Independiente, os gigantes esquecidos da História

Sete vezes campeões continentais – um recorde na América do Sul até hoje – e uma das máximas referências estéticas do jogo e ainda assim poucos se lembram do Independiente de Avellaneda à hora de falar das grandes equipas da história do futebol. No entanto, “El Rey de Copas”, é parte fundamental para entender-se a história do futebol sul-americano e os seus últimos anos dourados.

A saga do Rey de Copas

Era 1984.

O futebol sul-americano estava entregue ao renascido futebol-arte brasileiro que Coutinho começou a moldar com o Flamengo – que três anos antes tinha-se convertido no clube mais popular do momento depois de vencer a Libertadores e destroçar o hegemónico Liverpool em Tóquio – e que Telé Santana perpetuou com o Brasil que apaixonou tudo e todos em 1982 no Mundial de Espanha. Ambos tinham a Zico como principal figura mas o génio que andava à solta pelos relvados sul-americanos tinha outro nome e apelido e nesse ano colocou o ponto final a uma década de glória inesquecível. Com esse momento encerrou também um ciclo que, sem ter começado, ajudou a perpetuar, o da saga do “Rey de Copas”. Para o Independiente, um dos dois grandes clubes da elite argentina nascido na periferia de Avellaneda quando a urbe ainda não pertencia, oficialmente, a Buenos Aires, esse ano foi também o zénite da sua história. O triunfo contra o mesmo Liverpool em Tóquio colocou um ponto final numa história que era também a do próprio futebol sul-americano. Era o segundo título intercontinental do clube num ano especial por outro motivo muito mais concreto e emocional, o ano da sétima Copa Libertadores. Sete troféus em vinte anos, um recorde que até hoje ninguém conseguiu sequer igualar, quando mais ultrapassar. Os seus históricos rivais do Boca Juniores – que têm mais títulos continentais ao somar às suas seis Libertadores vários títulos Sudamericanos – continuam a sonhar com o momento de ultrapassar o “Rojo” mas o tempo vai passando e o recorde segue vivo. Durante duas décadas o Independiente foi o rei do futebol sul-americano e a sua geração da década de setenta – vencedor de quatro Libertadores consecutivas – a mais laureada e simbólica desses anos de paradoxos. E no entanto, estranhamente, quando se falam dos grandes onzes da história poucos se lembram de colocar o Independiente no lugar onde merece estar. Na elite.

A primeira era dourada do Rojo

Tudo começou a inicios dos anos sessenta.

O desastre sofrido pelos argentinos no Mundial de 1958 mudou tudo. Absolutamente tudo. Não bastava o país estar a viver socialmente um dos periodos mais turbulentos da sua história, uma aventura que acabaria com a ascensão da Junta Militar e o fim do Peronismo, anos depois, como a humilhação sofrida pela “Nuestra”, pareceu abrir um cisma que nunca mais se fechou. A partir desse momento haveria sempre duas Argentinas, a do jogo estético contra a do futebol duro, a ofensiva contra a defensiva, a menotista contra a billardista. Os nomes podiam ir mudando mas a trincheira era a mesma. Desse trauma emocional sairam as equipas que definiram para sempre o jogo no país. As mais físicas e duras como o Estudiantes de la Plata ou o Racing de Avellaneda, demónios com chuteiras, tornaram-se infames com o tempo mas em campo o seu estilo de jogo parecia invencível. Os problemas dentro e fora dele também. Esses passaram para a memória como os anos do futebol sujo, anti-desportivo, inestético e desprovido de alma na América do Sul, diferente da realidade das duas décadas seguintes. No meio de tudo isso, desse temporal emocional, começou o Independiente a lavrar o seu destino, de uma forma muito própria e particular, sem alinhar por nenhuma corrente concreta mas sempre olhando com nostalgia para a sua primeira etapa dourada, a dos anos trinta, os anos em que só eles pareciam ter forças para medir-se à La Maquina do River Plate graças aos golos de Arsénio Erico e a ilusão contagiante dos seus milhares de fanáticos adeptos.

