Nas entranhas do fenómeno Ultra italiano existem vários grupos temidos e temíveis. Mas nenhum deles está à altura da herança deixada pelos Irriducibili. Os mais fanáticos seguidores da Lazio criaram um conceito de claque que ganhou adeptos em todo o mundo e hoje são uma referência incontornável do fenómeno ultra.

Os legionários celestes

Seguir um jogo da SS Lazio ao lado dos membros da Irriducibili, é uma experiência tão apaixonante como o próprio jogo que se desenrola no tapete esverdeado. Ao lado, não entre eles. Para isso é preciso ser-se parte da família. De uma família que escolhe muito bem os seus elementos. Um circulo fechado recheado de códigos éticos que subsistem nas bancadas do futebol italiano ao mesmo tempo que vão desaparecendo de outros lugares. Violentos, fanáticos, imaginativos, fascistas, polémicos, criativos, solidários. Qualquer um destes epitetos lhes fica bem. Quase tão bem como as águias que exibem com a autoridade de um legionário romano com vontade de conquistar o Mundo.

A Irriducibili é mais do que uma claque de futebol, mais do que o símbolo omnipresente das organizações de adeptos nas veias do Calcio. É uma forma de encarar o futebol como um campo de batalha ideológica. Um campo onde o amor ao clube não advém apenas pela paixão pelo futebol. Um amor que deriva de um pensamento político, social, de uma forma de entender a vida, dentro e fora do estádio, que durante noventa minutos mergulha num festival de cores, cânticos, coreografias e tochas  Um fenómeno que ajuda a entender aqueles que defendem que o futebol não é mais que o substituto oficial da guerra nos países civilizados. Não é difícil imaginar os imponentes membros da Irriducibili como os membros da primeira linha de uma legião do Império Romano na sua marcha pela Europa. Desde a curva Norte do Olimpico da Cidade Eterna, eles travam a sua própria batalha sem fim.

O fenómeno Ultra

O fenómeno ultra italiano começou a desenhar-se nos primórdios da década de setenta.

Apesar da primeira claque organizada ter nascido na Jugoslávia, nos anos 60 começaram a aparecer os primeiros grupos organizados de hooligans ingleses. A sua principal preocupação pareceu sempre ser o confronto com outros grupos fora dos estádios do que propriamente o apoio entusiástico nas bancadas. Em Itália a situação inverteu-se. As organizações nasceram para defender as cores dos clubes mas com o tempo tornaram-se no braço armado de instituições políticas, de homens de negócios influentes até ganhar galões de modernas guardas pretorianas, capaz de criar e desfazer reinados com uma simples demonstração de poder.

Em Milão, La Fossa di Leoni, foi o primeiro grupo reconhecidamente ultra a ocupar o seu lugar numa das curvas do San Siro. Era a claque de apoio do AC Milan, a resposta dos rossonero ao Club Inter, uma instituição organizada de adeptos criada pelo seu rival, a pedido de Helenio Herrera. Uma criação fictícia  do clube, ao que os adeptos do Milan responderam com um projeto que saía da própria vontade dos adeptos de apoiar a sua equipa contra tudo e contra todos. Quatro anos depois, em 1971, nasceu o primeiro movimento similar em Roma, de apoio à AS Lazio: os Comandos Monteverde.

Já nos anos trinta os adeptos da Lazio, de reconhecida militância de extrema-direita, tinham sido pioneiros em criar coreografias de apoio à sua equipa nos derbys locais, avidamente seguidos desde as bancadas por Benedito Mussolini. Com os Comandos, esse apoio tornou-se regular e para muitos foi uma das bases do sucesso desportivo da mais brilhante geração laziale do pós-guerra, a que liderada por Chinagli e Meroni conquistou o scudetto em 1976. Banido das provas europeias – precisamente pelo comportamento violento dos Comandos – o Lazio não conseguiu revalidar o título e poucos anos depois o clube mergulhava numa grave crise institucional que os acabaria por levar à Serie B. Nesse momento de asfixia económica e desprestigio desportiva, surgiu na curva norte um novo movimento de adeptos determinados a liderar uma nova era de glória para o clube: os Irriducibili.

A ascensão dos Irriducibili

A claque mais temida da Europa nasceu no Verão de 1987.

