São um dos maiores clubes da história do futebol conhecidos nos quatro cantos do mundo como os “Diabos Vermelhos” mas a história do Manchester United existe graças a um cão. Um personagem único que permitiu a salvação do clube quando esteve a ponto de desaparecer para dar inicio à lenda de Old Trafford.

O anúncio num jornal que salvou um clube

Harry Stratford colocou um anúncio no jornal. Estava desesperado e não sabia mais o que fazer. Levava dois dias à procura de Major mas ninguém o tinha visto. Major era o seu cão, um belíssimo São Bernardo que servia de companhia diária e de mascote da equipa de futebol que Stratford capitaneava. Uma equipa que estava à beira da falência. O desaparecimento do cão não era só um drama pessoal para Stratford. Podia significar também o fim do seu clube. Nas semanas anterior o jogador tinha dado inicio a uma colecta de fundos para pagar as dividas acumuladas nos anos anteriores. Uma das formas habituais de o fazer era passear com Major pelas ruas. O cão levava atada à coleira uma lata onde as pessoas colocavam as moedas e as notas.

Quando Major desapareceu com ele desapareciam também as poupanças acumuladas do dia. Não era muito mas podia ser suficiente para resgatar o Newton Heath do anonimato da história. De repente alguém indicou a Harry que o cão tinha sido localizado perto de uma cervejaria na posse de um homem que andava a perguntar se alguém conhecia o dono. Queria comprar o cão para a sua filha adolescente que tinha ficado fascinada com a beleza e o porte do animal. Stratford correu para o encontro pensando tanto em Major como na lata que o acompanhava. Quando chegou ao local do rendez-vous teve uma surpresa. Aí estava o cão, belo e imponente como sempre, lata ao peito, dinheiro dentro. Ao seu lado, de pé, um homem que iria mudar a sua vida para sempre. A sua e a vida de todos os amantes do futebol mundial. Aí estava John Henry Davies, o fundador do Manchester United.

A transformação do Newton Heath a Manchester United

As origens do Man Utd remontam a uma anterior reencarnação que nos leva aos dias escuros, cinzentos e diabólicos da construção da rede de caminhos de ferro no norte industrial inglês. O clube nasceu como forma de distração dos trabalhadores da companhia Lancaster and Yorkshire Railway que nas horas vagas dedicavam-se exclusivamente a beber e organizar combates de boxe sobre os rails recém-montados. Estávamos em 1878 e o futebol tinha chegado ao mundo operário depois dos seus anos de formação no universo estudantil dos colégios britânicos. A aposta da companhia revelou-se acertada e rapidamente não só o ambiente laboral mudou como o clube cresceu em importância a ponto de deixar de ser meramente um passatempo para os trabalhadores para incorporar os melhores jogadores da região a troca de uma promessa de trabalho na companhia.

O nome do clube, Newton Heath LYR era uma constante lembrança das suas origens ferroviárias e começou a fazer-se ouvir pelos campos de futebol em Inglaterra a ponto que em 1892 a equipa estreou-se na First Division, ainda que sem sucesso. Foram então que começaram os problemas financeiros. Os dirigentes do clube decidiram separar-se formalmente da companhia de caminhos-de-ferro que, por oposição, retirou os fundos de apoio e o terreno de jogo onde a equipa disputava os seus encontros. As dividas foram-se acumulando a tal ponto que o Newton Heath chegou ao inverno de 1902 mais perto da sua dissolução como sucedia com tantos outros projetos à época. Foi então que o capitão Harry Stratford tomou a desesperada decisão de organizar uma colecta entre os cidadãos de Manchester. Durante uma semana, lado a lado com Major, o seu São Bernardo, passeou-se pela zona comercial da cidade em busca de donativos. Até o clube rival, o Manchester City, colaborou. Na tarde em que se cruzou com John Henry Davies está longe de pensar que a sua decisão tinha dado inicio a uma lenda.

O nascimento de uma lenda em Old Trafford

Davies era um dos homens mais ricos do norte de Inglaterra e um desportista consumado. Ouviu atentamente a descrição que Stratford fez da situação do Newton Heath e decidiu tomar cartas no assunto. Combinou com Stratford que em troca de adoptar Major para a sua filha, tomaria conta do clube, saldaria todas as dividas e investiria do seu próprio bolso uma pequena fortuna para recomeçar do zero. Stratford não podia acreditar na sua sorte. Dias depois do seu encontro com Davies a paróquia do Newton Heath reuniu-se em assembleia, onde o magnate fez publica as suas promessas. A meio do discurso fez menção da necessidade de começar do zero pelo que era oportuno dar um novo nome ao clube. Debateu-se a possibilidade de usar o Manchester Celtics ou o Manchester Central até que um pequeno adolescente chamado Louis Rocca – mais tarde secretário, treinador e responsável pela contratação de Matt Busby – subiu ao palco para propor um nome que acabaria por agradar a todos. O clube chamar-se-ia Manchester United.
A história do Man Utd começou nessa tarde. Davies cumpriu a sua promessa. Pagou em conjunto com outros investidores amigos as 2000 libras de dividas e comprou uns terrenos ao conde de Trafford para dar uma nova casa ao seu clube.

De seguida, contratou o iminente arquitecto Archibald Leitch para construir o melhor estádio do país. Em 1910 nascia o Old Trafford, recinto que é ainda hoje um dos mais populares do mundo. Utilizou a sua fortuna pessoal para financiar a contratação de varias jogadores de primeiro nível entre os quais Charlie Roberts, Sandy Turnbull e o mítico Billy Meredith, o verdadeiro antecessor de Duncan Edwards, George Best, Eric Cantona e Cristiano Ronaldo com a camisola vermelha – o clube tinha trocado as cores amarela, verde e azul pelo vermelho, branco e preto – e assinou contrato com o primeiro de três escoceses que dirigiram o clube, o genial Ernest Mangnall. Tudo isso precipitou o renascimento de um clube então na segunda divisão e condenado a desaparecer.

Em 1908, seis anos depois, o Manchester United conquistou o seu primeiro titulo de liga. O resto tornou-se lenda com o passar dos anos. Uma lenda que nunca teria existido se não fosse por Major. Num clube conhecido por todos pela sua associação aos “Diabos”, poucos se lembram que nada teria sido possível se não tivesse sido pela ação de um cão que nos anos seguinte à compra do clube por Davies foi formalizado como a mascote oficial, tomando parte nas fotos de conjunto. À morte de Major, poucos anos depois, alguém sugeriu que se colocasse uma placa lembrando que graças a ele existia o Manchester United. A ideia foi ignorada mas a verdade é que ele tinha toda a razão. Com Major a saga dos “Diabos Vermelhos” começou finalmente!

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