Durante a década de sessenta a cidade de Amesterdão tornou-se o centro de uma revolução futebolística que a história baptizou como “Futebol Total”. Na pequena e pouco glamouroso localidade de Leicester, esse fenómeno já tinha sido testado. Os “Foxes” foram os inesperados percursores do futebol moderno nas ilhas britânicas. O sonho durou apenas um longo e gélido inverno.

O inverno mais longo da velha Albion

Com quinze graus negativos, um vento cortante e um céu escuro, não há muitos motivos para sair de casa. No Inverno de 1963 o frio levou o norte da Europa para um curto flashback do que podia ter sido a última era do gelo. Em Leicester, nenhum Inverno é recordado com maior devoção. Enquanto o resto do país se fechava em casa e esperava por melhores dias, as bancadas de Filbert Street vibravam com o calor humano dos adeptos do Leicester. Os que sabiam que estavam a testemunhar uma época histórica.

Durante meses o modesto clube do coração da velha Albion sonhou com um inesperado título de campeão da First Division. Um sonho alimentado pelo aparecimento de um estilo de jogo inovador para a época nas ilhas. Uma reminiscência dos velhos anos de glória dos clubes escoceses, uma versão britânica do modelo danubiano que uma década antes tinha infligido em Wembley a maior humilhação da sempre da história dos Pross. Antes do Liverpool de Shankly, antes do Ajax de Cruyff ou do Bayern de Beckenbauer, os azuis de Leicester colocaram em prática uma versão de teste do futebol moderno. Do futebol total.

Os Ice Kings, os reis do gelo, conseguiram contornar os obstáculos do mais duro Inverno inglês do século XX para desafiar as grandes potências das ilhas numa corrida pelo título que esbarrou com a Primavera e dias mais soleados. Durante quatro meses, o Leicester foi a equipa mais fascinante da Europa. O seu estilo de jogo de toque curto, passes constantes e futebol de posse em contradição com o popular kick-and-rush britânico conquistou o coração dos adeptos um pouco por todo o país. A inovação táctica do técnico, Matt Gillies, lançou as bases para o estereotipado 4-4-2 tão inglês, onde o papel dos extremos estava condicionado não pela sua habilidade técnica e velocidade em aparecer nas alas mas no seu jogo associativo com o meio-campo. A 10 de Novembro os Foxes bateram o West Ham por duas bolas a zero. A série de dezoito jogos sem perder acabaria apenas a 18 de Abril, precisamente contra os Hammers. Os dias mais quentes da gélida Leicester.

Gilles, o inglês que explorou as bases do Futebol Total

Matt Gillies era um admirador confesso do futebol húngaro e austríaco dos anos cinquenta.

Tinha viajado pela Europa central e aprendido em primeira-mão os modelos de treino e as inovações tácticas que tinham feito do eixo danubiano um dos pólos de desenvolvimento desportivo mais importantes da história do jogo. Quando foi contratado em 1958 pelo seu último clube que representou como jogador, o Leicester, Gillies decidiu aplicar em Filbert Street os mesmos padrões de jogo que tinha encontrado no continente. A seu favor jogava a falta de pressão mediática. As “raposas” estavam no último lugar da First Division e havia poucas esperanças em garantir a permanência. Quando a temporada acabou, o Leicester tinha sido salvo. Mais importante ainda, Gillies tinha conseguido assinar contrato com o influente Bertie Johnson, o seu braço-direito e um dos melhores olheiros do país. Graças ao olho de Johnson para jovens promessas, Gillies contratou nesse Verão um jovem e desconhecido guarda-redes de vinte e dois anos chamado Gordon Banks. O futuro campeão do Mundo com a seleção inglesa só ganhou a titularidade a metade da época seguinte mas com ele tinham chegado também nomes que se tornariam fundamentais para o plano a médio prazo do técnico. Frank McLintock, Graham Cross, Mike Stringefellow ou Lenny Glover passaram de desconhecidos a nomes consensuais na elite do futebol inglês durante os anos sessenta.

