A hegemonia emocional da Juventus é um caso particular num país onde o clube turinês é o mais popular salvo na sua própria cidade. O mito da Vechia Signora como o clube de Itália forjou-se numa primeira e inesquecível idade de ouro no arranque dos anos trinta, os que consagraram o Calcio como primeira potência mundial.

A saga dourada da Juventus dos anos 30

Quando o Inter de José Mourinho levantou em 2010 o título de campeão de liga fê-lo envolto de uma liturgia especial. Era o quinto consecutivo – ainda que o primeiro tivesse sido atribuído na secretaria depois do processo Moggigate e da penalização á Juventus – o que colocava os neruazurri á frente da histórica equipa do Torino que tinha igualmente conquistado um Tetracampeonato nos anos quarenta. O que ninguém esperava é que o êxito dos milaneses fosse igualado pouco tempo depois precisamente pelo mesmo clube que abriu pela primeira vez no vocabulário do Calcio o termo “Pentacampeão”. A vitória na liga 2015/16 permitiu à Juventus celebrar o quinto título consecutivo e igualar assim a sua primeira etapa dourada, aquela em que o emblema de um clube patrocinado pela marca FIAT mas pouco popular na sua própria cidade conseguiu transformar-se no simbolo de uma Itália que era, à época, o epicentro do futebol mundial.

Entre 1930 e 1935 o escudo cozido ao peito das camisolas dos campeões nacionais – uma prática iniciada em 1924 por iniciativa pessoal de Benito Mussolini, determinado a rodear a liturgia do “foot-ball” de elementos de italianiedade – conheceu apenas o branco e preto como cores principais. Se a selecção treinada por Vittorio Pozzo começava a afirmar-se como a mais potente do futebol europeu, consagrada pelo título mundial conquistado em casa, em 1934, em Turim os homens-zebra demonstravam que a etapa dourada de Genoa e Bologna – as duas primeiras grandes potências do Calcio – tinha chegado ao seu final. Com a sua sequência de cinco títulos consecutivos, aliados aos já conquistados em 1905 e 1926, a Juventus chegou a meados da década de trinta como a terceira equipa em títulos nacionais, apenas atrás do Pro Vercelli e do histórico Genoa. Com a particular e fundamental diferença que o último título do Pro Vercelli tinha chegado em 1922 e o clube agonizava já longe dos lugares cimeiros enquanto que o histórico Genoa estava igualmente há mais de uma década de levanta o Scudetto. O futuro seria dividido entre Milão e Turim – nos oitenta anos seguintes só ocasionalmente o ceptro saiu dessas duas cidades e nunca mais de dois anos consecutivos – e com a Vechia Signora á cabeça dessa revolução futebolística.

O primeiro Pentacampeonato do Calcio

Em 1930 a Juventus arrancou a temporada na lista dos favoritos a suceder ao Internazionale como futuro campeão nacional. Os milaneses, liderados pelo icónico Giuseppe Meazza, tinham uma equipa formidável, mas os turineses, terceiros no ano anterior, contavam igualmente um excelente conjunto liderado por Carlo Carcano, um dos principais ajudantes de Vittorio Pozzo e figura fundamental no estabelecimento do “Il Metodo” como modelo táctico predominante no Calcio. A implementação do WM frente ao ainda popular 2-3-5 permitiu á Juventus colocar as peças do puzzle de um plantel recheado de nível num modelo táctico perfeitamente oleado que daria ao longo dos anos frutos indiscutíveis.

A isso havia que juntar igualmente o investimento – já então sensível face a um modelo semi-profissional ainda na base – da família Agnelli dona da FIAT, uma das empresas com maior apoio estatal dentro do estado corporativista montado por Mussolini. O dinheiro da FIAT ajudava o clube, presidido pelo próprio Edoardo Agnelli, filho de Giovanni Agnelli fundador da marca, a garantir os serviços de vários oriundi, futebolistas sul-americanos de origem italiana que foram chegando regularmente ao Calcio depois do Mundial disputado em 1930 no Uruguai. Entre eles contavam-se o indispensável Luisito Monti, o goleador Raimundo Orsi e também Eugenio Castelucci, José Maglio e Renato Cesarinni, um oportunista avançado que baptizou no léxico italiano os golos logrados nos minutos finais dos encontros como “Zona Cesarini”. Com tanto talento individual a Juventus possuía um dos melhores planteis da Europa – aos que se uniam vários internacionais com a Azurra como o guarda-redes Combi, Caligaris, Ferrero, Rosetta, Bigatto, Crotti, Mosca, Munerati e Ferrari – e não teve grandes dificuldades em confirmar esse favoritismo no terreno de jogo. Foram campeões a três rondas do final da Serie A, superando no final por quatro pontos a Roma, sacando quase vinte pontos ao Inter – entretanto rebaptizado como Ambrosiana – o que lhes valeu igualmente o passaporte para participar na Taça Mitropa do ano seguinte.  O jogo agressivo e veloz dos bianconeri com Monti apoiado nas alas por Varglien e Bertolini permitia ao quinteto ofensivo composto quase sempre por Ferrari-Cesarini, como interiores, e Vechinna-Orsi-Sergnagiotto na linha de ataque, uma superioridade indiscutível e intratável.

