Poucos associam o futebol brasileiro aos guarda-redes. É um fenómeno comum na América do Sul, um continente habituado a consagrar médios talentosos e avançados letais. Mas há oitenta anos, o Brasil produziu um dos primeiros grandes números 1 da história do futebol.

O primeiro “Loco” sul-americano

“O Garrincha das Balizas”. Foi a única forma que a revista brasileira Placar encontrou, nos anos sessenta, para ilustrar a carreira de um guarda-redes que marcou uma geração do futebol sul-americano. Protagonista absoluto nos mais distintos cenários, Jaguaré foi algo mais que um simples número 1. Dentro de si tinha a alma do “malandro” brasileiro. Marcava golos de grande penalidade e de livres directos, antecipando em décadas fenómenos de popularidade como Chilavert ou Rogério Ceni. Gostava de defender da forma mais acrobática possível. Esteve perto de ser vendido pelo Olympique Marseille – onde viveu os seus melhores anos – depois de defender uma bola com um pontapé acrobático. Sessenta anos do golpe de escorpião de Higuita. Era um guarda-redes que desafiava o convencionalismo. Mas era eficaz. Os seus números não mentem. Manteve a sua baliza inviolável mais vezes do que qualquer outro guardião durante os anos que esteve em França.

Numa dessas temporadas a sua prestação foi chave para decidir o título. O clube da Cote-d´Azur acabou igualado com o Sochaux em pontos no fim da época. Os homens de Marselha foram campeões por melhor diferença de golos. Tinham menos marcados mas também tinham muito menos sofridos. Jaguaré tinha-se encarregue disso. Foi o seu primeiro título em terras gaulesas. Com o conjunto da cidade mediterrânica venceu ainda uma Coupe de France. Antes tinha ganho um Campeonato de Lisboa pelo Sporting, vários titulos no Brasil com o Vasco da Gama e Corinthians. Sobretudo, Jaguaré ganhou o direito a ser considerado o primeiro de muitos. O homem que definiu um padrão que a história se limitaria a confirmar.

As “molecagens” de Jaguaré

Nascido no Rio de Janeiro, numa família humilde, o destino de Jaguaré estava no futebol ainda que não o soubesse à partida. Durante os primeiros anos da sua vida passou fome, dedicou-se a jogar pelas apertadas ruas das favelas cariocas com os seus vizinhos e acabou a trabalhar cedo nas docas do porto da cidade como estivador. Com vinte anos um olheiro do Vasco da Gama viu-o a jogar no porto, no período de descanso. Abordou-o com um convite tentador. Foi o inicio de uma lenda. Mulato, encontrou no primeiro clube a desafiar a cultura de racismo e segregação do futebol brasileiro o lar ideal. Era analfabeto e nem sabia como assinar o seu primeiro contrato com o clube. Mas isso não o impedia de brilhar quando se colocava debaixo dos postes. Depois de algumas semanas de treino, roubou a titularidade e nunca mais a largou.

Habituado a trabalhar com as mãos no porto, aguentava bem os disparos violentos de longe. Era rápido, tinha uma impulsão tremenda e um sentido de posicionamento impar. Mas, mais do que isso, era um guarda-redes com alma de avançado. Sempre que podia saía a jogar com o esférico, fintava os rivais, aparecia no meio-campo contrário deixando a sua baliza vazia e pedia sempre para marcar os lances de bola parada. Raramente falhava quando tinha uma oportunidade. E sobretudo, encarava o jogo como uma diversão. Gostava de provocar os rivais e de irritar os colegas com as suas temeridades. Sempre que podia defendia a bola só com uma mão para dar a sensação de facilidade. Antes dos penalties (defende-los era uma especialidade da casa) cuspia na bola para provocar o marcador e quando parava a bola, girava-a sobre um dedo antes de a colocar em jogo.

As “molecagens” de Jaguaré passaram a ser parte do vocabulário futebolistico do Brasil. A sua fama chegou ao outro lado do Atlântico. O Vasco foi convidado a uma digressão entre Portugal e Espanha. Em oito jogos, venceram seis. Nenhum jogador deixou os europeus tão impressionados como Jaguaré. Quando a equipa voltou para o Brasil ele não estava a bordo. Tinha assinado um contrato com o Barcelona. A sua aventura europeia começava.

De Leão ao peito a caminho de Marselha

Na Cidade Condal o seu carácter provocador foi mal recebido. Os adeptos blaugrana estavam habituados ao estilo senhorial de Ricardo Zamora. Em comparação, o brasileiro era mais parecido a um protagonista circense. Rapidamente ficou claro que Jaguaré duraria pouco tempo no clube. Voltou ao Brasil mas não voltou só. Consigo levava luvas. Foi o primeiro guarda-redes sul-americano a utilizar luvas para defender. Era um velho hábito de Zamora (que lhe causou alguns desgostos) que os técnicos do clube tinham inculcado a Jaguaré.

