Os swinging sixties consagraram para sempre o Manchester United como um dos maiores clubes do mundo mas poucas equipas inglesas viveram tão intensamente esses anos loucos como os seu históricos rivais. Durante os anos sessenta o Manchester City converteu-se num dos clubes com mais glamour do futebol mundial.

O clube que encarnou o espírito dos sixties

Em Liverpool a Kop começava a aprender de cor a letra de Youll Never Walk Alone. No interior, em Leeds, Don Revie forjava um verdadeiro batalhão militar que fazia de Elland Road um forte inexpugnável. Na capital londrina havia o futebol espectáculo dos Spurs, a lista de celebridades que enchiam Stamford Bridge para assistir aos jogos do Chelsea e os ínicios das crónicas hornbyanas do Arsenal. Manchester reinava supremo. Tinha a melhor equipa das ilhas e tinha também a mais cool das equipas das ilhas. E não eram a mesma. Durante a década de sessenta nos poucos quilómetros que separavam Old Trafford e o velho Maine Road vivia-se a pura essência do futebol britânico. Os Red Devils, sobreviventes emocionais únicos daquele desastre inesquecível de Munique, reergueram-se, uma vez mais, debaixo da batuta de Matt Busby e da liderança de Bobby Charlton. Eram a mais eficaz e deslumbrante equipa da década em Inglaterra, algo para o qual o génio de George Best contribuiu enormemente depois da sua explosão definitiva quando ainda era um adolescente. Os modestos vizinhos que vestiam de azul claro como o céu podiam não ter nem uma história trágica, um manager de elite ou uma série de títulos recentes que comprovassem o seu estatuto. Mas eram uma das mais apaixonantes e cativantes equipas de futebol em toda a Europa. Durante os dez anos que forjaram o espírito dos swinging sixties não se destacaram pelos títulos conquistados. Foram campeões apenas por uma vez – e precisamente no ano em que o título foi ofuscado pela consagração continental dos seus rivais – e venceram uma FA Cup e uma Taça das Taças, um torneio europeu sim, mas não o que contava. No entanto a forma espectacular e despreocupada de jogar da sua mais brilhante geração permitiu garantir para sempre um lugar no panteão do futebol champagne dessa fabulosa formação nesses anos inesquecíveis.

A apaixonante reconstrução do Manchester City

Até 1965 a história do Manchester City não era brilhante. Tinham sido campeões por última vez em 1930 e desde então apenas o triunfo nas finais da FA Cup em 1934, primeiro, e depois em 1956 – graças ao génio do guarda-redes alemão Bert Trauttman que fracturou o pescoço durante o encontro e do papel de Don Revie como falso nove – e pouco mais podiam adicionar ao seu currículo muito distinto dos seus rivais de Old Trafford que tinham-se consagrado nos anos cinquenta como uma das mais brilhantes formações do futebol mundial. Nesse ano tudo mudou. Joe Mercer foi nomeado manager do clube e trouxe consigo um jovem e ambicioso treinador adjunto, Malcolm Alisson, destinado a grandes momentos nos anos seguintes. A dupla Mercer-Allison, com o primeiro mais concentrado no trabalho de gestão do clube e o segundo mais ligado ao treino e trabalho táctico da equipa, mudou profundamente o espírito do clube Citizen. O clube estava há duas temporadas na Second Division e graças ao génio táctico da dupla técnica conseguiu nesse mesmo ano a promoção á elite. Foi um momento fundamental porque permitiu ao clube investir na reformulação do plantel. O olho clinico de Allison começou a trabalhar e nesse mesmo verão chegaram a Maine Road dois nomes fundamentais da história do clube, Colin Bell e Mike Summerbee. Bell tinha-se destacado no Bury durante a adolescência e chegava com vinte anos recém-cumpridos ao mesmo tempo que Summerbee, com vinte e quatro anos, deixava o seu clube de formação, o Swindon Town, para transformar-se no novo maestro de jogo ofensivo do City. Summerbee foi para o City o que Best revelou ser para o United. Na ala direita fazia a diferença e impunha toda a sua criatividade e espírito ofensivo ao tempo que Bell, mais cerebral, pautava o ritmo de jogo colectivo desde a medular. Os golos ficavam a cargo de Lee, o veterano do tridente e um dos mais prolifero avançados da sua geração.  Bell, Lee e Summerbee não eram só estrelas em campo como viviam apaixonadamente fora dele forjando com Best uma longa amizade que atirou o quarteto para alguns dos mais hilariantes episódios da década entre noites de celebração, modelos, carros desportivos e ressacas inesquecíveis.

A um duro ano de adaptação ao futebol de elite com a equipa a finalizar a temporada no 15º posto seguiu-se um dos anos mais brilhantes da história do futebol inglês por qualquer equipa. O ano em que Manchester também foi a cidade do City.

