Jean Pierre Adams, o internacional francês em coma há 35 anos

Foi um dos primeiros grandes referentes negros da selecção francesa durante a década de setenta e um dos jogadores mais admirados do país. Um dia entrou no hospital para uma operação e nunca mais acordou. Vive em estado comatoso há 35 anos, a mais dolorosa e dramática história pessoal do futebol francês.

A primeira estrela da África negra francesa

Há varias semanas que o joelho de Adams lhe estava a dar problemas. Outra vez. Com 34 anos, o antigo defesa internacional gaulês sabia que as lesões provocadas pela sua carreira tinham deixado um importante preço mas se queria seguir no mundo do futebol tinha de voltar, uma vez mais, à mesa de operações. No dia 17 de Março de 1982, a poucos meses do final da temporada e do Mundial de Espanha, deu alta no Hospital Edouard Herriot de Lyon para submeter o corpo a essa operação. Foi sedado pela manhã com anestesia e os familiares que o acompanhavam esperavam poder visitá-lo ao final da tarde uma vez desperto. Mas isso nunca sucedeu. Jean Pierre Adams recebeu a anestesia e durante a cirurgia entrou em coma. Um longo e eterno sono do qual não voltou a despertar. A sua carreira não acabou naquela tarde de Março. Também a sua vida ficou presa por um fino fio que se mantém vivo, mais de três décadas e meia depois, de um modo quase inexplicável.

Adams nascera em 1948 em Dakar, a capital do Senegal, então ainda parte do império francófono africano e recebeu uma estrita educação católica num dos colégios locais habituais para algumas das famílias locais com um estatuto social elevado. Quando cumpriu 15 anos foi enviado a França para prosseguir os estudos, no sul de Paris, no colégio Saint-Louis. Único jovem negro dentro de uma elite de classe média suburbana branca, Adams não só se distinguiu pelo seu papel de aluno exemplar mas, também, pelas suas enormes aptidões atléticas que rapidamente o converteram numa celebridade local. Atletismo, boxe, ginástica, tudo parecia dar-se-lhe especialmente bem. Mas era o futebol, essa paixão que trazia dos jogos de ruas de areia e pó de Dakar, que lhe parecia captar mais a atenção e uma vez em Paris, começou a fazer do seu talento natural uma vocação de futuro.

Bebendo o novo espírito rebelde dos anos sessenta, em 1964, com 16 anos recém-cumpridos, decidiu abandonar os estudos para prosseguir, de forma mais séria uma carreira como jogador ao mesmo tempo que começava a trabalhar numa fábrica nos subúrbios parisienses. Uma grave lesão no joelho e um acidente de automóvel que quase lhe custou a vida e que, efectivamente, provocou a morte do seu melhor amigo, pareciam o prelúdio de uma carreira curta e pouco aventurosa mas sem ligar a presságios negros, Jean Pierre Adams seguiu o seu caminho e depois de cumprir o serviço militar, assinou pelo Nimes o seu primeiro contrato profissional. Tinha passado três anos como a máxima estrela nacional dos campeonatos amadores gauleses – um percurso que duas décadas depois seria imitado por Lilian Thuram – e agora tinha chegado a altura de exibir-se entre a elite francesa. Adams tinha 22 anos e os dez seguintes iriam consagrá-lo como uma das figuras mais marcantes do futebol francês da época.

De Nice a Paris, a saga de uma “Garde Noir”

Na época de 1970/71 a sua vida começou a mudar definitivamente. Recém-casado com Bernardette Adams, uma jovem de boas famílias francesa, prototipo estético bardotiano – no que foi um dos primeiros casais mistos do desporto francês – e transformado pelo Nimes de um possante avançado centro a um central autoritário, Adams conheceu a Kader Firoud, um dos treinadores mais influentes da sua geração, recordista, apenas atrás de Guy Roux, de jogos disputados na Ligue 1 e que tinha acabado de ser coroado melhor treinador do ano pela imprensa francesa. Firoud, como Roux mais tarde e Batteaux antes dele, tinha-se especializado em trabalhar jovens promessas e elevá-las à elite e foi precisamente isso que fez com a sua nova pérola africana.

