Em Ingolstadt vivem 120 mil pessoas. Muitas delas trabalham para a empresa Audi. Outras vivem dos negócios que cresceram à volta da sede da marca automóvel. Quase todos apoiam o Ingolstadt FC. Um clube que é detido, em tudo menos no nome, pela marca automóvel. Que espera começar um novo duelo com a sua rival Volkswagen brevemente, na Bundesliga.

Uma questão de prestigio

Em 2004 dois clubes amadores da pequena localidade de Ingolstadt, parte do circulo urbano de Munique, decidiram unir os seus destinos. Tinham um patrocinador de peso. Durante a Idade Média foi uma pequena localidade agrícola no coração da Baviera mas com o nascimento da Audi tornou-se em sinónimo de indústria automóvel. A maioria da população da cidade trabalha para a empresa ou subsiste graças aos negócios paralelos que cresceram à sombra da afirmação internacional de uma das marcas de maior prestigio do mundo.

Para a Audi ter um clube de futebol de prestigio na sua cidade era uma questão de orgulho. Adquiridos pelo grupo Volkswagen, os principais patrocinadores do Wolfsburg, clube da localidade onde se instalaram muitos dos trabalhadores que chegaram nos anos trinta para fazer parte do plano de desenvolvimento da empresa patrocinado pelo regime hitleriano, os diretivos da Audi procuram no seu meio urbano uma réplica ao sucesso do clube verde e branco. A inexistência de um clube de nível reconhecido foi solucionada com a fusão do ESV Ingolstadt e do MTV Ingolstadt. Em 2004 nascia oficialmente o Ingolstadt FC.

O truque da companhia

A obrigação legislativa na Alemanha dos clubes serem detidos maioritariamente pelos seus adeptos – a lei 50+1 – foi um problema que a empresa automóvel contornou entregando a maioria das ações aos seus próprios trabalhadores, reservando para si a restante percentagem permitida pela lei, esperando que esta eventualmente seja abolida (como desejam outros projetos similares, como o Red Bull Leipzig ou o 1860 Munchen). Em troca, a Audi assinou um protocolo de patrocínio com o clube no valor de 5 milhões de euros em troca de publicidade na camisola, um valor mais do que suficiente para garantir que em quatro anos o clube passava da liga regional da Baviera à 2.Bundesliga.

Para comemorar o sucesso imediato do clube, a Audi pagou do seu próprio bolso a construção de um estádio ultra-moderno de 15 mil lugares. Em troca, o recinto leva o nome da companhia.

O sonho da Bundesliga

Oficialmente o clube é dos adeptos, na prática é da empresa. Apesar de ter um estádio preparado para receber mais de quinze mil seguidores, a média de adeptos nos jogos da 2.Bundesliga não ultrapassa os sete mil. A localidade é pequena, muitos são seguidores do Bayern Munchen ou do Estugarda, as duas grandes cidades mais próximas da cidade, e poucos parecem ter-se apaixonado perdidamente pelo projeto da empresa. Uma realidade em tudo similar com o caso do Wolfsburg onde nem o título de campeão foi suficiente para ampliar o número de adeptos que marca presença no estádio do clube.

O objectivo da Audi é colocar o Ingolstadt nos próximos três anos na Bundesliga. Na última temporada o clube com menos adeptos do segundo escalão acabou a temporada num cómodo 13º lugar, isto apesar de contar com o quinto maior orçamento das equipas em competição. Orçamento oficial, porque tal como o Wolfsburg, todos os seguidores do futebol germânico sabem que o apoio direto destas empresas implica a cobertura total dos gastos que ultrapassem o estipulado no início da temporada. Naturalmente o clube não sobreviveria, melhor do que isso, não existiria, se não fosse pela companhia. Se algum dia a empresa se cansa da sua aventura desportiva, o final do Ingolstadt FC está anunciado. Até lá a aventura continua e a possibilidade de um duelo entre Audi e Volkswagen nos campos da Bundesliga não está muito distinta de ser real. Para os adeptos alemães é um cenário pouco atrativo. Para os diretores do grupo VW, um ótimo tema de conversa para as reuniões de final de ano.

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