Com eles em campo o Leicester foi crescendo como equipa. Partia do tradicional WM para uma versão moderna do 4-4-2 em que os extremos muitas vezes operavam como médios interiores, permitindo a McLintock e Cross desmontarem as defesas rivais no seu apoio à dupla de ataque composta por Stringefellow e Keyworth. Utilizando um velho truque continental, Gillies decidiu contrariar a habitual tradição inglesa de utilizar as camisolas do um ao onze seguindo as posições clássicas, o que na maioria das vezes confundia as marcações dos rivais, habituados a um modelo padrão em que cada jogador marcava um número de camisola e não um jogador. Em 1961 o Leicester alcançou pela primeira vez a final da FA Cup. Saiu derrotado num duelo contra o mágico Tottenham Hotspurs de Bill Nicholson mas o sexto lugar no final da temporada dava razão ao técnico. Algo mágico estava a acontecer em Filbert Street.

Os Ice Kings de Filbert Street

O clube arrancou para a temporada de 1962-63 com expectativas de manter uma respeitável posição na parte superior da tabela. A 3 de Novembro, os Foxes visitaram os Spurs em White Hart Lane e sairam copiosamente goleados por 4-0. Parecia claro que ainda havia uma grande diferença entre os grandes candidatos ao título e os modestos aspirantes. Mas essa foi a última derrota dos azuis até à Primavera. Durante dezoito jogos consecutivos os Foxes não perderam e saltaram do quarto lugar para a liderança da First Division. A 8 de Abril um empate a uma bola contra o Blackpool selava um momento histórico. Seguiu-se uma inesperada derrota com o West Ham em Upton Park que lhes custou de novo a liderança e dois triunfos sobre Leyton Orient e Manchester City, com quatro golos de Stringellow. Faltavam um duplo confronto contra os favoritos Manchester United em dois dias. Um empate e uma vitória devolveram a liderança ao Leicester. A cinco jogos do fim da época. Para trás tinha ficado um Inverno histórico.

A partir de Novembro as temperaturas baixaram de forma assustadora em todo o norte da Europa. Em Janeiro a maioria das cidades ingleses não passaram acima da linha das temperaturas negativas. O futebol pagou o preço. Os campeonatos foram suspensos desde o Boxing Day até Fevereiro e o calendário foi acumulando vários jogos sem disputar. Os relvados dos estádios ingleses estavam destroçados com as constantes nevadas. Muitos não aguentaram o Inverno e transformaram-se em verdadeiros lodaçais. As bancadas, cobertas de gelo e neve, tinham-se transformado num purgatório para o mais fanático dos adeptos. Em Leicester a situação foi diferente. Os adeptos do clube juntaram-se para limpar o relvado da neve e os fertilizantes utilizados pelo tratador do relvado do clube, Bill Taylor, fizeram efeito. A finais de Janeiro, Filbert Street estava pronto para receber jogos competitivos. Enquanto os restantes campos ingleses se mantinham impraticáveis, Gillies podia jogar com as condições climatéricas a seu favor.  O seu jogo de passes curtos funcionava em casa perfeitamente e a equipa tinha recursos suficientes para sobreviver nos jogos fora. O Leicester começou a acertar o calendário e a receber os seus rivais directos que, por sua vez, ainda não estavam em condições de jogar nos restantes campos. Durante um mês o clube beneficiou de uma condição física superior e fez o melhor uso possível dela superando com facilidade rivais tão dificeis como o Arsenal, Everton e Liverpool com vitórias categóricas que valeram o cunho na imprensa do rótulo de “Ice Kings”. Era na verdade uma analogia que não contava metade da história.

