Toca, toca, rondo, rondo. O ADN do Barcelona construiu-se à volta desta ideia. Mas muito antes de Guardiola aterrar no banco do Camp Nou. E a paternidade do conceito também não é, como muitos pensam ainda, de Johan Cruyff. Em 1972 um técnico chegou da Cantábria com uma ideia debaixo do braço e quando saiu, seis anos depois, deixou um clube com um legado para o Mundo. Laureano Ruiz, o homem da ideia, é o avô esquecido da equipa que conquistou adeptos nos quatro cantos do Mundo.

A génese do tiki-taka

Foi por culpa de uma cerveja, de uma equipa de futebol patrocinada por uma fábrica de cerveja, a Damm, que o Barcelona despertou para uma dura realidade. Em 1972 o seu futebol de formação não era sequer o melhor da Catalunha e não podia competir, de longe, com a realidade do futebol espanhol da etapa final do franquismo. O último titulo nacional ganho pelo FC Barcelona datava já de 1960 e não parecia haver jogadores com perfil capaz de dar a volta à situação na sua cantera. O então presidente Agusti Montal perguntou aos seus conselheiros sobre quem poderia ser o homem ideal para alterar esta realidade. Laureano Ruiz foi a resposta unânime. Semanas depois chegava de Santander com uma mala repleta de papeis manuscritos e muitas ideias na cabeça o homem que iria marcar o antes e o depois da história do clube blaugrana.

Na pequena secretária que tinha no Camp Nou o cantabro descubriu o espírito arcaico com que de desenvolvia a formação do clube. Qualquer jogador com menos de 1m80 era recusado à partida, a maioria dos observadores limitava-se ao entorno geográfico catalão e cada equipa, dos infantis aos juniores, jogava como o respectivo técnico entendia melhor. A desorganização era absoluta e tornou-se fundamental alterar todos os conceitos. A bola, para Ruiz, seria o eixo central das gerações futuras do clube.

Inspirado pela equipa húngara dos anos 50, orientada por Gustav Sebes, o novo coordenador da cantera blaugrana entendeu primeiro que nenhum outro a importância de manter-se fiel a uma ideia, a um modelo. Decretou que todas as equipas do clube deveriam seguir três conceitos básicos e fundamentais: um jogo de posse de bola, um sistema táctico comum e um regime de treino que misturava o aspecto físico com o controlo técnico da bola. Aí nasceu o 3-4-3 que só anos mais tarde Johan Cruyff adaptaria ao seu Dream Team. Aí nasceu uma equipa capaz de misturar jogadores atléticos como Alexanko, Bakero, Puyol ou Busquets com atletas que antes teriam sido descartados. Guardiola, Messi, Xavi e Iniesta nunca teriam jogado no clube se não fosse por Ruiz.

E por fim, a obsessão pela bola, a doutrina do rondo, a necessidade de tocar e receber constante, começou a germinar. A pouco e pouco os resultados na formação acompanharam a ideia de Ruiz e o seu nome ganhou peso junto do clube. Mas ainda era cedo, demasiado cedo. O clube suspeitava de um treinador que valorizava um jogador pequeno por cima de um atleta de alta competição e, sobretudo, do seu sistema táctico que, para muitos, parecia demasiado arcaico numa era onde o 4-4-2 era santo-e-senha. Ruiz lutou como D. Quixote, contra moinhos de vento nas salas das direções, com os técnicos principais e os seus próprios ajudantes. A chegada de Rinus Michels, técnico da escola holandesa que no seu Ajax tinha seguido um paradigma similar foi um respaldo emocional para o cantábro. Mas foi Johan Cruyff, que em 1974 aterrou em Barcelona para fazer história, quem soube ver para lá da neblina e entender que o ideário de formação de Ruiz fazia mais sentido do que muitos se imaginavam.

Experiência na equipa principal

Em 1976 o clube despediu o alemão Hennes Weisweiller, que tinha brilhado com o Borussia Monchengladbach. Sem opções no mercado, a directiva vira-se para Ruiz e propõe-lhe o lugar de técnico principal. Os quatro anos de trabalho na formação tinham servido para definir o caminho. Na equipa principal o técnico tentou aplicar os mesmos princípios mas a hora do futebol de posse ainda não tinha chegado para o Camp Nou. Com um Cruyff decadente, o técnico tentou apostar num 3-4-3 utilizando o peruano Sotil como falso extremo e o holandês e Reixach como avançados móveis. A ideia não funcionou, e com a liga perdida, a equipa perde contra o Atlético de Madrid na Copa del Rey e com o Liverpool nas meias-finais da Taça UEFA. Ruiz coloca o lugar à disposição, entendendo que faz mais falta na estrutura de formação. Mas a direção de Montal, decepcionada com a falta de resultados imediato, pensa o contrário e dispensa o treinador que viaja até Santander onde passa a orientar o Racing. Um ano depois Josep Luís Nuñez ganha as eleições no clube blaugrana e aposta forte na construção de uma pequena casa ao lado do Camp Nou para albergar a reestruturada formação do clube: La Masia.

O legado de Ruiz é indispensável para a evolução do Barcelona. Os primeiros jovens jogadores com quem começa a trabalhar, em 1972, são os que, uma década depois formam parte da equipa principal que devolve o titulo de campeão ao Barcelona, depois de outro hiato de uma década. Quando Cruyff aterra como treinador principal, em 1988, vem com a mesma linguagem de Ruiz, com o mesmo sistema táctico na cabeça e sem os preconceitos que teriam condenado Guardiola ou Sergi Barjuan, já então sob a ameaça de serem dispensados da equipa júnior pela sua condição física. Vinte anos depois da chegada de Ruiz ao Barcelona o clube vence a sua primeira Taça dos Campeões Europeus jogando no 3-4-3 ensaiado pelo cantabro, procurando manter a bola a toda a custa e misturando verdadeiros atletas como Koeman, Salinas ou Bakero com artesões da classe de Guardiola e Laudrup.

Desde então o clube tem sofrido altos e baixos na sua aposta pelo produto da casa, mas a forma de treinar e preparar os canteranos não sofreu nenhuma mudança drástica. As palavras de Ruiz continuam a passar de geração em geração, de técnicos a jovens promessas, de directivos a adeptos. Apesar de não ter direito sequer a uma longa referência no historial do clube, quem vive as entranhas do Barcelona conhece o papel fundamental de Laureano Ruiz na profissionalização do clube e na definição de uma ideia que ajudou a transformar o clube em mais do que uma equipa de títulos.

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