Há poucas figuras mais importantes na história do futebol. Mas também, mais relegadas para o baú do esquecimento. Jimmy Hogan é o pai do futebol moderno. Como treinador, ajudou a criar a escola de toque centro-europeia que se transformou na base táctica do futebol do pós-guerra. Como ideólogo travou uma larga luta durante toda a vida contra o futebol directo britânico. Desprezado no seu país, esquecido no continente, Hogan fascina qualquer um que conhece a sua verdadeira história.
O homem que tinha razão

O homem que tinha razão

Nas bancadas do estádio do Wembley, na inesquecível tarde de 25 de Novembro, os adeptosingleses assistiram, boquiabertos, ao fim de uma lenda. A sua. Do outro lado do campo, contra os homens de leão ao peito, uma equipa de magos destroçava a invencibilidade em solo britânico da seleção inglesa com um jogo de passe curto e rápido, de movimentações constantes a anos-luz do estilo de jogo habitual em terras inglesas. O resultado final, escandaloso para a época, foi o de menos. O verdadeiro choque para os que estiveram presentes foi a diferença abismal de jogo entre ambas as equipas, algo que a vitória por 7-1 dos húngaros, num jogo marcado para meses depois em Budapeste como desforra, deixou claro. Uma diferença que surpreendia a todos os espectadores nas bancadas de Wembley. Todos, salvo um. O homem responsável por esta pequena grande revolução.

Não era húngaro, nem austríaco  nem sequer escocês como muitos pensavam. Era tão inglês como os homens no terreno de jogo, também ele ex-jogador profissional. De ascendência irlandesa, era também persona non grata entre o establishment desportivo do país desde os anos 20. No final desse jogo histórico o selecionador húngaro respondeu às perguntas dos jornalistas ingleses sobre o estilo de jogo com uma frase que marcaria uma época “Jogamos como Jimmy Hogan nos ensinou. Ele ensinou-nos tudo o que sabemos de futebol. Quando a história do nosso futebol for escrita o nome dele terá de vir em letras de ouro”. Três décadas depois de ter sido corrido do jogo, acusado de revolucionário, James “Jimmy” Hogan podia sentir-se em paz consigo mesmo. Tinha tido razão todos estes anos.

O nómada do futebol de toque

Hogan é o pai do futebol moderno e disso há poucas dúvidas.

Ele é o homem que está por detrás, como ideólogo  das grandes equipas que marcaram um ponto final com o futebol directo do 2-3-5 que prevaleceu até aos anos 30 um pouco por todo o Mundo. A partir dos seus ensinamentos, homens como Hugo Meisl, Vittorio Pozzo e Gustav Sebes moldaram as seleções que iriam dominar o futebol europeu durante mais de duas décadas. Dele saíram as palavras que embriagaram os técnicos e futebolistas sul-americanos, permitindo-os afastar-se da ideia rígida de futebol imposta inicialmente pelos professores ingleses e que levariam, anos depois, à concepção de inovações como o 4-2-4, 4-3-3 e finalmente o 4-4-2. Durante a década de 60 poucos no mundo conheciam a sua figura e no entanto menos ainda jogavam algo diferente do que tinha idealizado. Ron Atkinson e Tommy Docherty, seus jogadores na sua última etapa como treinador e futuros técnicos de prestigio, confessaram que mesmo então Hogan parecia um treinador demasiado avançado para a sua era.

O seu papel como ideólogo do futebol atual entra em conflito com o seu próprio sucesso como treinador. Hogan não é um dos maiores técnicos da história, como foram alguns dos seus discípulos directos, mas sim um homem que abriu as portas para algo diferente. Como profeta da escola escocesa, Hogan tornou-se, de forma indirecta, pai da escola centro-europeia que por sua vez levou a sua filosofia da Argentina e Brasil até à Catalunha e Amesterdão, as cidades que melhor souberam explorar o seu ideário de toque rápido e movimentações constantes no terreno de jogo, a escola holandesa de Michels, Cruyff, Rijkaard e Guardiola.

Hogan foi também um nómada do futebol.

