Matthew Le Tissier, o génio de Guernsey

É um verdadeiro enigma que o mais tecnicista futebolista das últimas décadas nas ilhas britânicas seja, ainda hoje, um ilustre desconhecido para muitos. A falta de ambição, o questionável profissionalismo e o seu particular estilo de jogo afastaram-no dos grandes palcos mas não foram suficientes para retirar-lhe um lugar na história da Premier. Matthew Le Tissier eterniza-se por direito próprio.

Hoje já não existe o mítico The Dell, substituído pelo moderno St. Marry´s. Nem existe o poderoso remate literalmente do meio da rua de um jogador que teimava decidir jogos com um gesto que só os predestinados conseguem dar forma. Para depois hibernar. Até ao seguinte momento de glória. Assim foi a longa carreira de Matthew Le Tissier, o herói de Southampton, o símbolo de um jogador que cada vez mais está em desuso. Le Tissier não queria ser uma estrela, um símbolo de marketing.

Gostava de ir ao pub e beber umas cervejas demais. E isso notava-se na sua sempre questionada forma física. Gostava dessa Inglaterra grey and green (cinzenta e verde), e nunca esteve disposto a abandonar as paragens da infância, esse olhar atrevido ao Atlântico do sul da ilha. Nunca foi um desportista profissional ao máximo – como os técnicos hoje exigem – mas foi um adepto do fair-play e um dos últimos cavalheiros dos relvados. Abandonou a carreira sem ter logrado um único titulo memorável. Mas os seus golos – um dos quais eleito o melhor da história da Premier – fintas e arranques passaram à história.

O Génio de Guernsey

Nascido em Outubro de 1968 na ilha de Guernsey, um arquipélago no canal da Mancha, Le Tissier viveu toda a vida ligado ao futebol. Ainda com 10 anos entrou na equipa juvenil do clube local, o Vale Recreation. Sete anos depois o seu talento ecoava por todo o sul da Inglaterra e foi o Southampton, um histórico, a lograr convence-lo a deixar a terra natal. Le Tissier provavelmente não o sabia mas esse seria o seu único clube profissional. Uma carreira que começa em 1985 e que se estende até 2002 num total de 443 desafios e 162 golos, o número mais elevado conseguido por um médio centro na história da Premier. Chamar médio a Le Tissier é uma notória (in)conclusão do estilo do jogador.

Avesso às tácticas férreas, era um dandy no relvado. Basculava entre o centro e o ataque o seu ritmo e apesar de jogar e fazer jogar, corria muito pouco. A bola corria sempre por ele. Depois de um percurso brilhante nos sub-21 ingleses, o médio foi consolidando-se como o lider de uma equipa que era sempre temível de derrotar nas longas viagens ao The Dell. Em 1989 ganhou o prémio a jogador jovem do ano.

Em anos o Southampton lutou pela Europa enquanto que outros foram vividos com a corda na garganta. Em todos eles a figura do clube foi apenas e só Le Tissier. Em 1993-1994, a melhor época do clube, apontou 30 golos, um feito inédito na história do clube perdendo apenas o titulo de melhor marcador para Alan Shearer.

A alma do The Dell

Em 1994, já com 26 anos, estreia-se pela equipa principal inglesa mas por aí só passa durante oito jogos. O seu estilo não se coadunava com uma equipa como a dos Pross e passou rapidamente a proscrito. No entanto, em cada competição, o seu nome era levado a todas as especulações sobre se iria ou não com os 23 eleitos. Nunca o logrou mas várias vezes esteve perto, especialmente em 1998 quando meia Inglaterra pedia a sua inclusão na lista de Gleen Hoodle. Em 2001, quando o The Dell deixou de ser a casa mítica do clube, Le Tissier marcou o último golo do Southampton em casa num jogo louco contra o Arsenal. Nas bancadas chorou-se mais do que se riu de alegria. O médio tinha anunciado também o final de carreira e apenas actuou um ano no novo recinto. Hoje o St Mary´s tem uma bancada com o seu nome mas o clube milita na III Divisão depois de uma queda abismal. Le Tissier ainda tentou comprar o clube mas o negócio falhou.

Amado, mais do que odiado, Le Tissier é um desses jogadores que não tem uma era própria. Avesso a qualquer características tipo, foi responsável por alguns dos melhores momentos da história da Premier. Sete anos depois do seu abandono, o seu clube de sempre vive na pele a sua ausência, e os adeptos ingleses têm saudades de um jogador que tinha o físico de inglês e a técnica de um brasileiro.

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