Lunde, o jogador que deve a Hoeness a vida

Uli Hoeness vai cumprir pena de prisão por evasão fiscal. O castigo justo por anos de manobras nas catacumbas do futebol alemão. Mas o ex-presidente do Bayern Munchen foi sempre também uma das personalidades mais solidárias do Mundo do futebol. Que o diga o dinamarquês Lars Lunde, o homem que lhe deve a vida.

A história do novo Laudrup

Em 1984 não havia nada mais cool para um jogador de futebol do que ser dinamarquês.

Depois do Europeu de França, a “Danish Dynamite” rompeu os corações dos adeptos um pouco por todo o Mundo e os protagonistas da saga dos vikings pacifícos que vestiam de vermelho e branco tornaram-se estrelas mundiais. Da noite para o dia nomes como Preben Elkjaer Larsen, Michael Laudrup ou Frank Arnesen eram tão populares como Platini, Rummenige ou Dalglish. O efeito contágio foi inevitável. Os clubes grandes do futebol inglês e italiano rapidamente seduziram as estrelas dinamarquesas para as suas ligas. Um pouco por toda a Europa os olheiros e directores desportivos procuravam o novo Laudrup na até então desconhecida liga do país nórdico. Uma liga renascida anos antes graças ao apoio financeiro da cervejeira Carlsberg e o trabalho técnico do selecionador nacional, o alemão Sepp Piontek.

No meio dessa aura de invencibilidade dinamarquesa, surgiu Lars Lunde.

Com vinte anos, tinha sido uma das grandes revelações da temporada ao serviço do Brondby, substituindo no ataque da equipa ao mais velho dos irmãos Laudrup, transferido para a Juventus. Os seus dez golos em vinte e cinco jogos levaram-no a ser internacional nos últimos jogos de qualificação para o Euro 84 mas na lista final acabou por ser superado pelo mais veterano Steen Thycoseen. Tinha tempo para brilhar. Provou-o na liga suíça. Durante dois anos foi o melhor jogador do campeonato com a camisola dos Young Boys. Méritos suficientes para que Uli Hoeness, o director desportivo do Bayern Munchen, decidisse apostar por ele para a linha de ataque do clube bávaro. A sua primeira temporada saldou-se com o título da Bundesliga mas a sua participação foi escassa. Começava a ser claro que Lunde nunca seria um jogador de classe mundial. Marcou três golos em doze jogos disputados, a maioria deles a partir do banco. Foi de aí que saltou para o relvado de Viena, um ano depois, para tentar dar a volta a um marcador que tinha girado de forma surpreendente a favor do FC Porto. Era a noite da final da Taça dos Campeões Europeus, o sonho de qualquer jogador. Para Lunde foi o inicio do seu pesadelo. Incapaz de fazer a diferença uma vez mais, foi colocado na lista de dispensas. A meio da época seguinte voltou à Suiça para brilhar no Aarau. Depois veio o acidente. E o anjo redentor.

Hoeness, o homem mais odiado da Alemanha

Uli Hoeness é uma das personalidades mais odiadas da história do futebol.

Um despeito antigo que antecede em muito as recentes acusações de corrupção que o levaram a abandonar o clube que ajudou a reconstruir e a cumprir uma pena de prisão. Hoeness era um avançado talentoso mas um gestor ainda mais capaz. Desde a sua adolescência aprendeu a lidar com o dinheiro tão bem como fazia com a bola de futebol. Depois de ser forçado a retirar-se com apenas 27 anos por uma sequência de lesões no joelho, abriu-se uma encruzilhada à sua frente. A sua carreira tinha sido curta mas fructifera. Hoeness ganhou tudo o que um futebolista podia desejar. Títulos alemães, europeus, mundiais. Mas o futebol era a sua vida e o Bayern a sua paixão. Ingressou na equipa de dirigentes do clube e foi rapidamente promovida a director financeiro. Em 1979 o clube bávaro estava a viver o seu pior momento numa década. Inspirado pelo modelo de gestão norte-americano, Hoeness aplicou ao futebol a mesma metodologia das multinacionais e criou um novo clube a partir do nada. O Bayern transformou-se no único emblema capaz de gerar mais valias e lucro ano atrás de ano. Sem gastar fortunas no mercado, conseguia os melhores jogadores ao melhor preço. Mantinha uma estrutura estável no topo da pirâmide e uma cultura e filosofia de jogo comum na base. Com Hoeness o clube transformou-se no único dominador absoluto da Bundesliga durante mais de trinta longos anos. E os adeptos dos restantes clubes alemães nunca lhe perdoaram. Mas havia outro lado da lenda de homem de negócios implacável.

