Bob Marley, o futebol e o ritmo do reggae

Poucos ícones globais devotaram tanta paixão ao beautiful game. Para Bob Marley, o futebol era liberdade e uma fonte directa de inspiração. Com as suas crenças no rastafarismo e a sua paixão pelo reggae, Marley encontrou no futebol uma das mais fortes razões para continuar com a sua luta por uma sociedade mais justa.

Trocar os pés pela voz

É curioso que Bob Marley, o homem reverenciado por meio mundo como uma das figuras mais emblemáticas da história da música, esteve muito perto de deixar de lado a guitarra e abraçar uma carreira como futebolista. Era um jogador tecnicamente dotado, fisicamente possante e com uma paixão pelo jogo tremenda.

Durante alguns anos equacionou a possibilidade de abandonar a sua Jamaica natal para tentar a sua sorte nos campos ingleses. No final, a sua crença numa religião que começava a ganhar adeptos na ilha levou-o a espalhar a mensagem através da música e o futebol ficou relegado para um segundo plano. Mas só na mente dos seus seguidores. Marley continuava a ser um devoto praticante e um adepto entusiástico. Em cada tour à Europa, o música passava horas em estádios e bares a acompanhar jogos e a procurar inspiração para a próxima música.

A ironia suprema da sua vida, de um homem que defendia a vontade de viver por cima de tudo, sucedeu em consequência de um dos seus jogos habituais na sua estadia londrina. Uma pequena lesão levou-o ao hospital local e as provas indicaram que Marley sofria de cancro. Podia ter tentado um tratamento médico pioneiro para tentar curar-se do mal que o consumia por dentro mas a sua profunda crença no rastafarismo levava-o a aceitar desafiar a vontade divina. No final confessou que o que mais lhe custou foi sentir como a doença lhe arrancava do corpo as forças para rematar uma bola.

O filho dos subúrbios jamaicanos

Marley nasceu em Nine Mile, uma aldeia jamaicana extremamente pobre, em 1945. Filho de um inglês e de uma jamaicana, desde sempre aprendeu a conviver com a multi-culturalidade. O pai ensinou-o a jogar e desde pequeno tornou-se evidente que Marley estava destino a crescer com uma bola colada aos pés descalços.

Anos mais tarde mudou-se com a mãe para um bairro, nos subúrbios de Kingston.

Aí começou a forjar a sua identidade musical, que o transformaria nos anos 60 na mais importante figura da música local. Mas também aí conheceu aquele que seria um dos seus amigos inseparáveis, Allan Cole, à época o mais talentoso futebolista jamaicano e um dos homens que o introduziram ao culto do rastafarismo. Quando a carreira deste terminou, tornou-se em parceiro de digressão de Marley onde quer que este fosse.

Nessa mescla de música, futebol e rastafarismo forjou-se o ícone que hoje conhecemos.

Uma guitarra e uma bola

À medida que ia crescendo como ícone musical, ao lado da sua banda, The Wailers, a sua paixão pelo futebol europeu aumentava exponencialmente. As suas primeiros digressões, ainda nos anos 60, levaram-no a palcos em Londres e Manchester e ás bancadas de White Hart Lane e Old Trafford.

Em cada digressão, ao lado dos instrumentos musicais encontravam-se sempre bolas, chuteiras e camisolas. Marley estava sempre preparado para desafiar músicos e desportistas locais. Jogou contra Chico Buarque nas praias de Copacabana, desafiou os Rolling Stones a formarem uma equipa para jogar contra a sua banda e surpreendeu Serge Gainsbourg num amigável disputado em Paris, aquando de um dos seus primeiros concertos na capital francesa.

Curiosamente, e apesar da sua paixão, Marley nunca procurou confundir o seu amor pelo futebol com a sua música. Para ele a forma de louvar a religião Rastafari, o seu profeta, Haile Selassie, e o regresso às origens, a Zion (a Etiopia, pátria de todos os negros espalhados pelo mundo), só podia fazer sentido através da música e era com ela que veiculava as suas mensagens de alto teor social, muitas quais com impacto político real na própria Jamaica onde desde cedo se transformou em estrela nacional.

Quando arrancou, na década de 70, com a sua carreira a solo, a sua imagem internacional era de tal forma reverenciada que vários desportistas e futebolistas faziam referência à inspiração que Marley lhes oferecia. Ruud Gullit, um dos primeiros a desafiar as convenções sociais e a subir a um relvado com rastas, lamentou várias vezes nunca ter podido conhecer pessoalmente Marley mas confessou a profunda influência que a sua música e paixão pelo futebol tinha tido na sua adolescência como filho de um emigrante do Suriname em Roterdão.

O sonho por concretizar

Em 1980, sentindo que as forças lhe começavam a faltar, Marley confessou aos amigos que estava a pensar deixar a música para dedicar-se a tempo inteiro na criação de uma escola de futebol para crianças pobres na Jamaica.

Contactou com Paulo César, internacional brasileiro e amigo pessoal, e entre ambos combinaram convidar Pelé e Ossie Ardilles, os dois ídolos do músico, para uma apresentação oficial do projeto em Kingston no ano seguinte. Os fundos da sua música seriam dirigidos para uma fundação que iria responsabilizar-se pela manutenção da escola enquanto Paulo César seria responsável por contactar com clubes brasileiros de forma a estabelecer uma parceria logística de troca de material desportivo por jovens promessas formadas na escola.

O sonho acabou por morrer com ele. No ano seguinte, Marley perdeu a longa batalha contra o cancro com apenas 36 anos. Com ele foi-se uma das vozes que mais marcaram a história do século XX e também um dos mais entusiastas amantes do futebol que o mundo conheceu.

2.727 / Por
  • Joselito s da silva

    É O máxcimo