Antigo forte dos cossacos russos, Krasnodar é uma cidade à procura de uma oportunidade. Cidade-sede da candidatura ao Mundial de 2018 foi aparentemente descartada pelo comité organizador. Mas uma inclusão da Crimeia na Federação Russa pode dar uma nova oportunidade mediática à cidade que está a torcer para que a península do Mar Negro seja um ponto a seu favor na sua luta interna para ser sede mundialista em Junho de 2018.

Uma mensagem política

Durante a campanha de promoção da candidatura russa, Krasnodar era dada pelo comité organizativo como um exemplo da expansão do futebol no imenso território. Com dois clubes na primeira divisão, a segunda cidade mais representada em prova, apenas atrás de Moscovo, a localidade do sudeste do país era considerada um caso de sucesso. Com menos de um milhão de habitantes, a cidade conta com excelentes infra-estruturas, uma política de gestão económica exemplar e a sua localização, ao lado do Mar Negro, abre-lhe as portas não só do universo europeu mas também das repúblicas vizinhas do Cáucaso.

Incluir Krasnodar na campanha de apoio ao Mundial era um sinal de Moscovo de que a segurança não seria um problema no torneio. Apesar da proximidade com os rebeldes chechenos, os diretivos da capital queriam demonstrar que estavam confiantes que a prova seria realizada sem temor a uma eventual ameaça terrorista desde o sul. Os habitantes da região, com o seu governador à cabeça, Alexander Tkachev, deram a cara pelo projeto e receberam em várias ocasiões representantes do comité de avaliação. Parecia que estava tudo resolvido quando a finais de 2012 foram anunciadas as onze cidades sede do torneio. E Krasnodar já não estava na lista.

Kaliningrado, o ás na manga de Beckenbauer

A ausência levantou muita polemica no coração da Rússia.

Os organizadores do torneio defenderam a sua escolham, referindo a proximidade geográfica com a cidade de Rostov-on-Don e Socchi, duas cidades que sim estarão entre as cidades-sede finalistas. Face ao problema da distância geográfica – o torneio será disputado num raio de mais de 2500 kms – a FIFA persuadiu a Federação Russa a criar três núcleos distintos para albergar equipas e adeptos e evitar grandes deslocações que, nalguns casos, podem durar mais de um dia de viagem de carro ou comboio. Moscovo, com dois estádios escolhidos, e as cidades dos Urais (Kazan, Samara, Nizhny-Novgorod e Yekaterinburg) constituiriam o núcleo principal. A sul, seguindo o curso do Volga, seria criado um segundo núcleo. Onde originalmente estava Krasnodar, em companhia de outras cidades como Rostov-on-Don, Socchi, Volvograd e Saransk. Mas essa decisão deixava um terceiro núcleo, liderado pela influência política da cidade de Vladimir Putin, São Petersburgo, demasiado só.

Em cena apareceu então Franz Beckenbauer, um dos principais apoiantes da candidatura russa dentro da própria UEFA. O homem responsável pela organização do Mundial de 2006 fez ativamente campanha pela inclusão de Kaliningrado entre as cidades sede, principalmente para albergar equipas como a Alemanha. A escolha é óbvia. Kaliningrado não está em contacto com mais nenhuma cidade da Rússia. É um enclave, herdado da época da União Soviética, preso entre as repúblicas bâlticas e a Polónia e com uma forte tradição germânica. Geograficamente está mais próxima de Berlim do que São Petersburgo e é aí onde Beckenbauer quer alojar a comitiva da Mannschaft. Originalmente, a ausência de vias diretas com as restantes cidades, excluiu a cidade das eventuais candidatas. Mas o lobby alemão foi persuasivo e Kaliningrado será, efetivamente, uma das cidades onde se disputará a competição. A distância entre o porto báltico e Yekaterinburg, a cidade mais a leste, no coração dos Urais, é de mais de 3000 mil kilómetros, uma distância difícil de percorrer.

Para que a urbe marítima tivesse oportunidade de entrar na lista alguma das cidades do Volga teria de sair. Krasnodar foi a escolhida apesar de ser, entre todas, as que mais ligação ao mundo do futebol possuiu. O FC Krasnodar e o FC Kuban fazem parte da primeira liga russa. As vizinhas Socchi e Volvogrado, por exemplo, não possuem nenhum. Mas os seus governantes são oligarcas próximos ao Kremlin e neste jogo de tronos isso faz toda a diferença.

O trunfo emocional da Crimeia

Naturalmente contrariados, os cidadãos de Krasnodar não disseram a última palavra. O drama político na Crimeia deu-lhes uma nova oportunidade. A cidade é a maior urbe russa próxima à península. É de uma das suas urbes satélites que vai ser construída a ponte que tem previsto unir a Crimeia com o resto da Federação uma vez que a anexação esperada por Sebastepol e Moscovo se oficialize. Também por isso os habitantes de Krasnodar esperam que o Kremlin esteja disposto a mandar uma nova mensagem de unidade política do país. E isso significa ter jogos do seu Mundial – um acontecimento histórico como o país não vive desde as Olimpíadas de Moscovo, em 1980 – perto desse novo enclave russo. Não há sitio melhor para concretizar essa ambição que devolver a Krasnodar a sua condição de cidade-sede.

O governador da região já proclamou publicamente que vai ordenar que os projetos inicialmente previstos para receber o Mundial sigam em frente. Isso passa por construir um novo estádio de 50 mil lugares, novas vias de transporte, hotéis, hospitais e obras de melhoramento nos aeroportos e estações de comboio. Em 2018 a cidade estará preparada para albergar a competição mesmo que, eventualmente, acabe por não receber nenhum jogo.

Tkachev já fez saber que desconfia publicamente da escolha de algumas das cidades-sedes. A queda em desgraça de algum dos seus patrocinadores políticos, desajustes de orçamento (como aconteceu com os Jogos Olímpicos de Inverno que tiveram lugar, precisamente, em Socchi) podem abrir as portas a uma nova via. E Krasnodar quer estar pronta para ocupar essa vazio. A inesperada possível anexação política da Crimeia foi o pretexto perfeito. Para eles é a derradeira esperança de fazerem parte da celebração do maior evento desportivo da história do país.

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