A equipa acabou, pela primeira vez na sua história, num lugar de qualificação europeia e apesar de terem sido eliminados na primeira ronda da Taça UEFA ,no ano seguinte, contra o Vitória de Setúbal, o golo de Adams manteve a eliminatória disputada até ao fim e reforçou o seu estatuto de celebridade dentro da emergente comunidade negra francesa que começava a procurar os seus próprios ídolos dentro do desporto de elite, até então exclusivamente branco. Nesse ano o Nimes voltou a superar todas as expectativas e manteve uma luta intensa até às últimas jornadas com o Olympique de Marseille pelo título de campeão nacional, acabando frustrantemente por ter de se contentar com o segundo lugar. Inevitavelmente chegou a chamada aos Les Bleus – uma estreia na Minicopa, disputada no Brasil – e apesar do Nimes ter perdido peso na tabela classificativa na sua terceira temporada, acabando o ano no sétimo posto, Adams já tinha estatuto suficiente para dar o salto a outro clube, assinando então pelo Nice, uma das potencias dos anos cinquenta e sessenta.

Depois de eliminar o Barcelona e cair frente ao Colónia na sua primeira experiência europeia com o clube da Cote D´Azur, Adams ajudou a equipa a trepar até ao quinto posto, para na temporada seguinte acabar em segundo lugar atrás do todo poderoso Saint-Etienne. Adams era, já então, considerado o melhor futebolista nacional na sua posição e o seu êxito começou a abrir portas para outros jogadores de origem africana nos clubes de elite – sobretudo da África subsariana como foram mais tarde Desailly ou Vieira – muito particularmente o que viria a converter-se no seu parceiro e amigo na linha defensiva da selecção, Marius Tresor, com quem formaria durante vários anos a célebre La Garde Noir na equipa nacional gaulesa. Tresór, três anos mais novo e natural de Guadalupe, tinha-se afirmado no Marseille em 1972 depois de que o clube procurasse replicar o modelo de Adams com o Nimes e que se converteu numa das lendas do clube nos anos seguintes.

A parceria entre Tresor e Adams prosseguiu na selecção gaulesa mas cada vez mais a conta-gotas à medida que os recorrentes problemas no joelho de Jean Pierre iam reduzindo a sua chamada à selecção nacional. O seu impacto, no entanto, permanecia vigente e o Paris Saint-Germain, fundado anos antes e determinado a pagar o que fosse necessário para converter-se num clube de elite, decidiu apostar forte no central para liderar a sua linha defensiva e em 1977 Adams troca o Mediterrâneo por um regresso a Paris e inicia um ciclo de três anos com o clube parisiense repleto de decepções uma vez que, apesar do dinheiro gasto, o clube não parecia ser capaz de encontrar a fórmula certa para competir na elite, não passando de metade da tabela.

O final dramático de um pioneiro esquecido

Em 1980, já com 32 anos, Adams acaba contrato com o clube e assina pelo Mulhouse, onde decide finalmente trocar as chuteiras por um futuro como treinador principal, iniciando um período de formação que o leva a Chalon, primeiro, e depois a Dijon. Aí, ao terceiro dia do curso de formação, ao realizar um exercicio prático, começou a sentir fortes dores no joelho e foi imediatamente realizar testes ao Hospital de Lyon mais próximo onde se lhe diagnosticou uma lesão no tendão de Aquiles que tinha de ser corregido mediante cirurgia. Sabendo que tinha de adiar o curso de formação para a seguinte sequência, Adams decidiu aproveitar o tempo e submeter-se o antes possível à cirurgia. Dias depois estava na mesa de operações quando a vida decidiu virar-lhe as costas. Um erro grosseiro do anestesista provocou-lhe uma paragem bronco-respiratória durante a cirurgia que o levou ao estado de coma.

O anestesista, por falta de plantel, estava a aplicar a anestesia pre-operatória a oito pacientes ao mesmo tempo e confundiu as doses e quando se iniciou o protocolo da cirurgia, o médico estagiário assistente, não verificou bem a sua condição, dando inicio ao procedimento sem todas as garantias de segurança.Desde então, há trinta e cinco anos, a sua condição manteve-se inalterado. O anestesista e o médico que coordenaram a cirurgia foram multados, três anos depois, mas mais nenhuma acção foi tomada. Desde 1988, quando o hospital em Chalon onde foi ingressado declarou o seu caso como o perdido, Adams vive em casa em estado comatoso sem assistência médica oficial. A família recebeu apoio dos seus anteriores clubes e da federação gaulesa, bem como de alguns antigos colegas como Tresór, que lhe permite mantê-lo vivo. Mas o tempo para Adams parou naquele dia de Março. E nada poderá voltar a ser como antes mesmo que desperte algum dia do sono eterno onde deambula há mais de três décadas.

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