Nasceu em Inglaterra, de origem irlandesa, e na primeira década do século XX confirmou-se como um dos mais promissores jogadores do futebol inglês. Ao mesmo tempo, a sua relação com vários colegas de equipa escoceses, levou-o a querer saber mais sobre o futebol de toque que se desenvolvia do outro lado da fronteira. Aí começou a sua aprendizagem táctica e a apreensão com a forma como o jogo se começava a desenvolver em Inglaterra. Os treinadores colocavam enfoque no treino apenas na parte física, deixando a bola para uma sessão à semana, no dia antes do jogo. Hogan era radicalmente contra esta abordagem que, dizia, se reflectia evidentemente na forma de jogar dos ingleses.

Para ele a bola tinha de ser uma constante do treino, estar em perpétuo movimento entre os jogadores, para que o contacto diário permita uma maior facilidade de controlo, passe e domínio no dia do jogo. Antes dos 30 anos, desiludido com o futebol praticado em Inglaterra, atravessou o mar do Norte e começou a carreira como treinador na Holanda. Aí tornou-se no primeiro treinador a explicar táctica aos seus jogadores, através de vários diagramas onde analisava a movimentação da bola e da equipa, afastando-se cada vez mais do 2-3-5 que tanto privilegiava o futebol directo no seu país.

O nascimento da escola centro-europeia

Depois da experiência holandesa, Hogan conheceu um homem que mudaria para sempre a sua vida: Hugo Meisl.

O austríaco  amante do futebol escocês, encontrou em Hogan um mentor e amigo. Levou-o da Holanda para a Áustria e para o comando da seleção nacional e aí o inglês apaixonou-se pela cultura das casas de café, pelo debate constante de táctica e pela paixão pelo toque curto. No entanto, a sua mudança para a Áustria forçou-o igualmente a uma detenção durante a I Guerra Mundial, ao ser um cidadão inglês num país inimigo. Durante os anos da guerra, Hogan foi recrutado pelo MTK Budapeste, numa Hungria ainda parte do império Habsburg, e levou os seus ensinamentos ao futuro país independente, tendo treinado um jovem Sebes, o homem que mais tarde o deixaria tão orgulhoso. No final da guerra, Hogan voltou a Inglaterra decidido a implementar a sua filosofia no jogo britânico. Mas foi recebido com desdém, desprezo e até como um traidor. As palavras feriram-no e voltou para o continente, trabalhando com equipas suíças  alemãs e austríacas durante os anos 20. Ainda hoje é considerado o pai do futebol de ambos os países. Em 1936 foi o homem encarregue de liderar a seleção olimpica austriaca nos Jogos de Berlim, levando-os à final, perante os olhos furiosos dos dirigentes nazis, incomodados pelo sucesso da pequena Áustria treinada por um inglês enquanto a sua seleção era eliminada no primeiro jogo pela modesta Noruega.

Consciente de que outra guerra era inevitável, Hogan abandonou definitivamente o futebol continental em 1938 tornando-se primeiro técnico do Aston Villa – levando-os da segunda à primeira divisão – e mais tarde do Celtic, já no pós-guerra. A sua carreira de treinador tinha chegado ao fim, mas a sua obra apenas começara.

O mentor dos revolucionários

Meisl, com os seus ensinamentos, tinha sido o homem por detrás do fenómeno austríaco dos anos 30 conhecido por Wunderteam, apenas derrotado pela Itália de Vittorio Pozzo, outro dos técnicos que estudara detalhadamente o trabalho de Hogan. Nos anos 50, o seu antigo jogador, Sebes, chegou a Londres e confirmou tudo aquilo que tinha defendido durante largas décadas. A partir dessa tarde o futebol seria um desporto diferente e Jimmy Hogan, o seu verdadeiro pai espiritual, tornou-se um vulto esquecido.

A imprensa inglesa chamou-o de traidor e apagou-o dos livros de história. A imprensa continental, sempre nacionalista, preferiu exaltar o trabalho dos seus próprios cidadãos – Meisl, Sebes, Herberger, Pozzo, Michels – esquecendo-se que todos eles, de forma directa ou não, vinham da mesma escola, do mesmo lugar. As palavras de Hogan penetraram muito para além dos seus jogadores, do seu tempo. Tornaram-se matéria indivisível da própria evolução do beautiful game até aos dias de hoje.

3.684 / Por
  • tuse

    I love Jimmy Hagan!