JVC, o primeiro sponsor de equipamentos na Inglaterra

Hoje podemos a conta ao número de patrocínios que encontramos nos equipamentos das equipas de futebol profissional. Até 1981 no entanto, as camisolas inglesas ainda estavam imaculadas da invasão de sponsors que marcaria o futebol dos anos 80. A primeira marca a apostar em força no mercado futebolístico britânico foi a empresa electrónica japonesa JVC. Em 1981 as camisolas do Arsenal londrino apareceram pela primeira vez com o seu logótipo. O futebol nunca mais seria o mesmo.

O peso da tradição 

Durante décadas os equipamentos de futebol eram vistos pelos adeptos como peças sagradas. A esmagadora maioria dos equipamentos representava as cores dos clubes, da sua heráldica, das suas gentes, de forma impoluta e virginal. Uma história de amor que em muitos dos casos, na década de 80, era já quase centenária. O material evoluiu e nos anos 60 a pressão das marcas desportivas (Adidas, Puma, Umbro) começaram a trazer as primeiras mudanças. No estilo, no material e sobretudo no design. Começaram a aparecer as três tiras, os felinos, os losangos e os adeptos começavam a habituar-se a ver algo mais que o emblema do clube cosido nas camisolas e calções que subiam semanalmente aos relvados.

Mas o patrocínio, já firmemente estabelecido nos estádios, ainda era um tema tabu para a maioria dos clubes e adeptos. Ninguém estava preparado para ser o primeiro clube a desafiar uma tradição centenária, apesar de por essa época existirem já outros desportos que procuravam rentabilizar ao máximo os rendimentos desportivos dos seus negócios. E em Inglaterra, apesar da tradição, o futebol sempre foi gerido por homens de negócios.

Em Londres a ideia do patrocinio há muito que rondava a cabeça da maioria dos directivos dos grandes clubes. A capital inglesa estava habituada a adaptar-se aos novos tempos de forma mais célere que o resto do país e esse rendimento extra que algumas marcas podiam oferecer era demasiado tentador para ser ignorado por uma mera questão de respeito pela tradição. Não estranha portanto que tenha sido um clube da capital o primeiro a dar o passo rumo a uma nova ordem. E também não surpreende que o patrocinador tenha chegado directamente de um país a viver o seu apogeu económico e desejo de entrar em força no mercado ocidental.

JVC-Arsenal, o principio da nova era

1981 marcou o inicio da nova era.

Quando a temporada arrancou todos os clubes mantinham as suas camisolas virgens. Todos menos um. O Arsenal, então a viver mais uma era sem triunfos na First Division, decidiu arriscar e avançou com um acordo histórico com a companhia electrónica JVC.

O Arsenal não era um clube estranho às novas tendências. Uma década antes tinha sido o primeiro clube inglês a permitir que a marca desportiva que fornecia os equipamentos, a inglesa Umbro, tivesse o seu logótipo presente nas camisolas como a Adidas começava a lograr no Continente. De 1971 a 1985 os gunners foram vestidos pela marca inglesa antes de mudar-se durante a década seguinte para a própria marca alemã. Em 1994 chegou a vez da americana Nike compaginar os seus equipamentos com as três letras centrais da JVC japonesa.

O negócio foi realizado com alguma suspeita por parte dos adeptos mas é curioso que tantos anos depois, nem sequer o afamado Nick Hornby tenha descrito esse cepticismo com a entrada neste novo mundo. No seu “Fever Pitch” não há uma só referência a esta nova realidade. Não tinha sido a primeira vez (o Liverpool tinha usado pontualmente Hitachi nas camisolas em 1979, mas rapidamente retirou o patrocínio depois de queixas da FA) e na Alemanha havia um precedente praticamente desconhecido para os britânicos. Mas era a primeira parceira duradoura da história do futebol inglês.

A invasão das marcas 

A marca manteve-se na camisola do clube londrino até 1999.

De um negócio marginal que movia alguns milhares de libras em 1981, os japoneses passaram a um contrato de 5 milhões de libras em 1995. Valores insignificantes comparados com os que recebem hoje os principais clubes (Manchester United, Barcelona, Bayern Munchen, Manchester City, Real Madrid), todos com valores por cima dos 20 milhões de libras.

Nesse período de tempo a tendência tornou-se inevitável e em 1982 já metade dos clubes da First Division começavam a exibir os seus próprios sponsors. O Manchester United começou no final desse ano a sua própria relação duradoura com outra empresa electrónica oriental, Sharp, que se manteve igualmente até final dos anos 90 até ser substituida pela milionária empresa de telecomunicações Vodafone. Durante a década de 80 o patrocínio passou a ser uma realidade obrigatória para a sobrevivência financeira dos clubes à medida que os salários aumentavam e as receitas de bilheteira baixavam consideravelmente, algo que afectou essencialmente o futebol inglês depois do desastre de Hillsborough.

O próprio Arsenal manteve-se fiel largos anos à marca japonesa depois de várias renegociações de contrato até que surgiu em cena outro gigante nipónico, Sega, que em 1999 começou a publicitar a sua nova consola, Dreamcast, nas camisolas gunners. Uma relação que durou pouco – o fracasso do projecto não ajudou – e que levou o Arsenal para os braços da empresa O2, especialista em telecomunicações, e mais tarde a Emirates, que hoje não só patrocina as camisolas dos homens de Londres como também o nome do novo estádio do clube.

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