De melhor marcador da First Division a alter-ego de um movimento anarquista, a carreira de Luther Blisset não foi nada convencional. O avançado que o AC Milan contratou para driblar a sua crise desportiva acabou por ser eternizado em Itália por dar nome a um dos movimentos anarquistas mais populares do país, autores do best-seller literário Q. Porque todos podem ser Luther Blissett.

 O herói dos anarquistas italianos

Quatro jovens são detidos no metro de Milão. Sem bilhete, são detidos e interrogados. Quando se lhes pede pela identidade, os quatro afirmam ser Luther Blissett. Nenhum deles se chama realmente assim, nenhum deles se parece sequer a ele. Mas às autoridades não dão outro nome. Porque todos podem ser Luther Blissett pelo simples facto de sê-lo. Era essa a mensagem anarquista que um jovem grupo de intelectuais italiano pretendia demonstrar com este evento preparado de antemão para alertar as autoridades do nascimento de um novo grupo.

Durante as semanas seguintes desse 1994 milhares de grafittis com o nome de Luther Blisset coroaram as paredes de Bologna – a sede do grupo e do movimento estudantil de esquerda mais militante – mas também de Roma e Milão. O grupo – composto por indivíduos cuja maioria dos integrantes ainda permanece anónima a dia de hoje – divulga sucessivos manifestos em que menciona origens dispares para o seu nome. Uma opção contra o racismo da extrema direita? Uma defesa dos criticados pelos mass media? Um simples elemento de união entre europeus numa etapa onde os movimentos secessionistas começavam a fazer-se ouvir na Lombardia?

Nenhuma resposta parecia clara. O grupo tinha conseguido chamar a atenção com uma surpreendente aparição no popular programa televisivo Chi l´ha visto, meses depois, e em 1999, cinco anos depois da sua aparição, consumam o golpe publicitário com o lançamento do livro Q, que rapidamente se torna num dos maiores best-sellers do mercado. Uma história perfeitamente narrada sobre as guerras da religião do século XVI com um fundo moral para a Europa de fins do século XX. Um livro que em nada tinha a ver com Luther Blissett, o profeta do golo em Watford.

A estrela jamaicana do Watford

Nascido na Jamaica dos anos cinquenta, Blissett chegou cedo a Inglaterra com a família que procurava encontrar na Europa melhores condições daquelas que lhe ofereciam as Caraíbas. Rapidamente se fez notar pelos seus dotes atléticos. Escolheu ser futebolista quando podia ter sido velocista ou ciclista, tal era a sua capacidade a tenra idade. Foi com a camisola do Watford que Luther se tornou numa celebridade. Chegou em 1974 ao clube, com dezasseis anos, e dois anos depois já pertencia à primeira equipa. Com a chegada ao clube presidido por Elton John do jovem Graham Taylor como treinador, a vida de Blisset mudou.

O emblema abandonou as ligas secundárias graças a um estilo de jogo inspirado no mais básico modelo do kick-and-rush. A bola era enviada com a maior frequência possível para os longos sprints de John Barnes e Blissett que se encarregavam de explorar os espaços deixados pelos rivais, a quem era dada sempre a iniciativa de jogo. Com esse modelo o Watford chegou à First Division em 1982. Na temporada seguinte acabaram no segundo lugar, apenas atrás do Liverpool, numa das maiores surpresas da história moderna do futebol inglês. Os 27 golos de Blisset – melhor marcador da prova – foram decisivos para o sucesso desportivo em campo e atraíram a atenção do gigante adormecido que era então o AC Milan.

Correram rumores, à posteriori, de que era Barnes quem o clube italiano realmente queria. Mas face às exibições de Luther nesse ano – que o levaram também à seleção inglesa, um dos primeiros jogadores negros em lográ-lo – é difícil pensar que esse comentário tem algum sentido. A verdade é que só surgiu depois de Blisset passar pelo duro mundo da Serie A. Jogou apenas um ano com a camisola rossonera apontando cinco golos em trinta jogos. Mais tarde, o jogador confessou que o seu problema não tinha sido a adaptação ao país, como sucedeu com outros britânicos, mas sim ao sistema táctico rígido dos italianos. “Em Inglaterra tinha cinco ou seis oportunidades de golo por jogo, em Itália tinha só uma em noventa minutos”, disse. No San Siro deixou uma pobre imagem e a sua carreira entrou rapidamente em decadência no seu regresso a Inglaterra, onde voltou a provar sorte em Watford. Mas nada deixava prever que o seu nome voltaria às primeiras páginas dos jornais da cidade lombarda anos depois.

A saga de um best-seller literário

O fenómeno Luther Blisset transformou completamente o panorama mediático a final dos anos noventa. Numa era pre-internet, a associação de um futebolista com escasso sucesso desportivo com um movimento de rebelião social parecia desafiar todas as convicções históricas de ligação entre o futebol e o mundo da política. A contradição parecia ainda maior quando esse movimento levou para o universo literário – historicamente um terreno sombrio para os que vivem à volta do mundo do futebol – o nome do internacional inglês, transformando-o numa estrela de forma inesperada, graças ao sucesso mundial da novela Q.

Mais tarde o grupo abandonou a sua designação original por una nova nomenclatura – Wu Ming– mas o nome de Blisset ficará para sempre associado com o movimento intelectual anárquico italiano. Para os que viram o rápido jamaicano tentar ultrapassar uma rede de pesca composta por defesas italianos, talvez seja lógico traçar o paralelismo a favor de uma conexão emocional dos fracos contra os fortes, dos pequenos contra os grandes. Mas sem uma explicação plausível, a Blissett, o jogador, e Blisset, o autor colectivo, a história guardou memorias que estarão intimamente ligadas para todo o sempre.

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