Em 1985 nasceu o Mandela United Football Club. Uma equipa criada sob os desígnios do líder da luta contra o Apartheid, Nelson Mandela, um profundo amante do futebol. Mas o clube nunca disputou um só jogo. Fachada da milícia terrorista controlada pela mulher de Mandela, o clube tornou-se numa das memórias mais sombrias da luta contra o racismo na África do Sul.

A paixão do preso 46664

Com 67 anos, Nelson Mandela cumpria em 1985 o seu 22º segundo ano de prisão.

No pouco tempo livre que tinha, Mandela não abdicava de dar uns pequenos toques nas bolas gastas e velhas que a guarda policial da ilha Robben guardava nas arrecadações. Desde jovem que tinha alimentado a paixão pelo jogo que tinha conquistado o continente africano. O futebol tinha demonstrado ser uma das mais eficazes das bandeiras contra a ocupação colonial. Mandela foi testemunha de como Mekhloufi na Argélia ou Nkrumah no Gana tinham demonstrado a habilidade de fazer do esférico a melhor arma de propaganda para o ideal de independência dos povos africanos. Na sua luta contra a ocupação branca da África do Sul, o jovem “Madiba” não teve oportunidade de seguir pela mesma via. O jogo, como tudo na África do Sul, estava segregado e limitado maioritariamente à população negra.

Os desportos da minoria branca eram o cricket e, sobretudo, o rugby enquanto nos townships suburbanos desenvolviam-se ligas clandestinas a que o governo de Pretoria fechava os olhos. Em 1957, meses antes do arranque da primeira edição da CAN, os sul-africanos foram suspensos pela organização do torneio por se recusarem a apresentar uma equipa mista. Pretória era clara na sua mensagem. Podia enviar uma equipa de jogadores brancos, a maioria dos quais sem preparação, uma equipa exclusivamente de futebolistas negros dos clubes dos subúrbios das principais cidades como o Kaiser Chiefs ou o Orlando Pirates. Mas uma equipa conjunta nunca.

O resto das federações africanas também foram explícitos. Baniram a África do Sul da CAF, tornando-a num estado pária no futebol internacional. Mandela, já símbolo da resistência negra, aplaudiu a decisão. Pouco depois era detido e  transformado no preso 46664, o mais célebre do sistema penitenciário sul-africano.

A influência de Winnie Mandela

Mesmo detido, Mandela continuou a ser o grande simbolo da resistência contra a política segregacionista do Apartheid. Do lado de fora dos muros da prisão da ilha Robben, a mulher de Mandela, Winnie, tinha-se tornado numa das ideológas do movimento contra o Apartheid. Contava com o apoio do marido e dos seus mais fieis seguidores.

Depois do levantamento do Soweto, em 1976, a radicalização das posturas na África do Sul contribuiu ainda mais para reforçar o poder de Winnie Mandela dentro do ANC, o principal partido político contra o Apartheid. Mas a sua liderança não era inquestionável e Winnie temia ser vitima de um ataque, não dos homens armados do governo mas das fações rivais dentro do partido. Foi então que, em pleno processo de degelo nas relações entre os seguidores de Mandela e o governo sul-africano, cada vez mais pressionado por Washington e Moscovo, que Winnie Mandela surpreendeu a África do Sul com o anúncio da criação de um clube de futebol que ostentaria o nome do seu marido. O Mandela United Football Club.

O que inicialmente parecia uma manobra política de reivindicação social sobre os direitos da maioria negra, fortemente apaixonada pelo jogo, tornou-se na realidade um pesadelo para os habitantes do Soweto. Apesar de ter sido oficialmente inscrito como clube dentro da federação de futebol alternativa da comunidade negra, o Mandela United nunca disputou um jogo. Nunca subiu a um relvado de futebol para medir-se com os restantes clubes das ligas do Soweto. Porque, na realidade, era tudo menos um clube de futebol.

O terror nas ruas do Soweto

Por detrás da fundação do Mandela United FC estava uma mílicia armada formada pela própria Winnie Mandela, sem o conhecimento do marido, para a proteger de qualquer ataque militar ou tentativa de assassinato. Os jogadores inscritos não eram mais do que guarda-costas e guerrilheiros que circulavam armados pelas ruas do Soweto espalhando o terror.

Equipados de laranja e verde, os treinadores e jogadores do Mandela United não só patrulhavam a casa onde vivia Winnie como eram igualmente destacados para ações punitivas contra os seus inimigos políticos. O que se criou pensando numa arma de defesa, utilizando a popularidade do futebol como cobertura, rapidamente transformou-se num movimento ofensivo da senhora Mandela e a vida nas ruas do Soweto, uma das zonas mais sobre-povoadas do Mundo nos anos oitenta, tornou-se ainda mais negra.

Durante três anos, os membros do clube foram responsáveis por mais de uma dúzia de assassinatos, entre rivais políticos e jovens inocentes, de incontáveis números de violações de adolescentes sul-africanas e de vários desacatados à ordem pública. Os componentes do Mandela United FC caminhavam tranquilamente pelas ruas da cidade, sentindo-se impunes graças ao patronato de Winnie Mandela mas à medida que se começava a desenhar nos bastidores uma solução pacifica para o problema do Apartheid, a mulher de Mandela começou a perder a sua influência política.

Madiba, o arquitecto do renascimento sul-africano

A substituição de Wil Botha por Frederik de Klerk foi o passo definitivo para o compromisso político comum entre a minoria branca e a maioria negra liderada por Mandela. Meses depois, “Madiba” é solto para delirio da população sul-africana e o aplauso entusiasmado do resto do Mundo. Uma decisão politica que abriu as portas para o fim definitivo do Apartheid, três anos depois, culminado com a ascensão de Mandela à presidência do país. Para Winnie Mandela, era o fim da sua história de influência política. Após a libertação de Mandela os seus rivais apressaram-se a denunciar publicamente o terror armado do Mandela United Football Club, algo a que não se tinham atrevido nos anos anteriores. Winnie foi julgada e condenada em 1991 pela morte de um adolescente sul-africano de apenas 14 anos.

Chocado com o comportamento da sua companheira de luta, meses depois Nelson Mandela oficializou o seu divórcio. Os “jogadores” do clube foram detidos pela política e encarcerados mas Winnie Mandela foi finalmente solta depois do apelo do seu advogado ter transformado os seis anos de pena numa multa. Foi a primeira de muitas acusações que a “Mãe da Nação”, como era conhecida entre os sul-africanos, teve de enfrentar nos anos que se seguiram à sua separação.

Nelson Mandela tornou-se em 1993 o primeiro presidente da república negro da África do Sul. A sua influência política foi essencial para a readmissão do país na CAF e na organização, em 1996, da CAN no território sul-africano. Os locais venceram a final contra a Tunísia com Mandela eufórico nas bancadas. Quase uma década depois, a sua influência política voltou a ser decisiva na concessão ao país do primeiro Mundial de futebol a ser organizado no continente africano. Momentos dourados da história do futebol africano associados à imagem imensa de Mandela que, sem conhecimento, também deu nome a um dos episódios mais negros do futebol sul-africano e da sua luta contra o Apartheid.

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