Há poucas lendas que refletem tão bem o carácter tribal do futebol sul-americano como o “sapo de Arubinha”. Uma maldição histórica, alimentada pelo talento criativo dos génios narrativos desse Brasil apaixonado pelo futebol dos anos trinta. Um relato mágico que faz parte do manual de qualquer adepto apaixonado pela magia do futebol canarinho.

A promessa falhada a Arubinha

Chovia. Chovia muito. Era Dezembro, dia 30, e não parava de chover.

De mãos na cabeça, cabelo encharcado, roupa empapada, Arubinha chorava de raiva. Para dentro, lentamente, a engolir a raiva. O marcador instalado numa placa de madeira à distancia era inequívoco. O guarda-redes do Andaraí tinha acabado de sofrer o 12º golo às mãos do Vasco da Gama. O estádio São Januário fervilhava de emoção.

O conjunto carioca carimbava mais uma retumbante vitória e confirmava-se como uma das mais fortes equipas do estado, uma tendência evidente desde que o clube fundado por emigrantes de origem portuguesa abriu as portas a mulatos e negros à sua primeira equipa desafiando todas as convenções do racismo desportivo brasileiro. O resultado era avultado mas não era extraordinário. O futebol dos anos trinta, sobretudo no Brasil, estava repleto de marcadores impossíveis de sonhar nos dias de hoje. Mas Arubinha sentia-se ferido de norte na alma de guarda-redes. Sentia a culpa de ter falhado os seus. Do nada, para que todos o ouvissem bem, gritou as palavras mais célebres das múltiplas histórias de maldições do futebol brasileiro. “Se há um Deus no céu, o Vasco terá de passar doze anos sem ser campeão”.

A maldição tinha um motivo concreto. O jogo tinha começado com uma hora de atraso. Os jogadores do Vasco tinham sofrido um acidente de viação a caminho do estádio e tinham ficado retidos num centro médico. Os jogadores do Andaraí tinham esperado um quarto de hora à chuva pelos seus rivais em campo. Quando foram notificados pelo árbitro, consultaram-se os dirigentes. Os dois pontos podiam ter pertencido ao modestíssimo clube carioca se tivessem insistido. Mas talvez por receio de represálias futuras, talvez por sentirem ainda a responsabilidade desse espírito cavalheiro da época, os dirigentes e jogadores do Andaraí informaram os do Vasco que esperariam pelos jogadores.

Arubinha, guarda-redes sensato e com vários anos de carreira, limitou-se a pedir aos dirigente do Vasco que informassem os seus jogadores que não tomassem partido da situação. Sabiam que os “vascainos” eram muito superiores. Estavam a fazer-lhes um favor em esperar. O mínimo que o Vasco podia fazer era ganhar por poucos já que a derrota parecia certa. Os dirigentes disseram-lhe que não se preocupasse, que tudo estava controlado. O importante era haver jogo. E jogo houve.

A maldição do sapo

Ao intervalo o resultado era de 5 a 0 favorável aos locais. Um resultado normal mas que já roçava claramente a humilhação. A segunda parte parecia um trâmite a julgar pela promessa dos dirigentes do Vasco. Os jogadores iam baixar o ritmo, talvez concedessem um golo para as aparências e todos voltariam contentes a casa. Encharcados, mas contentes. Mas o guião torceu-se e o Vasco continuou a marcar. Ao quinto sucedeu o sexto, ao sexto o sétimo e assim sucessivamente até que Arubinha foi buscar pela décima segunda vez a bola nas redes da sua própria baliza. Arubinha fez com que todos ouvissem as suas palavras mas a lenda disse que dias depois decidiu ir mais longe. Pediu a um “santeiro” seu conhecido que lhe preparasse uma maldição e este ordenou-lhe enterrar um sapo no relvado do estádio do Vasco para que a maldição se fizesse efetiva. Assim foi. Durante os anos imediatamente seguintes o Vasco, efetivamente, não venceu um só titulo.

Podia ser normal – afinal o clube entre 1930 e 1937, data do jogo – tinha ganho vários títulos. O certo é que os vascaínos já não eram campeões de nada há três temporadas. Mas a partir da década de quarenta a lenda ganhou contornos quase mitológicos nas bancadas do São Januário. Saudades dos tempos de glória aliados ao misticismo local transformaram Arubinha e a sua maldição no grande problema do futebol vascaíno. O clube chegou a propor ao guarda-redes uma substancial recompensa financeira se a maldição fosse desfeita. Arubinha recusou.

Tentou-se de tudo. Escavou-se o relvado, procurou-se nas bancadas restos de um sapo morto. Nada aconteceu. A noticia passou do folclore local para os jornais e transformou-se numa lenda nacional. Os jogadores do Vasco subiam ao campo dos jogos em casa já com a sensação de derrotados. Os dirigentes do clube assumiram a praga como uma realidade. A cada temporada nova que começava faziam-se contas aos anos que faltavam para chegar ao fim. Em 1943 chegou-se à conclusão, num plenário organizado pelo clube, que a maldição tinha começado a contar a partir de 1934 e não de 1937, quando Arubinha proferiu os seus célebres gritos de revolta.

A decisão era sábia, reduzia em três anos a frustração de saber-se derrotado à partida. A imprensa seguia a linha do clube e contava os dias para o fim da maldição. O mágico cronista Mário Filho – a quem o Maracanã foi dedicado – transformou a história em parte das suas crónicas fundamentais sobre o futebol brasileiro. A maldição de Arubinha podia não ter existido mas já tinha ganho este jogo.

As maldições do futebol sul-americano

Em 1945 o Vasco da Gama voltou finalmente a ser campeão carioca.

Faltava um ano para acabar a maldição, segundo os seus próprios dirigentes. Os adeptos tomaram o sucesso como um milagre e o ano a menos como um desconto pelo sofrimento padecido. Ninguém se lembrou de questionar a veracidade da maldição. Os jogadores – e essa equipa do Vasco da Gama, conhecida como “O Expresso da Vitória” tinha, entre outros, a Ademir, Jair, Barbosa e Friaça, futuros protagonistas do maldito Mundial de 1950 – confessaram depois do titulo conquistado que no balneário todos eram conscientes do peso emocional da maldição e que nenhum se tinha atrevido a ganhar o título. Arubinha entrou no folclore brasileiro. As maldições inspiradas nas suas palavras foram-se repetindo no tempo e tornaram-se comuns na América Latina.

Do Brasil à Argentina, do Chile à Colômbia ,vários clubes acusaram jogadores e técnicos rivais de maldições que justificavam as suas derrotas. Tinham o pretexto que tantas vezes lhe fazia falta para justificar as derrotas em campo. O Vasco da Gama não voltou a sofrer nenhuma maldição histórica mas também não voltou a ocupar uma posição hegemónica no futebol brasileiro como aquela que tinha na década de trinta.

Arubinha caiu no esquecimento. No final acabou por confessar que não tinha enterrado qualquer sapo no estádio e que as palavras tinham sido apenas reflexo da sua impotência. Mas a verdade e a lenda já se tinham confundido tanto que ninguém se tinha preocupado em entender a veracidade de um dos maiores mitos da história do futebol brasileiro.

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  • Tem também a suposta maldição do Metropol, eliminado pelo Botafogo na Taça Brasil de 68/69 e que teria jogado uma praga, que teria feito o Botafogo ficar 20 anos sem conquistar um título oficial.