Em 1986 o Steaua de Bucareste surpreendeu o mundo do futebol ao conquistar o mais cobiçado título europeu de futebol. Ao Barcelona. Em Espanha. Uma gesta imortal que esconde uma história única, a de uma velha glória já reformada dos relvados que regressou a tempo de deixar escrito o seu nome na história. Nessa mítica noite andaluza, Iordanescu começou o jogo como treinador-adjunto e acabou como jogador campeão da Europa.

Uma inesquecível noite de Maio em Sevilha

Decorriam os setenta minutos de jogo. Sevilha não dava crédito. Durante mais de uma hora o Barcelona chocava sucessivamente contra um muro. A cada ataque, uma muralha de pernas. A cada remate, umas mãos de ferro na baliza. O que parecia uma festa anunciada antes do arranque do encontro transformava-se num duelo desesperante. Depois de passar vinte e cinco anos desde a sua única participação numa final da Taça dos Campeões Europeus, todos em Can Barça davam o título por conquistado.

Era o ajuste de contas histórico com um torneio que o seu eterno rival tinha já conquistado em seis ocasiões. O tempo acelerava no relógio e a fasquia parecia cada vez maior, cada vez mais distante. O apuramento tinha sido in extremis, graças aos penaltis. A derrota teria os mesmos ingredientes. Naquele minuto 70 ainda não o sabiam mas os homens de Terry Venables nunca iam estar tão perto de levantar o troféu como numa daquelas defesas impossíveis de Helmut Duckadam, o desconhecido guardião romeno transformado em herói. Ninguém entendia bem o que se passava.

O Steaua era um desconhecido do futebol continental. Dominador recente do campeonato romeno – três títulos consecutivos desde 1983 – tinham chegado até á final graças aos jogos no seu estádio. Somaram derrotas por cada visita longe da capital romena mas depois tinham o condão de transformar-se frente aos seus e assim foram caindo os rivais, quase todos favoritos, até lograrem aterrar em Sevilha. Aqui, com uma moldura humana quase exclusivamente favorável ao clube catalão, parecia que voltavam a jogar fora. E que jogando fora, perderiam. Mas setenta minutos tinham passado e a bola não tinha entrado. Em nenhuma das balizas. Urruti era um espectador mas isso não o preocupava menos.

Nesse minuto setenta começou a fazer-se história. O treinador-adjunto do Steaua, até então ao lado do treinador Emerich Jenei, levantou-se e despiu o casaco de fato de treino para mostrar, orgulhoso, a camisola branca dos romenos. Ia saltar ao terreno de jogo. Um ano e meio depois de se ter retirado. Um ano e meio depois de ter dito adeus á bola voltava para abraça-la uma última vez. A vez que o coroaria campeão europeu. Como treinador adjunto. Como jogador profissional.

O grande herói do Steaua

Anghel Iordanescu tinha sido até 1986 uma das grandes referências do futebol romeno. Foi um dos mais brilhantes executantes da sua geração. Numa carreira onde apenas vestiu duas camisolas e que tinha começado dezoito anos antes, no longínquo 1968, Iordanescu, possante avançado tinha marcado 155 golos em pouco mais de 300 jogos pelo Steaua. A bola colava-se aos seus pés como a poucos jogadores nos Carpatos. Foi o genuíno antecessor de Gheorgi Hagi, brilhante na execução de livres e de passes decisivos tanto como na marcação de golos impossíveis que o elevaram a herói de culto e maior goleador da história do clube em jogos oficiais.

Em 1982, depois de vinte anos de Steaua – entrou em 1962 nas camadas jovens do emblema patrocinado pelo exército romeno – foi-lhe permitida uma rara aventura no estrangeiro, algo pouco habitual no futebol do país de Ceaucescu. Passou dois anos pelo OFI Creta, na não muito distante Grécia, onde deixou apenas sete golos em meia centena de encontros.

Foi uma reforma antecipada, bem vivida, e que lhe abriu de novo as portas a voltar a casa para integrar o staff técnico do seu clube de sempre. Em 1984, penduradas as chuteiras, aceitou o abraço sincero de Jenei, o novo treinador campeão nacional do Steaua, esse título que há alguns anos lhes escapava, para ser o seu fiel número dois. Durante dois anos Iordanescu manteve-se fiel ao seu lado, vendo como outros triunfavam no estádio que antes o aclamava em sentida ovação. Até que chegou Sevilha e a oportunidade de fazer história.

O regresso inesperado de Iordanescu

Nas semanas anteriores á final da Taça dos Campeões Europeus de 1986 Emmerich Jenei, o treinador romeno, deparou-se com uma sequência de inesperadas lesões no seu plantel. A situação era grave. O clube tinha revalidado o título nacional e chegado á final europeia mas o preço era pesado e faltavam-lhe algumas peças importantes no puzzle. As grandes figuras estavam lá – Lacatus, Boloni, Balint, Belodedici, Piturca – mas faltavam vários dos suplentes habituais o que condicionava, e muito, a preparação do duelo decisivo contra um Barcelona em máxima força, uma equipa que apresentava o génio de Bernd Schuster, a capacidade goleadora de Steve Archibald e o talento inato de “Lobo” Carrasco, Victor Muñoz, Pedraza e Pichi Alonso.

