Premier Division o Southampton rapidamente encontrou o seu sitio e sob as ordens de McNemeny passou os restantes anos da década de 70 na parte alta da tabela. Em 1979 voltaram a uma final, desta feita da League Cup. O rival era o Nottingham Forrest mas desta feita a história esteve do lado do Golias e os campeões europeus de Brian Clough venceram sem contestação.

Mesmo assim o Southampton voltou a qualificar-se para a Europa e obteve a sua melhor prestação na Taça UEFA. Com os anos 80 chegou uma nova fornada de jovens talentosos e de estrelas como Charlie George, Allan Ball e, sobretudo, Kevin Keegan, que assinou pelo clube depois da sua passagem pelo Hamburgo, o que levou a equipa voltou a fazer história. Durante 1984 manteve uma impensável disputa com o poderoso Liverpool de Joe Fagan e até ao final da época McNemeny sonhou com o histórico titulo mas um tropeção contra o Aston Villa a três jogos do fim ditou o destino daquele que teria sido provavelmente o mais improvável dos campeões ingleses do futebol moderno. O Liverpool foi campeão e o Southampton logrou o melhor resultado da sua história centenária. Foi também o momento ideal de despedida. Consciente que durante uma década o seu trabalho tinha alcançado níveis inigualáveis no mítico The Dell, o já veterano McNemeny decidiu mudar de ares e assinou pelo Sunderland.

A desastrosa aventura de Sunderland

O clube nortenho tinha acabado de cair na Second Division nesse quente Verão de 1985 e fez de McNemeny o técnico mais bem pago do futebol inglês superando qualquer orçamento dos colegas da Premier Division. Só que o clube estava destroçado, o plantel desfeito e dois anos depois McNemeny saiu pela porta pequena, poucos antes de se consumar a descida do Sunderland à Third Division. A partir daí a sua carreira tomou um rumo descendente. Foi nomeado adjunto de Graham Taylor na seleção de Inglaterra e em 1994 foi nomeado Director Desportivo do seu Southampton. Esteve dois anos tranquilos no posto, desfrutando do génio de um tal Mathew Le Tissier, e em 1997 acabou por ser despedido pela nova direcção. Depois de uma breve passagem como seleccionador da Irlanda do Norte, o homem dos recordes – com o Southampton esteve largos meses sem conhecer o sabor da derrota nas duas primeiras divisões – decidiu deixar o banco de forma permanente passando a trabalhar na televisão como comentador.

Apesar de só ter ganho um título de renome o historial de McNemeny está repleto de feitos inesquecíveis. A forma como moldou o Southampton que marcou a segunda metade dos anos 70 tornou-o num dos técnicos mais acarinhados pelo público inglês que passou a ver no The Dell um fortim intransponível. E ainda hoje os Saints recordam aquela tarde em Wembley como a mais bela das suas vidas.

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