Mágico Gonzalez, o Maradona dos humildes

Podia ter sido um dos maiores jogadores da sua geração. Preferiu ser ele mesmo. Uma espécie de génio atormentado por um futebol em mutação. Tinha o talento dos génios. Mas também o seu carácter imprevisível. Foi o Maradona dos humildes, o profeta dos pequenos estádios. Mas foi sempre o “Mágico” Gonzalez.

O outro Maradona

Foi a maior derrota sofrida por uma seleção na história dos Mundiais. Deve ter doido. No fundo da alma.

Perder por 10-1, na idade moderna do futebol profissional, é algo mais do que uma derrota. É uma declaração de princípios de que algo está muito mal. E no entanto, mais de trinta anos depois, poucos são os que se lembram do nome de um só jogadores entre os ganhadores. Mas todos sabem quem estava do lado dos derrotados. Abatido mas encorajador. Resignado mas batalhador. O seu cabelo largo escondia o sofrimento da humilhação. E roubava o coração de adeptos um pouco por todo o Mundo. Com a camisola 11 nas costas, Jorge Gonzalez entrou no imaginário colectivo. Nada conseguiu fazer de sobrenatural para evitar a derrota histórica contra os húngaros. Ou contra os belgas por um magro golo a zero. Frente aos argentinos, enfrentou-se pela primeira vez a um jovem chamado Diego Armando Maradona. Os seus destinos voltar-se-iam a cruzar mas foi o fiel reflexo no espelho de duas almas gémeas perdidas num futebol de espartilhos que ficou. Maradona estava apenas a dar os primeiros passos numa carreira destinada à glória universal. Gonzalez seria, para sempre, o seu equivalente emocional para os clubes modestos, sem grandes aspirações mas desejosos de ter um ídolo a quem glorificar com a mesma paixão com que Maradona levantava os seus seguidores das cadeiras, da pedra seca ou da madeira molhada.

Jorge Gonzalez apresentou-se ao Mundo nesse Junho de 1982, no Mundial de Espanha. Era já “El Mago” no seu El Salvador natal. Mas ninguém o conhecia. Numa era pré-global poucos tinham sequer ouvido falar do seu país para lá das polemicas políticas com os seus vizinhos hondurenhos. Durante vinte e quatro anos, Gonzalez tinha espalhado ilusão pelos modestos relvados salvadorenhos. Depois do Mundial nada seria como dantes. Meia Europa mostrou interesse em contratá-lo. Falou-se em ofertas do Paris Saint-Germain, do Atlético de Madrid e do AC Milan. Mas, fiel aos seus princípios humildes e modestos, Jorge preferiu o mais humilde dos candidatos. O pequeno Cádiz espanhol recebeu-o de braços abertos e o estádio Ramon Carranza transformou-se no San Paolo. E o não tão distante estreito de Gibraltar a sombra do seu Vesúvio.

Um rei em Cádiz

Jorge Gonzalez era tudo aquilo que um adepto gosta num jogador de futebol.

Pertence a essa casta única e desafiante que trata o futebol como algo tão natural como respirar. Um talento inato nas pernas, um cérebro priveligiado para antecipar movimentos, Mágico Gonzalez era a versão latina de George Best. Um “badboy” antes que o conceito se fizesse popular. Antecipou a febre caribenha que o futebol colombiano e mexicano ia arrastar nos anos seguintes como os seus heróis particulares. E era um amante da vida, da noite, das mulheres, das perdições quase tanto como do esférico que tratava com a simplicidade de um miudo descalço. Estrela consagrada desde a adolescência em El Salvador, chegou em 1982 a Espanha e nunca mais foi embora. A 11 de Setembro estreou-se com a camisola amarela dos andaluzes. O clube da pequena cidade ao sul de Espanha era mais conhecido pelo seu torneio de Verão do que pelos seus sucessos desportivos. Mas com Gonzalez a história mudou.