Em 1963, depois de já ter vencido o primeiro título nacional depois de doze anos de seca, o Independiente voltou a sagrar-se campeão nacional o que lhe abriu as portas para participar na Copa dos Libertadores. O torneio continental era recente, criado em 1960 pela CONMEBOL para rivalizar com a Taça dos Campeões Europeus e assim abrir caminho ao duelo intercontinental que se disputava a duas mãos entre os reis de cada lado do Atlântico. Os golos de Valera, um hábil avançado centro, foram chave para segurar o título nacional e apresentar a candidatura ao ceptro continental no ano seguinte, quando ainda participavam apenas os campeões nacionais. Vencedor de um grupo exigente com os Millionarios colombianos e o Alianza de Lima, os argentinos qualificaram-se para as meias-finais onde lhes esperava o rival mais exigente possível, o Santos de Pelé, Coutinho e Pepe, à época a equipa mais respeitada do mundo do futebol e vigente detentora do troféu. Contra todo o prognóstico, a 15 de Julho, em pleno inverno sul-americano, os argentinos recuperaram de uma desvantagem de dois golos para vencer por 2-3 em casa dos brasileiros com golos de Rodriguez, Bernao e Suarez. Uma semana depois voltaram a vencer pela margem mínima, culminando a surpresa, e garantindo uma final rioplatense num duelo contra os uruguaios do Nacional. Foi uma contenda muito mais exigente que acabou com apenas um golo em cento e oitenta minutos. O disparo colocado de Mario Rodriguez, ainda na primeira parte, no duelo da segunda mão, em Avellaneda foi suficiente para fazer história. Não era apenas o primeiro troféu internacional do clube. Era, sobretudo, o primeiro do futebol argentino numa competição até então dominada por brasileiros e uruguaios. Em plena era de crise emocional, um farol. Um farol vermelho.

Os homens na Lua

O triunfo do Independiente – que não perdera qualquer encontro disputado na competição – abriu a era de hegemonia argentina mas o que poucos imaginavam é que seria este o clube porta-estandarte da competição nos vinte anos seguintes. Apesar de fazer parte dos chamados “Cinco Grandes” – com River Plate, Boca Juniores, San Lorenzo de Almagro e Racing – poucos tinham o Independiente como um clube de projecção internacional. Era o Boca Juniores, novo campeão argentino e um histórico por direito próprio, o favorito para a edição do ano seguinte mas, contra todo o prognóstico, foi o “Rojo” que voltou a disputar a final, depois de deixar atrás o seu rival buenarense num encontro de desempate decidido, após um empate a zero, pela diferença de golos favoráveis ao vigente campeão. De novo contra um rival de Montevideu, desta feita o Peñarol, o Independiente foi necessário disputar um play-off já que cada um venceu o respectivo encontro em casa. Em Santiago do Chile a superioridade dos argentinos foi evidente e o resultado final acabou por 4-1 a seu favor. A hegemonia continental não encontrou eco a nível global. Nas duas edições da Intercontinental o clube teve de medir forças com o também bicampeão europeu, o Inter de Helenio Herrera e em ambas edições saiu derrotado de forma clara pelos italianos. Também a conquista do terceiro título ficou adiada com a derrota num encontro de play-off contra o River Plate, que perderia a final contra o Peñarol, o que parecia congelar no tempo a idade de ouro do Independiente nos torneios continentais. Na verdade, o melhor estava ainda por chegar.  A década chegou ao fim e com ele o momento que parecia dealbar uma nova era de domínio. Na aterragem ao solo lunar, o astronauta norte-americano Neil Amstrong, levou consigo uma bandeira do Independiente e plantou-a em solo lunar. Deste o satélite havia agora uma estrela especial a olhar pelo destino do clube. E essa estrela metamorfoseou-se na terra em forma de um homem: Ricardo Bochini.

Poucos jogadores representam tão bem a “pausa” que sempre exigiu o futebol argentino aos seus maiores talentos como Bochini. Nem Riquelme, o último esteta, foi capaz de reproduzir com tamanha regularidade o génio de congelar o campo como aquele que era, na década de setenta, o máximo idolo de um jovem adolescente chamado Diego Armando Maradona e que, muito mais tarde, foi campeão do Mundo ao seu lado em 1986, o momento de auge de um coincidindo com a despedida gloriosa de outro. Bochini trouxe ao Independiente a magia do toque que lhe tinha faltado no final dos anos sessenta e abriu caminho a uma era de hegemonia impensável. Não o fez só. O onze do clube de Avellaneda estava repleto de excelentes futebolistas – como Maglioni, Balbuena, Pastoriza, Francisco Sá, Pavoni e sobretudo Daniele Bertoni – e desde o banco contou com a sábia direcção de técnicos como Manuel Giudice e mais tarde Vladislao Cap, Pedro Dellacha e Humberto Maschio, que souberam manter a estabilidade do grupo durante toda a década. E, sobretudo, explorar o génio superlativo do “Bocha”.