Em consequência, Jenei tomou uma desesperada decisão. Foi falar com Iordanescu e expôs-lhe o problema. Não havia jogadores de campo suficientes para completar a lista de cinco suplentes permitida e portanto o velho capitão, a velha glória, iria por última vez preparar-se para servir o clube no relvado. Iordanescu foi inscrito na UEFA á última hora como jogador de campo.

A ideia de Jenei era simples. Iordanescu ia, pura e simplesmente, fazer número. Não jogava há dois anos e manter-se-ia a seu lado como adjunto, durante o jogo. Só num caso extremo se contemplava que fosse, efetivamente, a jogar. A decisão foi consensualizada e para surpresa dos adeptos romenos, o seu nome surgia, efetivamente, quatro anos depois, na ficha técnica da final ao lado de Stoica, Radu e Wiessenbacher entre os jogadores de campo.

Tudo no entanto mudou ao minuto setenta. Jenei foi testemunha com o seu número dois de uma hora de massacre blaugrana e entendeu que era necessário, para os minutos finais do jogo, procurar sair em velocidade e aproveitar o espaço na defesa contrária e, eventualmente, algum lance de bola parada. Tinha em Iordanescu o homem ideal para o papel. Ambos olharam-se nos olhos e Angel tirou o casaco de fato de treino. Preparava-se para entrar em campo dois anos depois. O capitão, o herói, voltava para uma última aventura.

Os últimos 50 minutos do grande capitão

A substituição oficializou-se ao minuto 72. Do terreno de jogo saiu um apagado Balan. Iordanescu posicionou-se atrás de Piturca, o veloz avançado centro, e com ele a equipa ganhou em espirito. Passaram os minutos e ocasionalmente o Steaua procurou a sua oportunidade mas o domínio continuava a ser dos catalães. Até que Venables cometeu um erro talvez histórico. Tirou Bernd Schuster e com ele foi-se a alma blaugrana. Schuster ficou tão irritado que não cumprimentou o treinador, correu para o balneário, tomou um duche e depois pediu um táxi para o levar diretamente para o aeroporto.

A sua história com Venables terminava naquela noite. E o Barcelona iria sentir a sua falta. Sem o génio alemão, a clarividência desapareceu e Iordanescu encontrou mais espaço para os seus lançamentos em profundidade para Boloni, Balint e Piturca. O Steaua tornou-se mais perigoso com o passar do cronómetro. Ainda assim não havia golos que celebrar.

Ainda assim o jogo mergulhou na desesperante decisão por grandes penalidades tal como a final de dois anos antes em Roma entre os locais e o Liverpool. Na altura os locais saíram derrotas. Nesta os “locais” corriam o mesmo risco. Jenei não tinha preparado os penaltis. Ninguém tinha pensado chegar tão longe. Boloni e Piturca eram os marcadores habituais e só o primeiro estava ainda em campo, mas quem se lhes iria seguir. Depois de escolher a Majearu, surpresa nos titulares para a final, o treinador virou-se para Iordanescu, especialista nos seus dias de glória mas desta vez ouviu, pela primeira vez, um não.

Cinquenta inesperados minutos nas pernas tinham deixado a sua marca em Angel que não se sentia preparado para a pressão do momento decisivo. Disse a Jenei que tinha cumprido com a sua missão e sentou-se no chão. Á espera da glória por caminho alheio. Acabaram por ser Lacatus e Balint os seguintes na lista. O quinto nunca se soube quem era. Não foi preciso chegar tão longe. Urruti, herói contra o Gotemburgo, viu como Majearu e Boloni falhavam os dois primeiros disparos mas tanto Lacatus como Balint anotaram os seus sem piedade. Do outro lado, Duckadam mantinha a suas redes invioláveis. Um a um, os jogadores do Barcelona aproximaram-se da marca de penalti. Um a um falharam o alvo. E o troféu foi para Bucareste.

De adjunto a líder da “Geração de Ouro” romena

Iordanescu fez história nessa noite de 7 de Maio. Foi o primeiro treinador-adjunto e jogador de campo a ser campeão da Europa no mesmo jogo. O primeiro a sair da reforma, dois anos inativo, para sagrar-se senhor da Europa. Foi definitivamente a sua última aventura no terreno de jogo. E valeu a pena. Dias depois Jenei foi oficializado como novo selecionador romeno. A sua figura estaria por detrás da emergência da chamada “Geração de Ouro” que participou no Mundial de Itália, em 1990, e que depois iria também aos Estados Unidos, a França e aos Europeus de Inglaterra e Bélgica/Holanda.

Iordanescu foi eleito de imediato como seu sucessor no banco do Steaua e além de prolongar a hegemonia nacional, ajudou o Steaua a regressar a uma final europeia, a de 1989 contra o AC Milan, ironicamente, em Barcelona. Depois dessa etapa sucedeu de novo a Jenei, em 1992, e foi ele o treinador da grande etapa internacional dos romenos durante os anos noventa. A sua carreira está plena de gestas inesquecíveis mas talvez nenhuma tão grande como a noite em que deixou de ser adjunto por uma hora para ser campeão de Europa no terreno de jogo.

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