O futebol é um desporto de semi-deuses mas nunca nenhum deles mostrou ser omnipresente. Até que chegou Soren Lerby. Na mágica Danish Dynamite que maravilhou o futebol da década de 80 havia vários génios. O inconstante e cerebral Laudrup, o velocista Simmonsen e o eterno fumador Elkjaer Larsen. Mas nunca nenhum dos três logrou o feito histórico do mítico Soren Lerby. No mesmo dia Lerby provou ser omnipresente.

Um carácter muito especial

Os registos do mundo do futebol estão repletos de episódios curiosos, daqueles que passam ao lado dos mais distraídos. Na vida de Lerby há vários episódios assim. O médio dinamarquês foi um verdadeiro enfant-terrible numa era onde aos jogadores ainda era permitido muito pouco. Membro estelar de uma geração histórica do futebol dinamarquês – e europeu – Lerby era especial.

No carácter, no estilo de jogo e na determinação. Foram essas as principais características que o celebrizaram no campo. E fora dele. Lerby nunca virava as costas a um desafio e tinha um espirito competitivo inimitável. Passou a adolescência a jogar em pequenos clubes amadores dinamarqueses numa era onde o profissionalismo ainda era quase uma ilusão. Quando Allan Simonsen começou a ganhar fama internacional as equipas europeias voltaram-se para o mercado nórdico. Numa das viagens dos seus olheiros, o Ajax descobriu o jovem e recrutou-o com apenas 17 anos para a sua equipa principal. O médio atuou pelo conjunto ajaccied durante oito largas épocas onde venceu cinco títulos e foi eleito capitão de equipa, antes de se mudar para o poderoso Bayern Munchen. Foi em 1983 e rapidamente se tornou pedra basilar do conjunto bávaro. Por essa altura já era o peso e medida do meio-campo da Danish Dynamite de Sepp Piotnek. E foi a sentir-se dividido entre dois compromissos inadiáveis com o seu clube e seleção que Lerby fez história.

Um dia, dois jogos

O feito que o faz ser recordado ainda hoje teve lugar num chuvoso 13 de Novembro de 1985. O futebol europeu não tinha ainda a mesma estrutura organizativa de hoje e era muito comum haver jogos de distintas competições no mesmo dia. Isso implicava um problema para as equipas e jogadores que eram forçados a escolher entre manter-se fiel à sua seleção ou seguir com o clube que lhes pagava o salário. A maioria assinava acordos entre a federação e clube. Lerby não o fez. O seu carácter impedia-o de optar. Nesse dia Lerby tinha dois compromissos e estava determinado a não faltar a nenhum deles. E portanto, logrou o impossível. Tornou-se omnipresente.

Às 12h00 da manhã apresentou-se com os seus restantes colegas no relvado de Dublin. A Dinamarca visitava a Irlanda e o jogo era decisivo para confirmar o apuramento dinamarquês para o Mundial, pela primeira vez na sua história. Lerby juntou-se aos seus colegas e tomou parte na histórica vitória por 1-4. Com o terceiro golo dinamarquês, dez minutos depois do intervalo, o médio pediu a substituição. Foi ao minuto 58. Sem tomar banho saiu imediatamente do estádio com um motorista privado que o levou ao aeroporto da cidade onde o esperava um jacto privado fretado pelo Bayern Munchen. O avião levou-o até Bochum onde o clube bávaro disputava uma eliminatória da Taça da Alemanha. Depois de aterrar o avião o jogador rumou ao estádio. Chegou aos 35 minutos de jogo decorridos. Ao intervalo foi lançado para o relvado e ajudou o Bayern a empatar, depois de ter começado a perder. Tinha acabado de fazer história. O primeiro futebolista a atuar, no mesmo dia, por duas equipas diferentes, em países diferentes e competições diferentes. Omnipresente.

A carreira de Soren Lerby foi mágica. Depois da era bávara, o médio viajou até França onde atuou pelo AS Monaco. Atraído pelo estilo de vida de playboy da capital monegasca o médio passou apenas uma temporada na Ligue 1 antes de voltar à Holanda onde assinou pelo PSV. Esteve na final da Taça dos Campeões Europeus que os holandeses bateram o SL Benfica antes de se retirar com o ouro europeu ao pescoço. Atrás de si deixou um registo notável de 67 internacionalizações, um Mundial, dois Europeus e 1 Taça dos Campeões, para além das vitórias nas ligas holandesas e alemãs. Mas com o passar do tempo os títulos foram caindo no esquecimento. Mas que um dia Lerby tenha desafiado o tempo e espaço, isso é uma recordação que não tem preço.

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