Nas entranhas do Pacífico, onde o azul existe em mil tonalidades diferentes, a moral ocidental ainda não penetrou totalmente. Talvez por isso a fábula de Johnny Saelua nos parece a nós, desde a distância, muito mais relevante do que é no coração da Samoa. Aí, ele é um Fa’afafine mais. Para nós, Saelua é o primeiro futebolista transexual da história.

Desafiar convenções sociais

Johnny, homem ou mulher? Ambas ou nenhuma?

Na Samoa Americana, a resposta é fácil. Para o resto do mundo é uma realidade bastante mais complexa. Em 2011, Saelua tornou-se no primeiro futebolista transexual a disputar um encontro oficial da FIFA. O organismo que impediu a inclusão de mulheres em equipas masculinas, como queria o Atlético Celaya mexicano com a promissora Maribel Dominguez, ou o sempre polémico Perugia do presidente Luciano Gaucci, que sem dinheiro para jogadores de primeiro nível queria adquirir o passe de duas das melhores jogadores do planeta, não sabia o que fazer neste caso. Acabou por seguir o caminho mais elementar. Fechar os olhos e deixar seguir. Porque nem Blatter, o presidente que uma vez sugeriu que uns calções mais curtos seriam fundamentais para popularizar o futebol feminino, é capaz de dizer a que sexo pertence Saelua.

E assim, o/a futebolista, estreou-se com camisola da sua seleção, reconhecida internacionalmente como uma das piores do Mundo. Aliás, segundo a estatística, só a vizinha Tonga apresenta piores números que a Samoa Americana, país a quem o Tahiti aplicou a mais volumosa goleada da história das provas oficiais da FIFA. Uns meros 30-0.

O terceiro sexo abençoado

No entanto, no Pacifício, Saelua não é considerado como um caso anormal.

É um Fa’afafine, o chamado terceiro sexo. Na cultura polinésia, onde os códigos morais europeus ainda não estão totalmente assimilados, há uma tradição histórica de homens que se sentem mulheres. Nunca chegam, oficialmente, a mudar de sexo. A desconfiança com a ciência e a dificuldade em recorrer à medicina tradicional para realizar qualquer operação, limita as suas opções. Mas os Fa’afafine podem, durante o quotidiano, assumir sem problemas a sua identidade feminina. Muitos vestem-se, maquilham-se e vivem como se fossem mulheres. A maioria mantém relações com outros homens apesar de existiram alguns casos de Fa’afafine heterossexuais, cientificamente falando. Apesar de comum nas ilhas do Pacíficio, nunca um Fa’afafine tinha acedido ao mundo do desporto. Johnny Saelua tornou-se na excepção.

Se durante o dia ele encarna a sua identidade feminina a rigor, em campo é um jogador mais e poucos são capazes de distinguir qualquer diferença com os seus colegas de equipa. É um homem, fisicamente falando pelo menos, e no terreno de jogo comporta-se como tal. Por isso pode jogar pela sua seleção e a sua chegada provocou uma mudança inesperada na previsível série de derrotas a que os samoanos estão habituados. Em 2005, num jogo de qualificação (inevitavelmente perdido) para o Mundial da Alemanha, tornou-se num dos futebolistas mais jovens a disputar um encontro internacional com o seu país. Tinha 15 anos. Sete anos depois, quando o central decidiu regressar às escolhas da equipa técnica, Samoa começou a ganhar. Venceu o seu primeiro jogo oficial da história, contra Tonga, e empatou com as ilhas Cook, somando a primeira sequência de dois jogos consecutivos sem perder da sua história. Contra a vizinha Samoa perdeu apenas por 1-0, um resultado para celebrar tendo em conta as habituais goleadas em que acabavam regularmente os duelos entre vizinhos.

Aos 25 anos, Johnny Saelua é um caso de sucesso no futebol do Pacífico. Para os seus compatriotas, é o sinal de boa sorte que a seleção necessitava. Apesar de se ter retirado, temporalmente, para completar os seus estudos de formação de bailarina no Hawai, não fecha as portas a um regresso aos relvados para representar o seu país. Para o resto do mundo é um símbolo de que a inclusão no mundo do desporto das minorias sexuais é possível.

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