O futebol na Irlanda viveu o último século como qualquer outro sector da sociedade. Dividido entre barreiras, ódios e religiões. O progressivo movimento de pacificação da ilha abriu o caminho para vários projetos de união entre o norte unionista e o sul republicano. O futebol pode ser a última barreira a ser ultrapassada. E o sonho de uma Irlanda unida debaixo das cores da mesma seleção e disputando uma só liga parece estar mais perto do que nunca.

Uma ilha em guerra

Em poucos locais da Europa o futebol serviu tanto como vector de ódio como na Irlanda. Uma situação que acompanhou o extremismo do quotidiano entre a luta armada de grupos terroristas e para-militares e os impasses políticos. Desde o reconhecimento oficial da República da Irlanda e a divisão da ilha entre fieis ao Reino Unido – a esmagadora maioria de orientação protestante – e os republicanos de inspiração católica a sul – que caos pode perfeitamente ter sido o termo exato para descrever décadas de história. Durante esse período de tempo o futebol foi uma poderosa arma de arremesso. Não só nos confrontos locais mas numa esfera mais alargada. O grande espelho do estado de quase guerra civil na ilha era disputado, ironicamente, a norte, em Glasgow, onde os imigrantes irlandeses católicos apoiantes do Celtic mediam as suas forças com os unionistas do Rangers.

Para os dias de Old Firms era habitual vários ferrys – com apertado controlo policial – cruzarem o mar da Irlanda a partir de Dublin e Belfast para tomarem parte no jogo e nos confrontos que o antecediam ou sucediam. Famílias inteiras fizeram dessa excursão anual uma tradição que servia, essencialmente, para reforçar a sua essência social. A sul, na República da Irlanda, o futebol foi, até aos anos sessenta, um desporto menor, ultrapassado em popularidade pela sua versão gaélica, numa tentativa mais do governo de Dublin de afastar-se de qualquer influencia britânica recuperando tradições locais. Não foi assim a norte onde, precisamente, coube ao futebol servir de ponte entre a abandonada Irlanda do Norte e o resto do Reino Unido. A seleção norte-irlandesa estreou-se num Mundial em 1958 e viveu a década seguinte com o génio individual de George Best antes de regressar aos grandes palcos nos anos oitenta. Nessa altura já a Irlanda tinha despertado para a paixão do “beautiful game” e vários dos seus jogadores começavam a atuar na liga inglesa. Tinham passado os anos do conflito militar mais tensos – desde o trágico “Bloody Sunday” em 1973 até ao atentado terrorista ao hotel onde se encontrava Margaret Tatcher pelo IRA uma década mais tarde. O processo de paz caminhava lenta mas de forma determinada na Irlanda e com ele avançava também o drama do futebol nos dois pontos da ilha. As presenças do EIRE em todos os torneios, salvo o de 1992, entre 1986 e 1994 confirmou a mudança de guarda na influencia desportiva da ilha mas havia quem ambicionasse, já então, em algo mais. Numa genuína união desportiva. Um cenário que parecía impensável até que as peças se começaram a mover.

Derry City, o clube que rompeu fronteiras

O drama que melhor exemplifica a situação do futebol irlandês viveu-se em Londonderry (ou Derry para os autóctones do sul). Uma localidade fronteiriça, integrada dentro das fronteiras do Reino Unido, mas esmagadoramente católica, Derry teve de sobreviver a anos de confrontos militares entre as duas fações políticas. O clube de futebol local pagou o preço. A pesar de ser uma das equipas mais fortes da liga da Irlanda do Norte, os sucessivos ataques dos adeptos locais a cada clube visitante – todos eles protestantes e unionistas – levaram a federação norte-irlandesa a vetar o Derry de utilizar o seu estádio como local, forçando-os a viajar cerca de 40 kms a norte para jogar “em casa”.

O clube protestou, queixando-se de que também eles eram vitimas habituais das suas visitas ao resto do país pelos mesmos motivos políticos e religiosos. A situação viveu durante anos um largo impasse até que em 1972 sucedeu algo inédito. O clube pediu expressamente à Federação da Irlanda autorização para competir nos seus torneios alegando a impossibilidade de o fazer debaixo da alçada da Irlanda do Norte por falta de proteção. A própria FIFA autorizou a alteração como medida excepcional tendo em conta o panorama político. A partir de 1986, o Derry City tornou-se no primeiro clube da Irlanda do Norte a disputar a Liga da Irlanda. Conquistou-a em 1989 reforçando ainda mais a gesta histórica. O seu exílio forçado parecia representar, como nenhum outro, o imenso fosso que existia ainda entre as duas Irlandas. Mas a partir de 2002 tudo começou a seguir outra direção. Tudo graças ao nascimento de uma competição que, pela primeira vez, estendia ponte sonde antes se levantavam muros.

