Durante os anos oitenta o futebol lançou as bases da definitiva entrada no universo comercial. Em Espanha, em plena apogeu da “Quinta del Buitre” a Federação decidiu apostar por uma abordagem radical para dar ainda mais emoção ao torneio e assim duplicar os duelos disputados criando um modelo alternativo de disputa pelo título, acesso a provas europeias e despromoção que ficou conhecido como a “Liga del Play-Off”.

Quatro Clássicos para decidir um título

Quatro Clássicos entre Real Madrid e Barcelona. Que melhor forma de alimentar o mediatismo à volta de um campeonato nacional que repetir até quatro vezes os duelos entre os principais clubes? Essa foi a ideia por detrás da decisão da Federação espanhola ao lançar as bases da polémica liga de 1986-87 a única, até hoje, de 44 encontros e quatro duelos entre distintas equipas para a atribuição do título. O modelo existe, ainda hoje, em países de menor expressão tal como Bélgica ou Suiça, mas a meados dos anos oitenta era uma novidade absoluta no patamar das grandes ligas. Depois de quatro anos de hegemonia basca e de duas temporadas em que Barcelona e Real Madrid recuperaram a normalidade na sua luta hegemónica pelo título, a federação decidiu que a criação de um novo modelo podia aumentar a possibilidade de equilíbrio na luta pelo título.

Criou-se um modelo complementar à temporada regular – que seria disputada por 18 equipas a 34 jornadas como sempre – em que os dezoito clubes seriam divididos em três grupos de seis que lutariam por objectivos distintos. O primeiro pelo título numa sequência de dez jogos com todos contra todos. Um último grupo que lutaria para evitar a despromoção – dos seis em liça metade seria despromovida – e ainda um terceiro grupo de equipas que lutariam por um posto europeu na Taça UEFA do ano seguinte e participando na recém-criada Copa de la Liga. Dessa forma a RFEF garantia que até meados de Junho todas as equipas teriam algo por que lutar na definição final da classificação. Os clubes preparam-se assim para uma época maratoniana e atípica.

Sprint a dois por um título fictício

O Barcelona e o Real Madrid dividiam como sempre o favoritismo.

Os merengues tinham vencido no ano anterior a sua primeira liga desde 1980, a primeira da chamada “Quinta del Buitre” com uma equipa repleta de estrelas como Hugo Sanchez, Bernd Schuster, José Antonio Camacho, Michel, Martin Vasquez, Gordillo, Manolo Sanchis, José Santillana, Juanito e o fabuloso avançado que dava nome à geração, Emilio Butrageño, recém consagrado como estrela mundial pela sua participação no Mundial do México onde anotou quatro golos num épico duelo contra a Dinamarca igualando o recorde histórico de Eusébio. Treinados pelo holandês Leo Benhaker, os madrilenhos defendiam o título ao mesmo tempo que olhavam com ansiedade para a Taça dos Campeões Europeus, troféu cuja final tinham disputado na sua participação anterior, em 1981, perdida contra o Liverpool. Já o Barcelona, finalista vencido da máxima competição europeia no ano anterior, contava com o goleador do Mundial, o inglês Gary Liniker, como grande arma para procurar recuperar o título conquistado dois anos antes. Mais atrás, na casa de apostas, surgiam o Atlético de Madrid – finalista vencido da Taça das Taças no ano anterior – e os dois grandes do futebol bascos, dominadores do título nacional no início da década, Real Sociedad e Athletic Bilbao.

A 8 de Outubro o primeiro dos quatro Real Madrid vs Barcelona ficou marcado por um empate a um golo, o que mantinha os homens da capital na liderança do torneio e que manteve durante toda a temporada regular apesar da derrota por 3-2 em Camp Nou, a finais de Janeiro, graças a um hat-trick de Liniker, que deixou a corrida pelo título mais apertada do que nunca. Com os clubes bascos perdidos na metade da tabela e o Atlético de Madrid a realizar uma época decepcionante parecia que ninguém seria incapaz de meter-se na luta pelo título apesar das excepcionais épocas de Espanyol e Gijon que seguiam na terceira e quarta posição no final da temporada regular. O empate entre os barceloneses e o Real Madrid na última jornada do campeonato, noutro ano, teria certificado o título nacional do clube merengue mas com a mudança de modelo significava muito pouco. Há várias jornadas que ambos estavam qualificados para a poule pelo título e jogavam-se muito pouco. Aos dois escudos juntavam-se Barcelona, Gijon e ainda Zaragoza e Mallorca. O título seria, em teoria, coisa de seis, mas na prática a distância pontual entre os dois primeiros e os perseguidores não davam grande margem de manobra e os três pontos que separavam os primeiros – a pontuação mantinha-se – iam ser determinantes.