Muitos eram membros de pequenos grupos organizados, descontentes com o rumo que as principais claques do clube tinham tomado. Sob a liderança de António Grinta, o grupo tornou-se no exemplo perfeito da evolução do fenómeno ultra. Fizeram-se anunciar com um cartaz de mais de dez metros de comprimento e em pouco mais de dois anos, tomaram controlo da curva, relegando os Eagle Supporters – sucessores dos Comandos – para um pequeno segundo plano.

As suas coreografias imaginativas, desafiantes e enormes, deram cor e vida às frias bancadas do Olimpico ao mesmo tempo que em campo a Lazio começava a despertar do seu longo pesadelo. A pouco e pouco, ficou patente também que o grupo queria reivindicar a conhecida conexão do clube com a ideologia de extrema-direita. Várias suásticas, entre outros símbolos nazis e fascistas, eram exibidas durante os jogos, entre cartazes e tatuagens, ao lado da histórica águia romana usurpada por Mussolini. Ao mesmo tempo, começou a tornar-se habitual testemunhar a habitual saudação de braço levantado aos jogadores laziale por parte da claque.

Um deles, o sempre polémico Paolo di Canio, também ele membro da claque na sua juventude, decidiu um dia responder da mesma forma tornando-se a partir desse momento no inimigo público número um do Calcio. E no grande herói do movimento Irriducibili.

A influência entre as claques europeias

Desde esse momento, a sua influência aumentou à medida que o próprio país mergulhava em crise atrás de crise. Para sobreviver, como sucede com outros movimentos Ultra, os Irriducibili têm praticamente o monopólio do marketing de produtos oficiais do clube. Um problema para as arcas do clube que as sucessivas directivas não conseguem resolver porque ao menor sinal de cooperação, as bancadas do Olimpico transformam-se em comícios políticos contra os homens fortes do clube. E ninguém tem força suficiente para vencer a influência dos Irriducibili. Em 2003, quando o grupo cumpriu quinze anos de vida, a direção do clube retirou oficialmente a camisola  doze como homenagem aos Irriducibili e aos adeptos da Lazio.

Esse dinheiro permite-lhes ter uma sede no centro de Roma, mais de quinze lojas com produtos seus espalhados pelo país e até uma estação de rádio própria.

O seu exemplo fez escola não só no futebol italiano. À sua conhecida amizade com as Brigatte Gialloblu do Hellas Verona e os Boys San do Inter junta-se também as relações com os Ultra Sur do Real Madrid, os Boulogne Boys do Paris-Saint Germain ou a extinta claque do Estrela Vermelha, os tigres de Arkan. Se nos jogos contra essas equipas o ambiente de confraternização é evidente, contra os restantes oponentes – particularmente clubes de militância à esquerda – a violência é a palavra de ordem. Mas nenhum encontro é mais esperado pelos adeptos laziale do que o derby romano. Em 2004, numa rara ação conjunta para demonstrar o poder social e político do fenómeno Ultra, os Irreducibili aliaram-se às claques da Roma e forçaram a paragem do jogo entre ambas as equipas. Os seus lideres entraram no relvado, exigiram falar com os capitães dos dois onzes e ameaçaram invadir o relvado em conjunto se o jogo não fosse interrompido. Em causa estavam os rumores – que se revelaram falsos – da morte de um seguidor romano às mãos da polícia. O jogo foi interrompido e o calcio rendeu-se ao poder dos ultras.

Atualmente os Irriducibili perderam protagonismo no controlo da curva norte laziale. O seu crescente posicionamento político a favor de grupos paramilitares de extrema direita  criou algum desconforto com um significativo grupo de adeptos que adotou um protagonismo mais moderado. Mas a sua influência existe, ainda que na sombra, e ninguém duvida no Olímpico de Roma que o clube ainda se move parcialmente de acordo com os desejosos do seu grupo de adeptos mais fanático, entregado e violento. O grupo que ajudou a redefinir o fenómeno de adeptos organizados, a meio caminho entre o mais puro hooliganismo e o fanatismo clubistico extremo.

21.245 / Por
  • Brasuca

    “AS Lazio” tá errado, o certo é SS Lazio (Società Sportiva Lazio).

    • Miguel Lourenço Pereira

      Tem razão, já está corregido!

  • Diego N Sales

    Irriducibili SS Lazio!