A Setanta Cup foi uma iniciativa integradora no seguimento dos processos de paz na Irlanda. Um torneio que media os melhores clubes de ambas as ligas da Irlanda e que tinha como objectivo demonstrar que era possível organizar jogos de futebol competitivos entre equipas dos dois estados sem que a violência e as sementes de ódio do passado se fizessem sentir. O torneio foi um exito. O público acudiu em massa tanto nos estádios a norte como a sul e não houve incidentes a registar entre adeptos. Quando o Derry City recebeu, em casa, no velho Brandywell Stadium, um dos seus mais antigos e férreos rivais, o Linfield, parecia que nada podia impedir a normalização competitiva nos campos irlandeses. De repente, o impensável, passou a acontecer. Clubes a norte e a sul passaram a contratar jogadores do outro lado da fronteira sem temer a reação violenta dos seus próprios adeptos. Amigáveis e estágios de pre-temporada cruzando a fronteira tornaram-se habituais entre antigos inimigos. O seguinte passo – a organização conjunto da Europeu de sub 21 em 2011 – apenas serviu para demonstrar o que já era óbvio. O futebol já não era uma arma de confronto na ilha.

Pode o futebol juntar a Irlanda?

A normalização política abriu caminho á última e decisiva questão. É possível caminhar rumo a uma Irlanda futebolisticamente unida?
O debate tem razão de ser. Aliás, já é realidade em vários desportos incluindo o rugby onde uma equipa composta por jogadores de toda a ilha representa a Irlanda nos torneios internacionais. Sendo o rugby o segundo desporto mais popular para os irlandeses – a norte e sul – parece claro que um importante precedente foi estabelecido. Noutros desportos menores também existe uma representação irlandesa com participantes do norte integrados em equipas que são, quase maioritariamente, compostas por representantes da República.

O futebol é o último grande desporto – e motor social – que ainda não se uniu a esta corrente mas essa situação pode ser alterada em breve. Ao longo dos últimos cinco anos tem existido um debate social sobre as vantagens de organizar uma liga comum com equipas a norte e sul que possa reforçar economicamente o futebol de uma ilha que sempre ocupou um papel periférico a nível de clubes. Essa liga única não só reforçaria os laços de união entre norte e sul como potenciaria o futebol insular com os melhores representantes de ambos sectores a degladiarem-se entre si o que, de certo modo, poderia ser a ante-sala para uma presença mais forte nas provas da UEFA onde o habitual é que irlandeses – unionistas ou republicanos – sejam eliminados nas primeiras rondas previas por uma evidente falta de competitividade.

O desenvolvimento de infra-estruturas em Dublin, Belfast, Cork ou Dundalk e a centralização dos direitos televisivos podem ser outro dos motivos para seguir nessa direção. O passo inverso ao dado pelo Derry City num contexto radicalmente diferente que pode igualmente culminar – tal como sucede com o rugby – numa seleção nacional comum a todos os irlandeses, um rival mais do que sério para os seus vizinhos britânicos e com um maior impacto nos torneios internacionais. A decisão tem de ser tomada a distintos níveis. Para lá dos acordos entre as duas federações irlandesas – a FAI e a IFA – também têm uma palavra a dizer a Football Association inglesa – que certa forma rege espiritualmente as decisões tomadas pela IFA – e também os organismos fundamentais a nível global, a UEFA e a FIFA aos quais a ideia parece não desagradar depois de décadas a terem de lidar com movimento secessionistas.

Liga da Irlanda, um sonho possível

O futebol na Irlanda pode estar a caminho de levar a ilha num passo enorme para uma normalização política e social do mesmo modo que serviu de campo de batalha nos dias mais quentes do conflito militar e ideológico. Uma hipotética Liga da Irlanda unida como consequência direta da popularidade da Setanta Cup seria uma das noticias mais positivas para o futebol das ilhas britânicas em gerações.

Um duelo pelo título de campeão da Irlanda entre clubes de Belfast e Dublin em campo, debaixo de uma bandeira de paz e da tensão emocional que só o futebol podia transmitir, podia fazer mais pela sociedade insular do que dezenas de sessões de trabalho nos gabinetes políticos. Esse é, ainda hoje, o grande poder ostentado pelo beautiful game.

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