Tal como Michels desenvolveria no Ajax e como Gillies tinha aprendido diretamente de húngaros e austríacos, o estilo de jogo da equipa baseava-se em longas possessões, constantes trocas de posições e mudanças de esquema tácticos durante o jogo, ora com os avançados a darem lugar no ataque aos médios interior, ora com os extremos a aparecerem em diagonais pelo centro das defesas contrárias. A isso o Leicester aliava uma defesa segura e um guarda-redes de classe mundial na figura imensa de Banks. Parecia que os astros se alinhavam para dar a maior das alegrias aos adeptos do clube. Mas depois de bater o Manchester United, com cinco jogos para terminar a época, o sonho desfez-se. O cansaço físico de tantos jogos acumulados começou a fazer-se notar e os rivais na luta pelo título, mais descansado depois de dois meses sem jogar, tinham a frescura necessária para vencer uma luta ao sprint.

O Leicester entrou na jornada 38 como líder. Nos cinco jogos seguintes conquistaria apenas um ponto, um empate contra o Wolverampton Wanderers. Quatro derrotas consecutivas frente a West Bromwich, Aston Villa, Bolton e Birmingham selaram a queda estrepitosa na tabela classificativa. De lideres isolados, os Foxes acabaram a temporada no quarto posto. O mesmo que ocupavam quando o Inverno atingiu as ilhas britânicas de forma implacável.

O renascimento dos Foxes

A saga do Leicester não acabou nessa temporada.

O clube tinha aberto os olhos aos rivais e, pouco a pouco, clubes como o Liverpool de Shankly, o Leeds de Revie e o Manchester United de Busby foram incorporando elementos do seu modelo de jogo aos seus esquemas tácticos. O efeito novidade perdeu-se. As condições climatéricas nunca mais foram tão adversas e à medida que alguns dos seus melhores jogadores eram transferidos para clubes com maior poder financeiro, o sonho do Leicester de vencer a First Division desfez-se. Ainda assim, em 1963, a equipa voltou a Wembley para disputar a sua segunda final da FA Cup em apenas três anos. Contra o Manchester United de Busby, muitos davam o favoritismo aos homens de Gilles. A memória dos reis do gelo ainda estava bem viva. Mas a equipa já não se comportava com a mesma perfeição de movimentos em campo. No santuário do futebol inglês o Leicester caiu por 3-1 e perdeu a possibilidade de levantar o seu primeiro troféu oficial. Uma espera que durou apenas mais uma temporada. No ano seguinte Gillies liderou os seus jogadores à conquista da Taça da Liga, numa final apaixonante contra o Stoke City que terminou com um 4-3 no marcador. Era o ponto mais alto do seu mandato.

O Leicester manteve-se na elite do futebol inglês até 1969 quando caiu finalmente na Second Division. Por essa altura já Gillies tinha partido, não sem antes ter regressado à final da Taça da Liga pelo segundo ano consecutivo e sem que Johnson tivesse encontrado em Peter Shilton o sucessor perfeito a Gordon Banks. Desde então a vida dos Foxes tem sido feita de altos e baixos, mas sempre longe dos anos mágicos do mandato de Gilles. O clube que também apresentou ao mundo o olfacto goleador de Gary Lineker regressou aos triunfos quando o irlandês Martin O´Neill transformou as raposas azuis de novo numa das mais excitantes formações do futebol europeu com uma equipa que relembrava e muito o projeto de Gilles, com jogadores desconhecidos e um futebol ofensivo e descomplexado. Em 1997 o Leicester venceu a sua segunda Taça da Liga, repetindo o triunfo três anos depois (e uma final perdida pelo caminho), e Filbert Street voltou a sonhar um um longo Inverno, sem fim, e um título que ficou perdido entre os primeiros frutos em flor da Primavera de 63.

2.065 / Por
  • Gilberto Malheiros

    Sou brasileiro, Rio grande do sul, Porto alegre. Terra do Grêmio foot ball porto alegrense, campeão da libertadores em 83 e 95, e do mundo em 83 contra o Hamburgo. Sou muito fã do futebolmagazine. As melhores histórias da melhor invenção do mundo, segundo mauro cezar pereira – jornalista da espn brasil. Melhor página e site sobre futebol. Abraço a miguel lourenço, essas historias contagiam e aumentam a verdadeira paixão inexplicável pelo futebol……

    • Miguel Lourenço Pereira

      Obrigado Gilberto!!