A Liga do Play-Off resultou não ter surpresas

A segunda fase final começou com um empate entre Real Madrid e Barcelona e com nove jogos para o fim do campeonato, a vantagem pontual manteve-se inalterada o que abriu a possibilidade ao Real Madrid de gerir comodamente a liderança ao mesmo tempo que preparava as meias-finais da Taça dos Campeões Europeus contra o Bayern Munich, duelo que finalmente perdeu e que ficou marcado pela agressão de Juanito a Lothar Mathaus. O desaire europeu não prejudicou a campanha nacional e apesar da derrota em Camp Nou no quarto jogo entre os dois clubes no mesmo ano, o tropeção do Barcelona em Gijon permitiu a 15 de Junho que um triunfo do Real Madrid em La Romareda fechasse definitivamente as contas do título e assim confirmasse o bicampeonato conquistado com mais esforço do que nunca.

Atrás dos máximos favoritos, o Espanyol selou o terceiro lugar à frente do Gijon – ambos qualificados para a Taça UEFA – enquanto que a Real Sociedad, vencedor da Copa del Rey, qualificou-se para a Taça das Taças apesar de ter perdido a segunda fase de grupos para o Atlético de Madrid que deveria ter disputado a Copa da Liga e assim aceder a um posto europeu que finalmente acabou atribuído ao clube asturiano. Como consequência, semanas depois, Jesus Gil y Gil aproveita o decepcionante resultado final para apresentar-se como candidato a presidente com Paulo Futre, recém consagrado campeão europeu com o FC Porto em Viena, como ás na manga. Gil vence e Futre é contratado para dar início a um novo ciclo memorável na vida do clube colchonero.

Um modelo de curta duração

No final o título conquistado pelo Real Madrid na fase regular foi confirmado com a etapa extra e quase nenhum clube alterou a sua posição em liga o que forçou os clubes a plantear á Federação a lógica de manter esse modelo para o ano seguinte. A participação da selecção espanhola no Europeu da Alemanha, em Junho de 1988, também não ajudou a sustentar a experiência. Para aumentar ainda a insatisfação com o acumular dos encontros no calendário os clubes decidiram cancelar a Copa de la Liga, o torneio impulsionado por Josep Luis Nuñez em 1983 e que assim teve apenas quatro edições. Ninguém estava preparado para jogar uma nova competição – para além da Copa del Rey e do campeonato a duas mãos – cuja recompensa era nula uma vez que no início do ano se tinha determinado que o lugar livre na Taça UEFA a ser disputado entre o vencedor do campeonato, da Copa del Rey e da segunda fase de grupos na prática tinha pouco sentido uma vez que os restantes clubes já se encontravam classificados para os postos europeus de forma matemática.

A Federação decidiu então renegociar com os clubes a organização do calendário e acordou-se ampliar o campeonato a 20 equipas – cifra que se mantém até agora, trinta anos depois – em lugar de repetir uma nova fase regular pelo que se ampliariam os jogos ao ano de 34 a 38, seis menos dos disputados nesse ano. Para tal foi criado um play-off extra á segunda fase regular entre as equipas do último grupo para determinar quem se salvava da despromoção já que o Cadiz – o último classificado – reclamou que essa alteração tivesse sido feita com o torneio já arrancado, algo que o tribunal do desporto aceitou levando assim a uma sequência extra de jogos para determinar quem dos seis clubes realmente descia de divisão. Acabou por ser o Racing de Santander o despromovido numa sequência de jogos com os gaditanos e o Ossasuna. Foi o ponto final a uma campanha que arrancou em Agosto e terminou já a finais de Junho a mais larga de sempre da história do futebol de uma das grandes ligas nacionais europeias.

 

744 / Por