International Board, os homens das leis

São eles quem decide como o futebol é jogado. Cada nova regra tem de ter a sua aprovação absoluta. São vistos por uns como os responsáveis pelo atraso tecnológico do jogo e por outros como o baluarte da essência do jogo. Deciframos quem está por detrás do International Football Association Board.

Uma linguagem comum para o jogo

Quando se levanta o debate da tecnologia no futebol moderno todos parecem ter uma opinião ao respeito. A favor da introdução de tecnologia nas balizas, nas bolas, com a ajuda de video, inovações reais noutros desportos mas às quais o futebol se resiste. No meio de tantas opiniões faltará sempre a mais importante. A de quem realmente irá decidir qual o futuro do jogo mais popular do planeta.

O futebol surgiu como uma mistura de várias influências e escolas. Durante largas partes do século XIX foi jogado de forma distinta consoante a zona geográfica, a influência institucional e os próprios condicionantes climatéricos, económicos e sociais. Muitos jogos foram disputados com regras diferentes em cada parte para agradar a gregos e troianos e muitas das concepções que são hoje básicas na estrutura do futebol chegaram muito mais tarde do que o leitor se imagina.

Em 1882 as quatro associações das ilhas britânicas, que até então disputavam os seus jogos de acordo com as leis vigentes em cada país, decidiram criar um código comum para os jogos internacionais. Um código que seria, progressivamente, copiado pelos clubes amadores até que, finalmente, se institucionalizou as leis básicas do jogo. Em Manchester a reunião das federações inglesa, escocesa, galesa e irlandesa definiu a criação de um torneio comum, o primeiro oficial a nível internacional, o British Home Championship que se manteve ativo até à década de 80.

Nos jogos disputados entre as distintas federações, que proclamaria anualmente o campeão britânico, seria aplicado o mesmo código. Para garantir a sua correcta aplicação foi criado, quatro anos depois, um comité de elementos das distintas federações que estudaria todas as alterações posteriores ao jogo. E assim nasceu o International Board.

A renovação das leis do jogo

Entre as mais significativas alterações ao jogo esteve a criação da grande penalidade, em 1891,então assinalada por uma falta considerada grave em qualquer zona do terreno de jogo. Essa foi igualmente a década onde a figura do árbitro começou a ganhar relevância, deixando de ser um fiscal de linha para mover-se entre o terreno de jogo. Só em 1896 foi oficializado, de forma definitiva, que cada equipa só podia apresentar um máximo de 11 jogadores e que as balizas deviam ter redes para garantir a legalidade dos golos apontados. Não foi só até ao século XX que se definiu o tamanho do recinto de jogo, as linhas da grande área e de meio-campo, a criação do conceito de livre directo e a impossibilidade do guarda-redes em agarrar com as mãos a bola fora da sua área.

Regras que hoje são básicas mas que demoraram quase mais de um século até se imporem de forma definitiva no vocabulário do mundo do futebol. A partir dos anos 20 as regras originais e as suas principais atualizações estavam já consolidadas em todos os países membros oficiais da FIFA e em 1938, o então secretário-geral da FA, Stanley Rous, publicou a versão definitiva das 17 Leis do Jogo.

A importância da FIFA

O nascimento da FIFA, em 1904, como orgão gestor do futebol a nível internacional criou um conflicto de interesses com o International Football Association Board. Enquanto a organização formada em Paris acreditava que deveria ser ela a estipular as leis do jogo, os britânicos mantiveram-se inflexiveis até que em 1913 os homens da FIFA capitularam. Aceitavam o leque de regras já estipulado pelo IFAB mas, em troca, solicitaram um lugar no conselho de decisões, com direito a voto. As negociações chegaram a bom rumo e o International Board passou a funcionar com base num comité em que cada representante tinha direito a dois votos, sendo necessária uma maioria de dois terços para aprovar qualquer alteração.

O sistema funcionou dessa forma até aos anos 50.

Em 1953 a crescente influência da FIFA nos destinos do jogo provocou uma profunda e significativa alteração nos estatutos do International Board. A máxima organização mundial viu ampliados os seus votos de dois a quatro e as federações fundadores passaram a ter um voto cada. No entanto, para proteger o direito histórico das associações britânicos, tornou-se obrigatório para aprovar uma alteração estatutária com um mínimo de seis votos. Ou seja, nenhuma lei pode ser aprovada sem a vontade da FIFA mas a organização atualmente presidida por Sepp Blatter não pode aprovar nenhuma alteração sem, pelo menos, os votos de duas das federações britânicas.

Foi dessa forma que nos anos 60 se implementou o uso de cartões e se autorizaram substituições, e nos anos 90 se eliminou a possibilidade de atrasar a bola aos guarda-redes (e que estes pudessem apanhá-la à mão) e se voltou a corrigir a lei de fora de jogo.

A tecnologia é agora o próximo desafio dos homens que se reúnem duas vezes ao ano, uma para apresentar possíveis alterações e outra para aprovar ou rejeitar as mesmas. É dessas reuniões que sairá o futuro imediato de um jogo que mudou drasticamente desde o início da sua popularização. De um jogo que há mais de 100 anos existe sobre o olhar atento de uma comissão que para muitos ainda é um mistério.

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