O futebol caribenho sempre foi o parente pobre do continente americano. Na história dos Mundiais apenas em três ocasiões – depois da II Guerra Mundial – seleções das ilhas participaram na competição. Mas nenhuma dessas presenças foi tão inesperada e surpreendente como a dos “Reggae Boyz” jamaicanos.

Um outsider na América Central

O futebol na Jamaica de meados dos anos noventa não estava financiado pelo estado de forma evidente como o do Haiti aquando da sua qualificação, em 1974, para o Mundial da Alemanha nem tinha o peso político regional que os seus vizinhos de Trinidad e Tobago, liderados pelo homem mais corrupto do esquema piramidal da FIFA, o inefável Jack Warner. Sem essa influencia política ou de recursos estatais ao seu dispor, aos jamaicanos o êxito num campo de futebol parecia uma utopia. Poucos imaginavam ser possível, algum dia, ver os seus jogadores – nenhum dos quais estrelas internacionais nem figuras de primeira ordem no futebol europeu – no maior palco internacional do planeta futebol. A Jamaica do Reggae, do turismo caribenho e das drogas ligeiras estava bem identificado no mapa. A Jamaica do futebol era um enigma.

A hegemonia asfixiante do México e, mais tarde, dos Estados Unidos, parecia retirar qualquer possibilidade a outros países da confederação centro-americana de sonhar com algo grande. Sempre que alguma vaga se abria em disputa, havia ainda uma segunda divisão continental, liderada pelos países a meio caminho entre o México e o cono sul, que ultrapassar como demonstraram as qualificações de El Salvador, Honduras ou Costa Rica para varias edições.

As Caraíbas eram um enigma. O apuramento do Haiti deveu-se, sobretudo, à ausência de uma potencia continental vigente numa década onde o futebol mexicano e norte-americano estava em interrogação. Anos depois a ascensão da Trinidad e Tobago foi resultado, sobretudo, de um apuramento repleto de polemica. Já a história dos “Reggae Boyz” evoca apenas a magia e ilusão que o desporto rei ainda é capaz de despertar no mais improvável dos cenários.

A revolução do futebol jamaicano

Para colocar em perspectiva o êxito dos jamaicanos convém recordar que só em cinco ocasiões, até 1996, o país completou a fase de qualificação para um Mundial, uma aventura que começou em 1966. Todas as tentativas resultaram num sonoro fracasso. Parecia que o futebol – que na Jamaica é um desporto que move paixões como nenhum outro, uma bandeira que o próprio Bob Marley levantou sempre que lhe foi possível – estava condenado ao esquecimento. O fracasso da campanha para o torneio de 1994, no vizinho gigante norte-americano, levou a federação a repensar o modelo. Algo, evidentemente, falhava. A nomeação de Horace Burrell como presidente da federação despoletou rápidas mudanças que permitiram ao futebol jamaicano entrar na modernidade.
Burrel entendeu que os recursos disponíveis eram insuficientes.

Por um lado recrutou, pela primeira vez, um selecionador estrangeiro com uma abordagem definitivamente profissional. O eleito foi o brasileiro René Simões. Para melhorar o leque de opções disponíveis, a federação decidiu quebrar outro tabu. Até então representavam a seleção apenas jogadores autóctones mas Burrel sabia que havia uma imensa comunidade de jamaicanos emigrados em Inglaterra que podiam trazer experiência e conhecimento a uma seleção com uma mentalidade excessivamente amadora. A maioria desses jogadores atuavam na Premier League e no Championship – com um nível de exigência muito superior ao que os habituais internacionais estavam acostumadas – e tinham sido esquecidos propositadamente em anos anteriores.

