O homem que dá nome à maior empresa de chás do mundo foi também o primeiro a sonhar com a criação de uma Champions League de clubes europeus. Thomas Lipton idealizou um torneio que antecipou em quase meio século a ideia de uma prova europeia para os melhores clubes do continente. A sua competição foi a primeira tentativa de pensar numa Champions League.

 O sonho do milionário do chá

Num restaurante ou em casa, raro é o dia em que não nos cruzemos com a etiqueta da empresa Lipton. Desde há mais de cem anos que é uma das maiores referências mundiais na comercialização de chã. Em pacote, gelado. Tanto faz. O que poucos sabem quando pedem uma bebida Lipton é que estão a comprar um produto de uma companhia que esteve por detrás da criação da primeira Champions League de futebol.

Sir Thomas Lipton era um apaixonado confesso do “football association” desde os seus dias de estudante universitário em St. Andrews, em Glasgow. Mais do que isso, Lipton era um autêntico sportsman. Jogava futebol, ténis, praticava remo e boxe e era um apaixonado confesso da vela. Encontrava sempre tempo entre negócio e negócio para manter-se em forma. Foi um dos mais apaixonados participantes na célebre America´s Cup, a prova em vela mais célebre do mundo. O futebol, inevitavelmente, fazia parte do seu quotidiano. Adepto confesso do Glasgow Rangers, era presença habitual nos estádios de futebol em Glasgow e Londres, onde vivia durante grande parte do ano. Em 1908, já com sessenta anos, viajou a Itália, como fazia habitualmente durante o Verão quando se cruzou com uma cópia do jornal La Stampa. O periódico tinha promovido precisamente para essas datas uma série de jogos amigáveis entre vários clubes da Europa que disputariam um troféu com o seu nome para celebrar os seus quarenta anos de circulação. Lipton foi um dos espectadores mais atentos. O torneio,  sediado na cidade de Turim,  contou com a presença de convidados alemães, suíços, franceses e italianos para apurar qual era, de facto, a mais forte formação europeia do momento. A ausência de participantes britânicos e austro-húngaros, condicionava a aspiração ao título de campeão europeu mas o evento revelou-se um sucesso.

A primeira fase da prova serviu para eleger o representante italiano na final. O Torino bateu o seu rival local, a Juventus, por 2-1 e depois eliminou os gauleses do US Parisienne. Na outra meia-final, cumprindo todos os prognósticos, a equipa suíça do Servette FC bateu os alemães do Freiburger. Na final prevaleceu a maior experiência dos helvéticos, eixo nuclear de um dos primeiros centros de desenvolvimento do jogo no continente. Entusiasmado, Lipton voltou para casa com uma ideia na cabeça. Uma liga de equipas europeias disputada anualmente.

Como se deu forma à primeira Champions League

O primeiro passo para organizar a competição foi o de lançar convites ás várias federações nacionais. O torneio, inevitavelmente baptizado com o nome do fundador – Thomas Lipton Cup – seria disputado anualmente entre representantes dos principais paises europeus, incluindo clubes ingleses e austro-hungaros. Essa era a ideia. A realidade provou ser bastante mais complexa.

Inicialmente os alemães, suiços e italianos aceitaram imediatamente o convite. Mais dificil foi persuadir representantes das federações britânicas, austro-hungaras e do Benelux, os outros eixos populares do jogo na Europa do pré-I Guerra Mundial. As cartas de Lipton cruzaram o continente, relembrando a oportunidade de ouro que significaria para os amantes do jogo em toda a Europa presenciar uma competição internacional deste calibre. O que não contava Lipton era com a determinante recusa dos austro-hungaros em reduzir a sua participação a uma só vaga. No império existiam já três núcleos competitivos muito fortes, em Viena, Praga e Budapeste. Eram também três representantes ferozes de nacionalidades que tinham cada vez mais problemas de convivência debaixo do domínio Habsburgo. Discutiu-se a possibilidade de serem representantes de cada cidade a participar no torneio mas Lipton recusou. Uma equipa por país era a sua filosofia e o império austro-hungaro não era mais que qualquer outro convidado. As margens do Danubio ficaram sem representante.

