Foi uma das maiores polemicas dos anos 80 e travou a ascensão de uma das grandes promessas do futebol francês. De um lado o capitão do Saint-Etienne. Do outro um Jean François Larios. No meio da tempestade, a senhora Platini. Não foi a primeira vez que um jogador pôs em risco a carreira por uma mulher. Mas no final percebeu-se que Michel Platini tinha mesmo o estatuto de marechal de França.

Uma estrela em ascensão

Jean François Larios era uma estrela em potência. Em 1977 despontou no onze do Saint-Etienne com uma naturalidade assustadora. Tinha chegado ao conjunto verde em 1973 depois de fazer a formação no Pau, clube do seu pai, um antigo internacional nascido na Argélia. Rápido, ágil e com faro de golo, a estreia como titular dos Les Verts surgiu com 20 anos. O jovem chegava a uma equipa de campeões onde pontificava outra jovem estrela, um tal de Michel Platini. Por essa época a reputação de rebelde perseguia-o junto dos técnicos e encantava os adeptos, desejosos de ver um jogador carismático. Após o empréstimo ao Bastia, tornando-se num dos jogadores do ano na Ligue 1 e levando os corsos à final da Taça UEFA, o filho pródigo voltou a casa. Levanta-se a polemica sob a sua ausência dos convocados para o Mundial da Argentina mas imediatamente após a péssima prestação dos Bleus na prova, Larios é convocado pela primeira vez. Todos estavam de acordo. Ali poderia estar o futuro líder da nova geração gaulesa. O apelido de “Grand Jeff” não enganava.

Polémica a meio do Espanha 82

Com Johnny Rep e um jovem Michel Platini, o meio campo do Saint-Ettiene era demoníaco. Os passes precisos de Larios são determinantes na notável campanha na Taça dos Campeões Europeus e na revalidação do titulo de campeão francês. É eleito com imensa margem o melhor jogador do campeonato francês à frente de…Platini. Os bons amigos tornam-se rivais e o ambiente no balneário vai-se crispando a cada mês que passa. Platini reinvíndica mais protagonismo e ameaça com sair para Itália onde Inter e Juventus o esperam. Larios tem ofertas do Real Madrid e Barcelona mas a direção recusa-se a libertar as duas pérolas. E então chega o Mundial de Espanha. Os jogadores, já totalmente de costas voltadas, mal se falam e o balneário está tenso. E então dá-se o escândalo que iria marcar a própria prestação gaulesa na prova.

A imprensa francesa lança a noticia de que o jogador teria um caso extra-matrimonial com Christele, precisamente a mulher de Michel Platini. O já capitão francês entra num estado de fúria incontrolável. Esteve perto de agredir fisicamente Larios e quando acabou dissuadido pelos colegas utilizou o seu estatuo. Ou Larios saía da equipa nacional de França, ou então saía ele. A Federação Francesa de Futebol e o selecionador Michel Hidalgo tentaram acalmar o jogador mas a postura era irreversível. Na eminência de perder o líder da equipa – que tinha o apoio da esmagadora maioria do balneário – os dirigente preferiram sacrificar Larios. O médio, que tinha sido titular no jogo inaugural com a Inglaterra, foi relegado à bancada e convidado a sair do centro de estágio. No final da prova a FFF convocou-o a Paris para prestar declarações. Larios antecipou-se e anunciou publicamente que se retirava dos jogos internacionais.

Carreira destroçada

Com Platini já a caminho da Juventus, Jean Larios decide ficar em Saint-Ettiene. Mas o ambiente é de cortar à faca e depois de um ano decepcionante convidam-no a sair. Pela porta pequena. O médio emigra, primeiro para Espanha onde irá representar o Atlético de Madrid. Logo passa pelo futebol canadiano e suíço até que volta a França. A imagem manchada pela conservadora opinião pública francesa e a constante adoração à volta da figura de Platini marcam a sua carreira de forma irremediável. Durante anos é assobiado em todos os estádios por onde passa. Em 1986, com 30 anos, decide por um ponto final a uma carreira que esteve perto de atingir a brilhantez. Ao contrário, Platini, que deixa o futebol um ano depois, e se consagra como a grande estrela do futebol internacional. Para lá dos prémios individuais (incluindo 3 Ballon´s D´Or consecutivos) e das conquistas em Itália e com a seleção gaulesa, o número 10 transformou-se no ícone do foot-champagne. E relegou para a obscuridade um jogador de um talento tão grande como o seu rebelde ego.

Foto: Direitos Reservados

2.132 / Por
  • João Brites

    Só uma correcção, depois do jogo inaugural frente à Inglaterra, JF Larios, no Mundial 82, ainda volta e faz os 90′ da partida do 3º e 4º lugar que a França perde para a Polónia, curiosamente (ou não) com Platini sem jogar essa partida…