Hoje em dia todos falam no conceito de manager. Mas poucos sabem como a história começou. É preciso andar atrás no tempo até 1945 para encontrar o homem que criou o conceito moderno de Manager. O mesmo homem que transformou o Manchester United na primeira potência do futebol inglês e que teve o condão de criar, ao longo da carreira, três equipas de sonho. Matt Busby é por isso também um dos pais do futebol moderno.

Ainda decorria a II Guerra Mundial. No meio das forças britânicas, Matt Busby orientava o treino dado aos militares. Era um veterano do futebol britânico, um dos mais consagrados centrais dos anos 30. Numa das licenças a que teve direito Busby encontrou-se com o seu velho amigo, Louis Rocca. Este era, nem mais nem menos, que um dos directivos do Manchester United e tinha tentado levá-lo para Old Trafford por duas vezes nos anos anteriores. Em ambas Busby preferiu os eternos rivais, primeiro o Manchester City e logo o Liverpool. Aí forjou uma notável carreira como jogador, depois de ter chegado com 17 desde a sua Escócia natal a Maine Road. Em Liverpool tornou-se capitão de equipa e líder de uma das melhores defesas da época. Forjou amizade com Bob Paisley antes da II Guerra Mundial ter cortado com a sua carreira. Dando início a outra.

Os “Busby Babes”

A amizade que unia Rocca a Busby era tal que aquele logrou convencê-lo a rejeitar o convite do Liverpool que lhe prometia o posto de treinador assim que a guerra terminasse. Com carta branca da direção, Rocca fez Busby assinar um contrato de cinco anos como Manager. O primeiro da história. O técnico orientava a equipa, decidia os planteis, estruturava as equipas de reservas e formação e tudo isso sem a intromissão da direção. Nunca ninguém tinha tido tanto poder no futebol. A direção aceitou todas as exigências e mal terminou a guerra Busby apresentou-se no destroçado Old Trafford, que ajudou a reconstruir. A sua chegada marcou um antes e um depois na história dos “Red Devils”. O técnico prometeu levar a equipa a disputar o titulo e logrou-o logo no primeiro ano, tendo perdido para o Liverpool precisamente. Foi sub-campeão nas três épocas seguintes e em 1948 venceu a sua primeira FA Cup levando à loucura os adeptos locais que há décadas que não tinham motivos para festejar. A sua equipa capitaneada por Johnny Carey estava repleta de veteranos de guerra e progressivamente o técnico e o seu inseparável adjunto, Jimmy Murphy, foram lançando jovens da formação.

Em 1952 os “Busby Babes” lograram um histórico titulo de campeões. Na equipa já ponteficavam Bill Foulkes, Mark Jones, David Pegg, Jack Blanchflower e o inevitável Duncan Edwards. Ninguém jogava então na “velha Albion” como eles. Em 1956 e 1957 conseguiram um histórico bicampeonato e começaram a etapa final do projeto de Busby: conquistar a Europa.

A vida de Busby podia ter acabado naquela tarde de nevoeiro em Munique. A equipa que se preparava para lograr o tricampeonato e quebrar o reinado do Real Madrid da Europa morreu naquele acidente. Os poucos sobreviventes tiveram de ser substituídos progressivamente na equipa e o próprio Busby esteve perto da morte devido aos ferimentos. A direção do Manchester comunicou-lhe que entendia se preferisse abandonar o projeto. Mas Busby estava mais determinado do que nunca. Apostou em Bobby Charlton, á época suplente de Edwards, um dos malogrados, e à volta dele voltou a construir uma nova equipa. Foi um processo demorado. No entanto as chegas de Nobby Stilles, Dennis Law, John Ashton e Alex Stepney foram compondo o projeto e em 1963 – cinco após o desastre – a equipa voltou aos triunfos vencendo a FA Cup. Dois anos depois, já com um jovem George Best a completar o trio de ases do ataque, a equipa conquistou o seu quinto título sob o comando de Busby. Os “Red Devils” estavam de regresso e dois anos depois, em 1967, voltaram a repetir o triunfo de forma histórica. Estavam lançadas as bases para cumprir um velho sonho. Depois de uma campanha imaculada, o Manchester United chegou à final de Londres como o grande favorito. Mas o rival, o histórico SL Benfica, era respeitado por tudo e todos. Nos minutos antes do jogo a equipa recordou os colegas perdidos em Munique. Mais tarde Charlton diria que sentiu a presença deles à medida que subiam as escadas rumo ao mítico relvado. O jogo terminou empata a 1 mas no prolongamento Best e o jovem Kid desequilibraram a balança. Dez anos depois Munique estava vingado e Busby tornava-se no primeiro técnico a levar um clube inglês ao titulo europeu.

O espírito de Busby

A equipa de Manchester estava, no entanto, a terminar um ciclo glorioso. Tinham perdido o titulo desse ano no último jogo para o rival Manchester City e no ano seguinte desiludiu de novo os adeptos ao falhar repetir o triunfo europeu e caseiro. Busby achou que era a hora do adeus e anunciou que se retirava, 24 anos depois de ter entrado pela primeira vez em Old Trafford. Com Charlton, Stilles e Law envelhecidos e com Best a perder-se entre bebidas e mulheres, a equipa desfez-se. Busby foi incapaz de resistir aos pedidos dos adeptos e voltou ao banco em 1971 ajudando a equipa a evitar a despromoção. Que se tornou inevitável no ano seguinte. Era o final de uma era de glória e apesar de Matt Busby se ter mantido na direção do clube, os “Red Devils” entraram num período negro. Até à chegada de outro escocês, avalado pelo próprio Busby que o conheceu pessoalmente num épico jogo europeu do modesto Aberdeen. Hoje Alex Ferguson é o único sobrevivente do espírito instaurado por Busby e prepara-se para igualar o veterano treinador em anos à frente do clube que ajudou a reformar.

Matt Bubsy tornou-se rapidamente na maior referência do clube, por encima de qualquer um dos seus jogadores. A sua estátua preside alegremente a entrada do Teatro dos Sonhos e a sua figura é constantemente recordada. Forjou três equipas campeãs de gerações bem distintas e abriu a era de conquistas inglesas na Europa. Acabou a carreira com apenas cinco títulos de campeão mas a forma como soube fazer o clube sobreviver aos constantes sobressaltos tornaram-no numa lenda. As suas disputas constantes com Bill Shankly e Don Revie consolidaram-no como um dos nomes mais amados do futebol inglês. E o primeiro Manager da história foi, provavelmente, também o mais completo.

1.702 / Por