Consciente de que seria mais uma preciosa adição ao seu portefólio provocador, o guarda-redes levou vários pares consigo e fez furor no seu regresso ao Vasco. Mas a sua segunda etapa no Brasil foi encurtada com o seu desejo de voltar ao futebol europeu onde se ganhava muito mais dinheiro. Teve a promessa de assinar por um clube italiano num negócio intermediado por um antigo internacional canarinho que trabalhava como um dos primeiros agentes no futebol brasileiro. A invasão da Etiopia deixou-o apreensivo e quando chegou a Lisboa, decidiu montar a sua tenda na capital portuguesa.

Assinou pelo Sporting de Portugal e com os Leões venceu o Campeonato de Lisboa de 1936. Foram apenas sete jogos. Mas foram suficientes para deixar marca. As suas luvas eram hipnóticas, o seu estilo, apaixonante. A sua estância em Lisboa era apenas um ponto de passagem enquanto o seu agente encontrava um clube. Esse novo destino acabou por ser o Marselha. Quando percebeu que os dirigentes do Sporting estavam mais interessados em deixar a titularidade ao jovem Azevedo – que se tornaria numa das lendas das balizas lusas – o brasileiro bateu com a porta e fez as malas. Na cidade francesa, tornou-se rapidamente uma estrela. Encaixou bem com o carácter artístico da cidade e com o espírito dos adeptos. Foi titular absoluto durante três temporadas. Só o início da II Guerra Mundial o impediu de aumentar a sua lenda. Quando o paraguaio Chilavert chegou ao Strasbourg, em 2000, a imprensa gaulesa dedicou-se a relembrar as gestas icónicas de “Le Jaguar”.

O trágico final do pioneiro das luvas

Antes do seu regresso ao Brasil fez uma segunda escala em Portugal, onde jogou brevemente com o Académico do Porto e no Leça, clube que ajudou a subir à Iº Divisão pela primeira vez na sua história. No Rio de Janeiro, já com 38 anos, é recebido com indiferença. A sua época de glória tinha chegado ao fim. Entregue ao alcoolismo, Jaguaré de Vasconcelos deambulou entre o Rio e São Paulo à procura de uma última oportunidade no futebol brasileiro. Em seu lugar, encontrou a morte.

A 27 de Agosto de 1946, numa discussão acesa à porta de um bar, envolveu-se numa luta com três polícias. Um deles aplicou-lhe um golpe que se revelaria fatal. Inconsciente, foi levado até ao calabouço. Quando o acordaram pela manhã, estava morto. Na cidade ninguém conhecia o antigo internacional brasileiro. Sem documentos, sem dinheiro, foi enterrado numa campa comum. Sem as luvas que o tinham feito célebre. Só dois dias depois alguém fez correr a voz de que o defunto era na realidade um mito do futebol brasileiro. Foi o final dramático para o homem que estabeleceu o padrão da escola de guarda-redes “locos” que o futebol sul-americano perpetuaria nas décadas seguintes. Todos conquistaram o coração dos adeptos com a sua excentricidade. Nenhum deles foi tão longe tantas vezes como o homem que foi talvez o primeiro guarda-redes mítico do continente americano.

1.842 / Por
  • Nuno Caetano

    Miguel,

    Parabéns pelo bom artigo sobre uma das figuras mais injustiçadas da História do Futebol (e, já agora, pelo site).

    Pouco de relevante ficou por dizer. Talvez apenas que terá participado na 1.ª Edição do Campeonato Nacional de Futebol da 1.ª Divisão, ao serviço do Académico do Porto, porque, segundo se diz, achou que o vencimento oferecido pelo FC Porto era muito baixo e que acabou por sair de Portugal com medo que a Segunda Guerra se alastrasse ao nosso país, nessa altura refúgio de muitos (e bons) jogadores como Krodnja, Petrak, Scopelli, Óscar Tarrio, Francisco Tellechea e de um grande mistério que dá pelo nome de Bela Andrasik…

    O “dengoso” Jaguaré foi um pioneiro por muito poucos (re)conhecido e teve, de facto, um imerecido e triste fim, como se de um indigente se tratasse…

    • Miguel Lourenço Pereira

      Nuno,

      Obrigado pelo comentário.
      É verdade, teve essa curta passagem pelo Académico e voltou ao Brasil por medo da Guerra precisamente quando grandes nomes faziam a viagem inversa.

      Um grande abraço