No coração de África o futebol ainda é, para muitos, a última esperança. No sentido mais literal possível. O projeto Mathare Youth Sports Association tornou-se nas últimas décadas no farol de salvação para muitos jovens quenianos. O seu clube profissional, Mathare United, é um símbolo de uma forma diferente de viver o jogo. A tal ponto que o Nobel da Paz esteve a ponto de ser seu.

Rivais de Bono

Bob Munro chegou em 1986 a Nairobi. O que viu deixou-o devastado.

A capital do Quénia era uma sucessão de dramas humanos, de miséria, lixo, abandono e desespero. A esperança média de vida era mínima, a esperança, por si só, em sobreviver, quase nula. Mais de 700 pessoas morrem ao dia nessa favela que é Mathare por culpa da SIDA. Num universo de mais de 600 mil pessoas num dos bairros mais pobres do Mundo, viver é um termo dúbio. No meio desse caos humano, Munro descobriu que havia algo que ainda roubava um sorriso aos pequenos desnutridos, doentes, abandonados ou, simplesmente, vitimas de uma tragédia humana única. As bolas de futebol, de farrapos quase todas, voavam entre pernas pelas lixeiras que faziam de ruas até campos onde as toneladas de produtos tóxicos e restos se amontoavam como se fossem bancadas artificiais. O futebol era a única forma de esquecer o drama do dia a dia. Munro, canadiano, percebeu imediatamente que esse era o único caminho possível para fazer algo diferente.

Dezasseis anos depois, Munro recebeu uma noticia inesperada. A sua ideia, já convertida em projeto, tinha atingido a maioridade. Uma carta, selada, imponente, trazia a novidade. O Mathare Youth Sports Association tinha acabado de ser pré-nomeado ao Prémio Nobel da Paz. Estavamos em 2003. Entre os nomeados contavam-se personagens tão emblemáticas como João Paulo II e Bono, vocalista dos U2. Um pequeno clube do Quénia, nascido para combater o drama infantil e a pobreza, tinha marcado o seu golo mais importante. Quatro anos mais tarde, o MYSA repetiu a nomeação. Voltou a não vencer mas o reconhecimento internacional à ideia era o mais importante. Os prémios e louvores chegaram de outro lado. Galardoados pelo reino holandês, Munro e os seus conseguiram vários subsídios de apoio da Federação Holandesa de futebol e de vários países e associações escandinavas.

O nascimento do Mathare Youth Sports Association foi um raio de luz para o futebol africano. Munro começou o projeto do nada. Organizou em 1987 um torneio entre as varias equipas de adolescentes de Nairobi para determinar aqueles que tinham capacidade para entrar na associação. Os melhores jogadores e projetos colectivos, dos distintos bairros, foram premiados com um cartão de associado. Era a diferença entre viver na mais absoluta miséria e sonhar com algo mais.

Com o apoio das Nações Unidas, Munro conseguiu construir ao longo dos anos vários campos desportivos no meio dos bairros de lata com as mínimas condições para a prática do futebol. Rodeou-os de pequenas escolas, bibliotecas e centros de dia onde os jovens têm um espaço para prosseguir os seus estudos ou – caso não tenham capacidade para entrar numa escola pública – para terem lições com professores privados suportados pela associação. O MYSA é também responsável, em muitos casos, por resolver os problemas médicos e de desnutrição dos seus jogadores e, em alguns momentos pontuais, dos seus núcleos famíliares. As crianças colaboram como podem, ajudando a manter o bairro limpo, respeitam o sistema educativo imposto pelo grupo e ajudam a trazer mais crianças para a asa protectora da associação através das suas pequenas equipas de bairro. Em troca, recebem uma vida melhor graças à sua paixão pelo futebol.

Em 1992, Munro quebrou um dos maiores tabus do futebol africano e abriu as portas do projeto também a raparigas, criando duas equipas oficiais em cada escalão etário. Hoje, elas são a maioria num grupo de 14 mil crianças associadas ao projeto. Á medida que os adolescentes que tinham começado o projeto chegavam à idade adulta, foi fundado o Mathare United FC para prosseguir o projeto com aqueles que querem fazer do futebol o seu futuro.

A nível profissional o Mathare United tornou-se rapidamente num caso de sucesso. Começou a escalar divisões no futebol queniano até estabelecer-se comodamente na primeira. Terminou durante cinco anos seguidos nos quatro primeiros lugares e em 1998 venceram a taça do país pela primeira vez. O projeto passou a ser respeitado pela comunidade futebolística que, até então, o via apenas como uma organização social sem grandes ambições competitivas. Desde esse momento até à atualidade, o Mathare United já forneceu mais de trinta jogadores à seleção do Quénia. Alguns, como Jamal Mohamed ou Dennis Oliech, cumpriram o sonho de todo o jovem das favelas de Nairobi e assinaram contratos com equipas europeias. Nas camadas jovens do futebol queniano a presença de jogadores formados nas escolas da MYSA é absoluta. Eles são o futuro do país.

Em 2008 a equipa cumpriu um sonho quase impossível quando Munro, duas décadas antes, decidiu por mãos à obra. A vitória no campeonato de liga do Quénia – depois de varias tentativas fracassadas – foi o culminar do sucesso desportivo do Mathare United. Como sempre, o dinheiro atribuído ao campeão bem como os contratos publicitários gerados por um emblema que hoje está entre os mais populares de África, foram para o projeto MYSA.

Por sua vez, a equipa direcciona os rendimentos para combater a prostituição infantil, a desnutrição e o abandono escolar nos bairros de lata da capital queniana. A cada golo que os jogadores profissionais adultos marcam, um pequeno queniano é recompensado com uma vida diferente. O facto de todos os jogadores do Mathare United terem começado a sua carreira nas escolas da MYSA – o clube não contrata jogadores adultos de outros clubes – permite manter esse sinal de identidade com a comunidade local e serve de inspiração para os mais novos. Diz-lhes que um futuro melhor é sempre possível. Os jogadores da primeira equipa são obrigados, por contrato, a realizar 20 horas de trabalho semanas na comunidade, a receberem e darem cursos sobre temas tão importantes como a luta contra a SIDA junto dos mais pequenos e a participarem em todo o tipo de programas sociais que se desenvolvam na capital para combater a exclusão social infantil.

O prémio Nobel pode ter sido um sonho demasiado alto, dignidade reservada a personalidades que contribuem para fazer deste um mundo mais justo e pacifico como o recém-eleito presidente norte-americano Barack Obama, mas o trabalho desenvolvido pelo Mathare United nas últimas décadas no Quénia é a prova viva de que o futebol ainda é, em África, a pequena balsa a que os desesperados se agarram para sonhar com uma vida melhor longe do caos e do drama do quotidiano.

2.383 / Por
  • Esequias Pierre

    Um maravilhoso trabalho foi e é desenvolvido pela projeto do Mathare United, ajudou e deu vida a muitas crianças e famílias nesses anos de atividade, sem dúvidas merece mais do que o Nobel, por que sua contribuição é real e objetiva para o desenvolvimento das comunidades em que esta inserido.