Muitos eram, inclusive, emigrantes de segunda geração que nem sequer conheciam a ilha. Burrel e Simões convenceram muitos desses jogadores que a seleção inglesa lhes estava vedada mas que na equipa jamaicana seriam peças fundamentais. Alguns disseram que não estavam interessados mas a imensa maioria mostrou-se receptiva e da noite para o dia o core da seleção mudou enormemente. Nenhuma dessas “aquisições” foi tão determinante como Deon Burton, um dos mais prolíferos avançados da Premier League. Os seus golos revelaram-se tão determinantes como o glamour da sua incorporação a uma equipa que vestia da mesma forma que jogava, com uma exuberante alegria contagiada pelo espírito positivo do seu selecionador brasileiro. Burton não estava só. Durante a fase de qualificação foram-se incorporando vários jogadores da Premier, futebolistas do Chelsea (Sinclair), Derby (Powell), Portsmouth (Hall, Simpson) e Wimbledon (Earle e Gayle), um plus de qualidade inesperado e determinante. O que não impediu, igualmente, de gerar desconfiança e um sentimento de traição nos jogadores locais – a maioria dos quais que tinha disputado as fases iniciais de qualificação – criando dois contingentes claramente separados nos estágios da equipa.
Para sustentar essa política de internacionalização – tanto no staff técnico como no plantel – Burrell transformou a gestão financeira da federação e atraiu vários patrocinadores com base na popularidade cultural que a Jamaica despertava entre marcas desportivas e multinacionais que disponibilizaram os fundos necessários para dar um passo em frente. Em poucos meses a seleção saltou setenta posições no ranking FIFA – uma das maiores metamorfoses da história – e foi acumulando triunfos nas rondas preliminares da qualificação para o França 98. Ainda assim, para muitos, era insuficiente. França parecia um porto demasiado distante para esta expedição. Não foi.

Rumo ao França 98

Os jamaicanos disputaram vinte jogos em total. Eliminaram primeiro o Suriname e as Bahamas – rivais acessíveis – para juntar-se ao México, Saint Vicent e Honduras no primeiro grupo de apuramento. Todos esperavam que os insulares não passassem do terceiro lugar mas acabaram por ganhar o grupo, superando o próprio México, para qualificarem-se as duas nações para o Hexágono final. Três países seguiam em frente. Mexicanos e norte-americanos ainda eram os favoritos mas as rondas anteriores tinham alertado os rivais para o potencial da Jamaica. A pesar das derrotas com a Costa Rica e os 6-0 sufridos no Azteca – uma desforra mexicana – os jamaicanos não tiveram problemas em selar a sua qualificação, terminando com um empate a zero com os mexicanos na última jornada, em Kingston. A ilha estava em festa, a Jamaica ia ao seu primeiro Mundial.

A sua presença foi mais do que honrosa ao contrario do que a maioria podia antecipar.
Os caribenhos estrearam-se em Lens contra outra seleção que participava pela primeira vez no Mundial mas cujas ambições eram claramente diferente. Os croatas venceram por 3-1 num duelo onde foram claramente superiores. Só a França de Zidane seria capaz de bater os homens dos Balcãs em todo o torneio. A passe de Gardner, Earle anotou de cabeça o primeiro golo da Jamaica nos Mundiais – o empate, antes do intervalo – deixando boas sensações que a derrota inevitável contra uma brilhante Argentina não tapou por completo. Os sul-americanos foram superiores em todos os sentidos – venceram por 5-0 – mas ninguém esperava o contrario, especialmente depois de jogarem contra dez todo o segundo tempo. Até então o resultado tinha-se mantido num aceitável 1-0.

O grande duelo para os jamaicanos chegaria apenas e só na última jornada. Já eliminados – como o seu rival, outra seleção a querer mostrar serviço – os caribenhos tinham uma oportunidade histórica não só de vencer pela primeira vez um jogo num Campeonato do Mundo como terminar a fase de grupos num mais do que honroso terceiro lugar. O esquema táctico de Simões revelou-se decisivo para anular a criatividade ofensiva do Japão. Os golos de Whitmore foram determinantes. O avançado marcou em duas ocasiões, anulando o tento nipónico e selando assim um momento histórico. A emergente potencia asiática, organizadora do seguinte torneio, não tinha sido capaz de bater os “Reggae Boyz”.

O ocaso das Caraíbas

O regresso da seleção a casa foi digna de vencedores. A participação tinham superado as expectativas e o bom trabalho da federação tinha dado frutos. Mas também acabou por ser um peso difícil de superar. Todos os sucessores de Simões tiveram de viver com renovadas expectativas de êxito ao mesmo tempo que o investimento inicial reduzia-se e muitos dos internacionais com experiência da Premier se retiravam da vida profissional sem que houvesse ninguém disposto a tomar o seu lugar.

Na fase de apuramento para o seguinte Mundial, em 2002, os jamaicanos foram decepcionantes e em 2006 foi outra ilha vizinha, graças a uma política muito similar à adotada pelos jamaicanos e sustentada pela omnipresente figura de Jack Warner, quem garantiu o apuramento. O sonho da Jamaica em voltar a um Mundial parece hoje tão distante como era em 1994, um paradoxo que reforça ainda mais a condição de lenda da mágica geração dourada dos filhos do reggae.

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