Inter City Firm, os hooligans mais perigosos

Se te cruzavas com eles, não podias escapar. De brinde, recebias o seu cartão de visita. “Parabéns, acabaste de conhecer a ICF”, tornou-se na frase que melhor definição o espírito hooligan dos anos 80. Uma cultura da qual eram os mais duros e fieis representantes, a firma que todos aprenderam a temer.

A cultura de elite do hooliganismo

No coração de Upton Park,  um dos estádios mais britânicos dentro da cosmopolita Londres, o latido do coração das bancadas sentia-se ao som dos gritos de incentivo da ICF. Os mais fieis adeptos dos Hammers transformavam a atmosfera dos jogos em casa do West Ham United. Um caldeirão de emoções que ultrapassava, e muito, noventa minutos de jogo. Antes ou depois dos duelos, era certo e sabido que os ICF tinham disputado o seu próprio duelo, longe do tapete verde. A violência não fazia parte da sua cultural. Era a sua cultura. Debaixo desse espírito desafiante e de uma organização ímpar, a Inter City Firm transformou-se na epitome perfeita do movimento hooligan durante mais de vinte anos.

Fosse nos duelos tribais das redondezas com os adeptos do Tottenham Hotspurs, Arsenal ou, sobretudo, os indefectíveis Bushwackers de Millwal, ou em viagens por essa Inglaterra fora, a ICF era um espetáculo paralelo ao futebol. Um cocktail de violência, sangue, drogas, álcool e pura adrenalina que não parecia estar minimamente interessada em conhecer sequer os seus limites. Desde a sua fundação até bem entrados os anos noventa, a sua essência foi constantemente de desafio. Em campo o West Ham podia estar longe dos seus melhores anos mas fora deles eram campeões do hooliganismo.

Os hooligans que viajavam em comboios caros

O grupo surgiu na década de setenta com o rápido desenvolvimento da cultura de gangs violentos nas bancadas dos estádios ingleses. Os anos setenta tinham sido duros economicamente e estava a abrir-se, de par em par, a porta aos anos de ferro de Tatcher. O desemprego seguia a um ritmo galopante, as  novas tribos urbanas como os punks ou goths substituíam os duelos mais inocentes entre rockers e mods dos anos anteriores e o ressurgimento de movimentos de extrema-direita começavam a chegar aos estádios. Os clubes ingleses triunfavam na Europa mas a qualidade do jogo decaía a olhos vistos. Nesse ambiente os adeptos começaram a viver o seu próprio campeonato. Organizaram-se em firmas, cada qual mais ambiciosa, para controlar as bancadas e com elas o poder emocional dos adeptos.

Nas suas viagens pelo país desafiavam normas e regras e nem as constantes patrulhas policiais eram capazes de lidar com o escalar da violência. Muitos seguiam em comboios especiais, altamente custodiados por agentes, os Football Specials. Os seguidores do West Ham preferiam contornar as normas e viajar em comboios de média distancia. Os bilhetes eram mais caros mas a impunidade era total. Nos inter-cidades eram reis indiscutíveis. De aí sacaram o seu próprio nome de guerra, a Inter-City Firm.

Parabéns, acabaste de te cruzar com a IFC!

A popularidade do ICF foi aumentando com o passar dos anos. A partir de finais dos anos 70 o grupo começou a utilizar cartões de visita que deixava em cima dos corpos das suas vitimas com a simples frase “Congratulations, youve just meet with the IFC”. Foi um triunfo cultural e rapidamente imitado por outras firmas. Mantinha-se a sensação de que todas iam a reboque de um grupo de extrema-direita que era liderado por um negro, o mítico Cass Pennant, e que preferia lutar com claques de clubes da Second Division, mais duras, a ter de viajar pelos campos da primeira divisão onde, proclamavam, as firmas eram mais moles.

As suas rivalidades rapidamente ultrapassaram o universo de Londres e começaram a espalhar-se pelas Midlands e pelo Nordeste do país deixando atrás de si um rastro de sangue e impunidade que o novo governo de Margaret Tatcher decidiu acabar. Durante a dura perseguição policial que se seguiu a Heysel e Hillsborough, os ICF foram dos grupos mais perseguidos ainda que não tivessem estado envoltos em nenhum desses momentos. Vários dos seus homens fortes forma presos – as ligações com o consumo de drogas, sobretudo a cocaína, e com alguns dos mais perigosos gangs armados da capital foram as principais causas das detenções, não o que se passava nos campos de futebol – e o grupo foi perdendo peso à medida que o peso policial caiu sobre as firmas no dealbar da Premier League.

 Um sucesso cultural

Quando as autoridades inglesas proclamaram o fim do hooliganismo, em vésperas de uma nova era coroada pelo Euro 96, já a ICF tinha entrado definitivamente na cultura popular. Protagonistas de documentários para a BBC, de livros que exploravam a atracão gerada pela cultura de violência das firmas e também por filmes como The Firm, Green Street Hooligans ou Rise of the Footsoldier, os membros da Inter-City Firm tinham atingido o status de verdadeiras celebridades. Os dias de luta nas ruas podiam ter terminado, mas nas bancadas continuavam a ser as figuras mais reverenciadas pelos adeptos, orgulhosos dos seus serviços ao clube. A história recordará sempre a IFC como a mais influente e perigosa das firmas associadas ao apogeu da cultura hooligan. Em cada jogo do West Ham a memoria continua a ecoar os dias em que a cada golpe seco se seguia um cartão escrito para a posteridade na alma do adepto britânico.

5.419 / Por
  • Tiago Cardoso

    Pelos vistos, «Parabéns, acabaste de conhecer a ICF» podia ser traduzido como «Parabéns, acabaste de ganhar uma visita ao hospital»! xD