Em 1983 o Cádiz foi promovido à Primeira Divisão espanhola e pela primeira vez conseguiu estar duas temporadas consecutivas sem ser despromovido. Os golos e as assistências de Jorge Gonzalez eram fundamentais para o sucesso da equipa. Nas bancadas, entre chirigotas, os adeptos gritavam pelo seu “Mágico”. Gritavam pelo seu Maradona. Talvez por isso tudo lhe era perdoado. As detenções, os atrasos constantes nos treinos, as fotos publicadas com um copo ou dois na mão a altas horas da madrugada. Muitas vezes, em vésperas de jogos. Mas em campo tudo isso desaparecia. Quando a bola chegava aos seus pés, os adeptos levantavam-se porque sabiam que algo iria acontecer. Algo do outro Mundo. Talvez por isso, à sua partida para Nápoles depois de dois anos tremidos em Barcelona, o próprio Diego tenha confessado que Jorge “É de outra galáxia. Joga melhor que eu”. Podia não ser verdade mas aos humildes adeptos do Cádiz, de El Salvador e de todos esses pequenos clubes e países do Mundo não era importante.

Os milagres do Mágico

A etapa de Gonzalez em Cádiz foi um conto de fadas repleto de pesadelos.

O talento e a magia estavam lá. Mas a vontade nem sempre acompanhava. O “Mágico” podia ter sido um dos mais célebres futebolistas da sua geração. A mesma que contava com Sócrates, Zico, Conti, Dalglish, Platini, Chalana ou Elkjaer. Mas não quis. Nunca procurou dar o salto, esforçar-se um pouco mais, ser mais disciplinado. O importante era o divertimento. Nada mais. Jogar sim, mas devagar. Treinar sim, mas depois de uma noite bem passada. O tempo esse, foi-se movendo no relógio de areia, e à medida que avançava a idade apanhava Jorge e tornava-o um jogador mais previsível e fácil de anular. Mas nunca foi capaz de o fazer menos apaixonante para os que o idolatravam. Com o tempo as suas anedotas tornaram-se tão grandes como os seus momentos em campo. Escondia-se nas cabines dos DJ´s dos directores do clube que o perseguiam pela noite de Cadiz. Era despertado, vezes sem conta, pelos treinadores do clube a meio da tarde, depois de faltar ao treino, na cama com duas e três mulheres que tinha conhecido na noite anterior. Héctor Vieira, treinador do clube durante a sua estância, chegou a apresentar-se à porta de sua casa com um grupo de orquestra flamenca para o acordar. Nu, Jorge abriu a janela e disse ao técnico que apenas se levantava porque a música o merecia. Mas o seu momento icónico por excelência aconteceu no Ramón Carranza de 1984.

Na primeira parte, Jorge foi suplente. Era o castigo por chegar tarde ao estádio depois de ter adormecido em casa depois de mais um dia de festa. O rival era o Barcelona de Maradona – com quem tinha disputado uma tour nesse Verão a petição expressa do “Pibe” – que vencia por 0-1. No segundo tempo, com duas horas de sono em cima, o astro salvadorenho fez o que quis da defesa blaugrana que seria a menos batida da temporada, no ano em que o clube recuperou um título à muito perdido. O Cádiz venceu o jogo por 4-1, e o “Mágico” marcou dois dos golos e fez o passe para os restantes. Mas durante esse tempo o clube também se cansou dele. Emprestou-o uma época, sem sucesso, ao Valladolid. Sofreu algumas lesões por passar horas a jogar com os miúdos de Cádiz nas ruas. Gostava todo o seu salário na noite e o que lhe sobrava, simplesmente, dava-o aos mais necessitados da cidade. Acabou a carreira sem um cêntimo.

Em 1991, depois da morte do seu maior amigo, o cantor de flamenco Camarón de la Isla, sofreu uma grave depressão e decidiu voltar ao seu país natal. Como não tinha dinheiro, fez-se taxista, deliciando os seus passageiros com histórias mirabolantes. Hoje, finalmente reconhecido como tal, pertence à elite dos jogadores geniais nascidos no continente americano. É, provavelmente, o maior de todos os que nasceram na zona central. Nessa faixa de terra que o próprio “Mágico” não teria problemas de fintar se tivesse nos pés uma bola do tamanho do Mundo.

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