No ano seguinte, com a equipa a reter a coroa com quatro pontos sobre o Bologna, a par do Inter-Ambrosiana o seu grande rival ao largo da década, o êxito de um modelo que não sofrera qualquer ajuste num plantel já de si competitivo parecia evidente. O tricampeonato chegou com maior diferença pontual ainda, um total de oito pontos – conquistado a seis semanas do fim da época – sobre o Inter-Ambrosiana, sobretudo graças aos golos do capocanonieri Felice Borel, a única incorporação ao plantel, a rendar Vechinna na ponta do ataque, e um dos poucos jogadores a marcar mais de cem tentos com a camisola bianconeri numa carreira truncada pela II Guerra Mundial.  Os dois anos seguintes viram repetir-se o mesmo cenário, dois novos títulos conseguidos com diferença pontual substancial sobre a equipa de Meazza, graças ao jogo ofensivo de Borel e Orsi e maestria defensiva de Monti. Pelo meio, ironicamente, e tal como sucederia no futuro com a Taça dos Campeões Europeus, o grande problema da Juventus parecia estar não em dominar os seus rivais internos e sim em transferir essa hegemonia para os palcos europeus.

As malditas tardes europeias da Juve

Desde a formação da Taça Mitropa que os vários clubes centro-europeus passaram a considerar a competição potenciada por Hugo Meisl e Vittorio Pozzo como um ceptro continental à altura do que hoje olhamos para a Champions League. Apesar do torneio incluir apenas participantes hungaros, austriacos, checos, italianos, jugoslavos, suiços, alemães e romenos, para os que viviam á época intensamente o futebol europeu aí estava a genuina nata continental á falta da presença de ingleses. Eram anos em que países como Portugal, Espanha, França ou as potências nórdicas e de leste eram ainda figuras periféricas. Ao conquistar a hegemonia do Calcio a Juventus passou a olhar para o ceptro europeu como o passo lógico a seguir na sua afirmação desportiva. Mas o sonho ficou precisamente nisso mesmo, um sonho. Os turineses nunca conseguiram alcançar a final continental quanto mais levantar o troféu. Apesar de contarem com uma das melhores formações do continente viram-se sempre rodeados de circunstâncias adversas que durante quatro anos consecutivos os viram cair nas meias-finais do torneio. Sempre que parecia que a Juventus ia ter a sua hora de glória algo sucedia que atirava as aspirações turinesas borda fora.

Em 1932, depois de uma primeira participação truncada nos quartos-de-final pelo Sparta de Praga, a Juventus alcançou por primeira vez as meias-finais da Mitropa ao deixar atrás o super-favorito Ferencvaros. Na ronda prévia á final, contra os checos do Slavia de Praga, os italianos foram superados pelas circunstâncias. A primeira mão, disputada em Praga, saldou-se com uma goleada por 4-0 a favor dos locais num jogo onde a expulsão de Cesarini, uma invasão de campo que terminou com agressões a vários jogadores turineses e a temerosa prestação arbitral deixou o cenário quase impossível para a segunda mão, quatro dias depois, ainda que os dois golos de Cesarini e Orsi ao intervalo permitissem sonhar com a reviravolta. Uma pedra atirada desde o público contra a cabeça do mito checo, Frantisek Planicka, o guardião do Slavia, provocou a suspensão do jogo e levou a organização a tomar a dura medida de suspender ambas as equipas declarando como campeão o vencedor da outra meia-final, o Bologna, que assim se transformou no primeiro clube italiano vencedor do torneio.