Depois de sofrer um acidente de helicóptero em 1982, onde foi o único sobrevivente, o mago de Ulm dedicou parte da sua vida e fortuna a causas sociais. Era o pior inimigo e o melhor amigo que alguém podia ter. Resgatou do alcoolismo a Gerd Muller, abandonado pelo clube e por todos os seus companheiros, acompanhando a sessões médicas, consultas com psicólogos e oferecendo-lhe trabalho na formação do clube. Apoiou financeiramente o avançado escocês Ian McNally quando a sua lesão no joelho o levou a estar mais de dois anos sem jogar e sem contrato ou seguro médico para custear os tratamentos. Quando Memmeth Scholl e Sebastian Deisler sofreram sérias depressões, Hoeness esteve lá para dar-lhes o apoio do clube e um braço amigo. Conseguiu resgatar Scholl para a equipa mas com Deisler limitou-se a fazer o que poucos presidentes fariam. Durante dois anos manteve-o sob contrato ainda sabendo que o jogador não se apresentava sequer nos treinos. Quando alguém lhe ligou do hospital de  Aarau a informar-lhe que Lunde estava em coma, comprou o primeiro bilhete de avião e atravessou os Alpes.

A luta desesperada pela vida

Lars Lunde esteve em coma dez dias.

Numa noite em que voltava a casa, decidiu passar um sinal vermelho sob uma linha de caminho-de-ferro. Um comboio de alta velocidade embateu contra o carro e partiu-o em dois. Quando o serviço de urgências chegou ao local, Lunde estava em coma e praticamente sem sinais vitais. Foi imediatamente ingressado no hospital local mas as expectativas de que sobrevivesse eram baixas. Hoeness chegou dias depois. O jovem dinamarquês ainda era jogador do Bayern Munchen e para o dirigente alemão era tudo o que importava. Esteve toda a semana no hospital. Quando Lunde acordou finalmente do coma, foi transferido para uma clínica privada custeada por Hoeness onde deu inicio à sua lenta recuperação. Dois meses depois o presidente do Bayern levou-o para a sua própria casa. Durante quase meio ano Lunde viveu aí, como um filho mais da família Hoeness. A mulher de Uli, Susi, tratou-o como um terceiro filho enquanto Uli procurava os melhores especialistas para garantir que Lunde poderia voltar a um relvado.

Em 1990, quase dois anos depois do acidente, Lars Lunde voltou a calçar as chuteiras num jogo do Aarau contra o Servette. Foi o seu penúltimo com o clube. Quando o empréstimo acabou, realizou apenas mais trinta jogos com o modesto FC Zug. O corpo não dava para mais. As sequelas do acidente tinham sido maiores do que Hoeness queria acreditar. 1991 marcou o ponto final na carreira da promessa dinamarquesa. Com 27 anos, os mesmos que tinha Hoeness quando o seu joelho o atirou do campo para os escritórios do emblema bávaro. A experiência de lutar pela própria vida moldo o futuro de Lunde que se inscreveu num curso de enfermagem, pago pelo Bayern. Pago por Hoeness. Desde então o jogador que alguns pensavam que poderia suceder ao mito Laudrup trabalha como enfermeiro no mesmo hospital que lhe salvou a vida. Onde se cruzou com o homem que não o deixou lutar sozinho.

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