A cinco quilómetros do circulo polar nórdico o futebol joga-se com a mesma paixão dos campos do mediterrâneo. Mas a temperaturas muito menos recomendáveis. Em Rovaniemi está o estádio mais frio da Europa, um recinto onde as temperaturas podem alcançar 25º graus negativos em dia de jogo. Um desafio extremo para o corpo e para a mente. 

Jogar a ver a aurora boreal

O Mundo conhece a localidade de Rovaniemi pelas suas maravilhosas vistas sobre o céu árctico, os bailes de luzes, estrelas e asteróides que dão forma à Aurora Boreal. Durante o ano milhares de turistas viajam até ao coração da Lapónia, no extremo norte da Europa, para assistir a esse espetáculo cósmico. O que poucos sabem é que ali, na cidade mais fria da Finlândia, também se encontra o estádio mais frio do continente.

Durante o Inverno as temperaturas na cidade podem alcançar os 50º negativos, tornando o dia a dia num verdadeiro exercício de sobrevivência. Os recém-chegados demoram meses a adaptar-se a dias de inverno sem luz e a viver em condições extremas de gelo, neve e frio. Talvez os que pior se sintam sejam aqueles que são forçados, quinzenalmente, a subir ao relvado do Keskuskenttä, o estádio local. São os jogadores do RoPS, um dos clubes mais laureados do país, verdadeiros heróis inesperados.

Na equipa atual da formação finlandesa atuam cinco jogadores estrangeiros. Três vieram do calor africano da Nigéria e dois da bacia caribenha, um hondurenho e um mexicano. Para eles, treinar regularmente em temperaturas negativas é mais do que um problema. É um novo jogo que têm de aprender desde o primeiro dia.

A pressão de Bernard Tapie

O RoPS foi fundado em 1950, quando a modesta cidade de Rovaniemi começou a crescer em população, devido à instalação de uma Universidade de Ciências Aplicadas, localizada especificamente para estudar o meio local, a relação entre a vida no extremo polar europeu e o desenvolvimento cientifico e astronómico. Das salas de aula saíram alguns dos primeiros jogadores, quase todos eles amadores, e só nos anos 80 o clube abraçou de forma definitiva o profissionalismo.

Promovido ao escalão máximo do futebol finlandês, manteve-se durante largos anos entre a elite futebolística do país, vencendo uma taça nacional e qualificando-se por várias vezes para a fase preliminar das provas europeias. Em 1988 conseguiu um dos melhores resultados de sempre para um clube finlandês, ao qualificar-se para os Quartos de Final da Taça das Taças. Nesse dia estiveram mais de 8 mil pessoas a desafiar o frio de Novembro, a 7 graus negativos, na vitória sobre os albaneses do Vllaznia. O sorteio ditou então um jogo contra os franceses do Marselha, para Março, mas Bernard Tapie exigiu à UEFA que o jogo fora de casa fosse disputado fora da Finlândia pelas condições extremas. O RoPS protestou mas finalmente o encontrou disputou na cidade portuária italiana de Lecce e os gauleses seguiram confortavelmente em frente.

Treinar a 25º gruas negativos

O dia a dia de um jogador do RoPS não é fácil.

Há cinco anos foi construído na cidade um pavilhão do tamanho de um estádio de futebol para permitir que os treinos durante a semana se realizem à porta fechada. Até esse momento a equipa era forçada a treinar durante largos meses a temperaturas que oscilavam entre os 25º e os 5º graus negativos. O relvado foi substituído por um campo sintético, holofotes de maior potência foram instalados e o recinto foi renovado, reduzindo a capacidade para cinco mil lugares. Mesmo assim, as condições continuavam a ser extremas. Antes da construção do recinto fechado, em dias de tempestades de neve, os treinos eram substituídos por exercícios no pequeno ginásio local. Hoje quando chega o dia de jogo, esteja a temperatura que estiver, a equipa sobe ao relvado para sobreviver ao frio e ao jogo do rival.

Jogar nessas condições implica um desgaste físico a que o corpo humano dificilmente se habitua. O sangue flui com muito menos facilidade, a frequência cardíaca aumenta, os braços e as mãos tendem a congelar-se rapidamente e os jogadores têm claras dificuldades em respirar normalmente.

Jogar no Keskuskenttä é um desafio não só para os locais mas todos os clubes finlandeses que viajam até ao extremo norte do país. Durante anos o clube manteve uma larga invencibilidade em casa, o que lhe permitiu manter-se durante mais uma década na parte alta da tabela classificativa apesar de contar com um plantel com jogadores de segunda fila do futebol finlandês. Poucos são os que preferem trocar Helsínquia por uma viagem sem regresso à Lapónia.

Curiosamente o frio não é o único problema do RoPS.

O clube foi acusado nos últimos anos de estar por detrás de uma série de resultados combinados o que provocou a suspensão de vários jogadores, a maioria dos quais de origem zâmbiana. O clube foi despromovido à segunda divisão mas em Novembro passado confirmou de novo que o Keskuskenttä é o seu melhor aliado, ganhando a competição e carimbando de novo o bilhete para voltar à primeira liga finlandesa. Para os rivais do RoPS não é uma boa notícia. Esperam-lhes longas viagens até à distantes Lapónia e frio, muito frio. Nem a maravilhosa dança da aurora boreal será capaz de fazer esquecer um estádio que é também um congelador a céu aberto quando o Inverno bate à porta.

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