A suspensão da Juventus foi equacionada para a seguinte edição mas o clube logrou persuadir a direcção da competição a permitir a sua participação – graças á influência da federação italiana – e uma vez mais os turineses chegaram ás meias-finais mas a sublime prestação de Mattias Sindelaar foi suficiente para carimbar a eliminação dos turineses, superados pelo génio austriaco em ambos os jogos contra o seu FK Austria. Em 1934 de novo um rival austriaco, agora o Admira Vienna, revelou-se demasiado forte para as aspirações turinesas num ano em que o Bologna voltou a vencer o torneio urgando ainda mais na ferida da Juventus e os seus fracassos continentais. A mítica geração teve ainda uma última oportunidade, em 1935, de levantar o troféu, mas depois de forçar um play-off contra o Sparta de Praga a equipa acabou derrotada por um claro 5-1 no jogo de desempate das meias-finais contra os futuros campeões. Foi a última oportunidade para uma geração mítica. O sonho de consagração europeu teria de esperar até á fatídica noite de Heysel Park para concretizar-se depois dos triunfos na Taça UEFA e das Taças em 1980 e 1984.

O nascimento da lenda da Vechia Signora

O fim da primeira idade de ouro da Juventus coincidiu com a saída do clube do treinador Carlo Carcano. O técnico não terminou a temporada de 1934-35, a do quinto título consecutivo, e pouco depois o seu projecto foi-se desmoronando. O despedimento de Carcano deveu-se pouco a motivos desportivos. Homossexual encoberto, Carcano foi acusado por vários dirigentes á época a elementos influentes do regime que pressionaram a Juventus a dispensar o técnico. Durante meses o presidente Agnelli lutou pelo treinador – a quem acusavam de manter relações com vários jogadores e outros dirigentes turineses – mas finalmente a exigência da federação, empurrada pela politica defendida por Mussolini provocou o despedimento do técnico que foi anunciada ao público como uma retirada de comum acordo para não levantar ainda mais polémica. A trágica morte de Edoardo Agnelli, meses depois num acidente de aviação, reforçou ainda mais o dramatismo da mudança de ciclo aliada igualmente à retirada progressiva de vários titulares indiscutíveis provocou o início do fim da equipa montada por Carcano. Até ao estalar da II Guerra Mundial o segundo lugar em 1938 foi o melhor resultado logrado depois de três anos passados fora do pódio. A ascensão do Torino – o clube mais popular na cidade – nos anos quarenta relegou a Juventus ainda mais para uma etapa sombria que se arrastou até meados dos anos cinquenta quando um novo investimento da família Agnelli – com o regresso á presidência do clube de um membro da família, Giovanni, o filho mais velho de Edoardo, em 1947 – e a chegada de vários internacionais sul-americanos, com Omar Sivori á cabeça, permitiram ao clube recuperar a sua hegemonia nacional. Os anos trinta no entanto não tinham sido esquecidos e foi nessa época que a expressão Vechia Signora – uma variação de uma terminologia associada ao papel dos empresários da família Agnelli na vida do clube, uma vez que os habitantes do sul tratavam os seus patrões do norte como “vechios signores” –  passou a ser utilizada sobretudo como respeito reverencial aos anos de glória do clube no léxico italiano. Isso sim, à medida que passavam os anos, os rivais da Juventus, que atribuiam muitos dos seus triunfos á influência do clube com o colectivo arbitral, acunhou o termo “Vechia Signora” associando a alcunha do clube às madames dos bordeis, apelidadas dessa forma um pouco por toda a península da bota, onde se suponha que o clube enviava os árbitros em troca de favores de forma pejorativa.

O certo é que os êxitos logrados nos anos trinta aliados à migração interna de vários habitantes das zonas pobres do sul para a rica Saboia e, principalmente, para as fábricas da FIAT, depois da II Guerra Mundial aumentou igualmente a popularidade do clube a nível nacional – muitos dos operários enviavam para casa, nas aldeias espalhadas pelo país, lembranças do clube juventino em forma de recortes de jornais, bandeiras, cachecois e camisolas – e durante os anos sessenta, apesar do apogeu dos rivais de Milão nos palcos europeus, a Juventus consagrou-se como o primeiro clube em apoiantes em toda a Itália, figura que permanece vigente até hoje quando a Vechia Signora vive uma nova idade de ouro.

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