1968, o ano de Manchester

Manchester estava em festa com a reconquista do título por parte do Manchester United mas não imaginava sequer que as celebrações de Maio de 1967 iriam empalidecer com o final da temporada de 1967/68, a mais brilhante da história da cidade até hoje. E se o United foi incapaz de revalidar o ceptro nacional – só voltaria a ser campeão em 1993 – a sua campanha europeia finalizada em Wembley com o título continental garantiu-lhe de imediato todo o destaque. A glória doméstica, essa, ficou a cargo dos seus vizinhos. Allison e Mercer tinham aperfeiçoado a máquina. Movendo-se entre um 4-2-4 e mais tarde um 4-4-2, com o posicionamento de Summerbee como segundo avançado – o jovem Stan Bowles substituiu-o na ala direita – a ser determinante nas manobras do colectivo, o Man City arrancou para um ano memorável com um empate a zero com o Liverpool de Bill Shankly. Seguiram-se duas derrotas e depois uma sequência de cinco triunfos que os colocou na liderança do campeonato. Mercer contratou Lee durante esses meses de altos e baixos na classificação e o City nunca mais olhou para trás. A conexão Bowles-Bell-Young-Summerbee-Lee revelou-se determinante e depois de uma histórica vitória contra o Tottenham Spurs a imprensa começou a catalogar o clube como o mais excitante de todo o futebol britânico. Jogando de forma menos directa e mais apoiada, num modelo de jogo similar ao praticado anos anos pelo próprio Tottenham, o City rapidamente se aproximou dos conceitos continentais do jogo de possessão com o talento de Summerbee a marcar quase sempre a diferença nos momentos críticos. Depois de uma vitória sobre o Sheffield Wednesday a finais de Março a equipa voltou ao primeiro lugar com um ponto mais do que os seus rivais de Old Trafford. As contas eram simples. Vencer os três jogos seguintes – ou esperar um tropeção do United – garantiam o título. Frente ao Everton a equipa entrou nervosa mas acabou por vencer por 2-0 e dias depois, em White Harte Lane, repetiu o resultado triunfal deixando tudo para o último dia da temporada. Dois pontos separavam os dois clubes de Manchester e o Liverpool e tudo podia passar ainda no último dia. Nem os homens de Busby nem os de Shankly falharam e a tensão vivida nessa tarde em Maine Road só encontraria paralelo com o golo agónico de Sergio Aguero quase meio século depois. Summerbee abriu o marcador mas o Newcastle empatou de seguida. Young voltou a colocar os locais em vantagem mas uma vez mais os Magpies empataram e só depois de Young, de novo, e Lee ampliarem a vantagem á hora de jogo é que as contas do título ficaram definitivamente encerradas. O ceptro ficava em Manchester mas mudava de cor. Era azul celeste.

A lenta e gloriosa decadência do champagne supernova Citizen

O ano memorável de 1968 teve continuidade mas não nos cenários esperados. A equipa não só não conseguiu revalidar o título – teria de esperar por 2011 para voltar a celebrar uma liga – como acabou a temporada no 13º lugar. Na Taça dos Campeões Europeus a expectativa era grande principalmente depois da vitória do United, o primeiro clube inglês a ganhar o troféu, na época transacta. Inadaptados ás exigências do futebol europeu o City foi no entanto decepcionante e acabou por cair ás mãos do Fenerbache turco. Valeu a Mercer e Allison o triunfo na final da FA Cup, contra o Leicester City, para garantir que, pelo segundo ano consecutivo o clube levantava o troféu. Não seria o último. Na seguinte temporada os Citizens conquistaram a recém-criada Taça da Liga frente ao West Bromwich Albion e também a Taça dos Vencedores das Taças, o segundo troféu da UEFA, numa campanha que começou frente ao Athletic Bilbao e finalizou com uma final contra os polacos do Gronik Zabzre. A 29 de Abril no Prater de Viena, vestidos com as suas cores originais, a camisola listada de preto e vermelho, o City impô-se com um 2-1 graças aos golos de Young e Lee, de grande penalidade. Summerbee, ausente por uma lesão contraída na final da Taça da Liga, viu a final desde o banco de suplentes no meio de um diluvio imenso que fez com que estivessem apenas oito mil espectadores nas bancadas. O triunfo encerrou a década de setenta e o período mais brilhante da história do clube Citizen. Em 1971, pela primeira vez em cinco anos, o clube não venceu qualquer troféu. Foi 11º na liga e caiu nas meias-finais da Taça das Taças frente ao Chelsea, futuro vencedor do torneio, tendo sido eliminado anteriormente das competições a eliminar nacionais. A equipa foi quarta na temporada seguinte – chegou a liderar em Fevereiro o campeonato com mais quatro pontos que os rivais – e voltou a cair cedo tanto na Taça de Inglaterra como na Taça da Liga. Os resultados, aliados á contratação de Rodney Marsh, um polémico e talentoso criativo pedido expressamente por Alisson, precipitou a demissão de Joe Mercer e o fim da dupla técnica. Alisson não duraria muito no posto abandonando o clube dois anos depois. Era o final de uma era dourada. Pouco depois também Summerbee e Bell abandonaram o clube e o City entrou numa espiral que terminou eventualmente com uma nova despromoção e uma sequência de quatro décadas de altos e baixos. No tempo perdurou no entanto os fabulosos encontros daquela mítica geração, as genialidades de Summerbee, os gestos de Allison no banco, os passes perfeitos de Bell, as celebrações apaixonadas de Lee e as bancadas de Maine Road a viveram um sonho. Um sonho que alimentou as memórias dessas supernovas de futebol e banhos de champagne de tantos jovens como os irmãos Gallagher.

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