O que Lipton não podia aceitar era que um torneio organizado por si não tivesse um só representante britânico. Durante meses o empresário procurou convencer a Football Association do interessante que seria para um dos seus membros representar o Reino Unido num campeonato do mundo de clubes – como ele gostava de referir a uma prova totalmente de europeus  – mas no final, o tema do profissionalismo encoberto revelou ser mais forte que o seu idealismo. Para dar a volta a situação, o milionário escocês  encontrou no West Auckland, uma equipa amadora da comunidade mineira de Durham, do norte de Inglaterra, o representante ideal. Apesar de amadores, os ingleses demonstraram que ainda estavam uns furos acima de qualquer rival europeu. A prova podia começar.

A saga do West Auckland, o primeiro campeão europeu

O torneio foi disputado em Turim, aproveitando a boa imagem deixada no ano anterior pela competição organizada pelo jornal La Stampa.

Havia representantes de quatro nações para a primeira edição. Da Alemanha vinha o Estugarda, da Suiça o FC Winterthur e como representante local estava um onze entre os melhores jogadores do Torino e da Juventus. A 11 de Abril de 1909 disputaram-se os dois jogos das meias-finais. Pela manhã o West Auckland bateu por 0-2 os alemães da Baviera com um golo a abrir e outro a fechar o tempo de jogo. Pela tarde, almoçados os participantes e o público espectador, os suíços do Winterhur superaram o exigente rival local, por 1-2, depois de terem começado o encontro a perder. Os italianos compensaram os tifossi com uma vitória sobre os rivais alemães enquanto que o West Auckland se sagrou o primeiro campeão de clubes europeu na tarde do dia 12 de Abril com uma vitória clara sobre os suiços.

O exito do troféu foi absoluto e a sua repercusão na imprensa dos paises participantes imensa. Mas a ideia de Lipton em organizar a prova todos os anos esbarrou com os habituais problemas de persuasão das federações nacionais aliadas a um claro sentido amadorismo de organização de competições internacionais. Dois anos depois, a prova voltou a ser disputada, sempre no mesmo cenário italiano.  Uma vez mais o Wes Auckland, como campeão em título e representante britânico, saiu vencedor depois de bater o FC Zurich da Suiça nas meias-finais e a Juventus de Turim por 1-6 na finalissima. Ainda que amadores – como eram todas as equipas do futebol continental – os modestos mineiros ingleses permaneciam invictos. Foram eles os primeiros bicampeões da Europa.

A taça que levaram com eles permaneceu o orgulho da pequena comunidade mineira durante décadas. Nos anos quarenta os problemas financeiros do clube obrigaram a direção a penhorar o imenso troféu de prata ao dono do bar local. Foram preciso duas décadas e o apoio de cada um dos habitantes locais para resgatar a taça que voltou à sede do clube. O seu final, no entanto, foi trágico. Em 1994 foi roubado e desde então ninguém sabe onde a taça foi parar. A antecessora da mítica “Orelhona” continua em paradeiro desconhecido.

 A taça que nasceu meio século antes das noites europeias

Thomas Lipton continuou a sonhar com uma terceira edição da sua competição mas o clima politico na Europa começava a mudar rapidamente e a paz tranquila dos anos anteriores tinha-se transformado numa atmosfera de tensão constante. Todos os convidados para o torneio de 19013 recusaram reunir-se de novo em Turim. Os alemães exigima receber a prova como anfitriões para mandar o seu representante.

O West Auckland parecia pouco interessado em voltar a medir-se com rivais continentais que considerava inferiores. E nem de França, nem da Áustria-Hungria chegavam noticias animadoras. Os franceses tinham-se juntado a belgas, holandeses e suiços numa competição exclusivamente regional enquanto que os austro-hungaros tinham os seus próprios torneios. Seria preciso esperar duas guerras Mundiais e mais de cinquenta anos para que a Europa se voltasse a juntar debaixo de uma ideia de uma prova aberta a todas as nações europeias.

O sucesso da Taça Mitropa, no centro da Europa dos anos vinte e trinta, e da Taça Latina na bacia do Mediterrâneo nos anos cinquenta, deu o pontapé de saída para que vários jornalistas e dirigentes, em particular Gabriel Hanot e Henri Delauney, pegassem no esboço inicial de Thomas Lipton. A Taça dos Campeões Europeus, mais tarde transformada em Champions League, e as restantes provas das noites europeias, teriam um formato e uma adesão bem diferentes daquelas geradas pelo milionário do chá britânico nos dias da Belle Époque. Mas sem ser consciente de que o desporto que tanto amava iria ser um dos grandes vencedores da saga que foi o século XX, o escocês Thomas Lipton antecipou em largas gerações a ideia de criar uma Champions League de clubes europeus.

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