O Tetra continental, a gesta esquecida

Se os êxitos dos anos sessenta já eram suficientes para fazer História o que se passou a partir de 1971 passou a ser lenda.

A equipa venceu nesse ano o Metropolitano – um torneio com as equipas só da zona de Buenos Aires, um reflexo do histórico caos organizativo do futebol argentino – e ficou em quarto no torneio Nacional, troféu de novo conquistado no ano seguinte e que abriu as portas à participação a uma Libertadores já ampliada a dois clubes por país. Era o regresso a um torneio simbólico e que não podia ter terminado de melhor forma. O clube venceu o primeiro grupo frente ao Rosario Central, Independiente Santa Fe e Atlético Nacional e na mini fase de grupos que substituiu as meias-finais, superou a concorrência do São Paulo e do Barcelona de Quito graças a um triunfo sobre os brasileiros no último jogo. A final seria disputada contra o Universitario de Lima, a base da selecção peruana que tinha brilhado no Mundial dois anos antes, e após o empate a zero no Peru, os argentinos fizeram da sua casa o forte necessário para vencer com dois golos de Maglioni diante de mais de sessenta mil adeptos fanáticos. O jogo estético, veloz, cooperativo do Independiente era uma lufada de ar fresco com a abordagem mais cínica e física de anos anteriores e à medida que o clube seguia a afirmando-se a nível global ia também perdendo a nível nacional impacto, vitima de uma tremenda dificuldade em manter-se competitivo ao mais alto nível em três torneios paralelos – os dois nacionais argentinos e a prova continental.

No ano seguinte o Independiente, como continuaria a passar, voltou à Libertadores apenas por ser campeão em título e uma vez mais fez das suas fraquezas, forças. A liderança inquestionável do jovem Bochini consagrou-se definitivamente deixou pelo caminho a San Lorenzo e Milionarios antes de bater o Colo Colo na final e assim somar o seu quarto troféu continental. No final desse ano, depois de ter caído contra o Ajax na época anterior, o clube de Avellaneda conseguiu finalmente vencer a sua primeira Copa Intercontinental, batendo a Juventus de Turim que representava o futebol europeu devido à recusa dos campeões holandeses em repetir a experiência. O jogo único foi disputado em Roma e o golo de Bochini entrou para a história como a perfeita definição do seu estilo de jogo. O veloz 4-3-3 dos argentinos destroçou o jogo frio e pausado dos italianos e apresentou, definitivamente, o Independiente ao mundo. Mas a história estava longe de terminar. Os dois anos seguintes voltaram a consagrar os “Diablos Rojos” como reis da América. Em 1974, superados Peñarol e Huracan, foi necessário um play-off para dictar o campeão no tenso duelo contra o São Paulo. Os brasileiros venceram por 2-1 em casa mas cairam por 2-0 em Avellaneda e como os golos fora só contavam em casa de empate no play-off foi preciso um terceiro duelo, em Santiago do Chile, para que um golo de Pavoni certificasse o quinto título continental a que se seguiu de imediato o sexto, numa final contra o Union Española do Chile, também com um encontro de desempate, desta feita na capital do Paraguai, Assuncion. Foi o quarto título consecutivo – um recorde que permanece igualmente vigente – e o parêntesis no final do conto de fadas. O desgaste da mítica geração do “Rey de Copas” fez-se evidente e como a equipa demonstrava dificuldades em competir a nível doméstico bastou um tropeção na seguinte Libertadores para encerrar o ciclo de títulos sucessivos. Aconteceu precisamente a 23 de Junho de 1977 com uma derrota por 0-1 em casa frente ao River Plate. Um ano depois Bertoni seria campeão do mundo com a Argentina mas Bochini, preterido por Menotti, teria de ver o torneio desde casa. Parecia que a sua boa estrela tinha acabado, como a do clube. Nada mais longe da verdade.

Epilogo de uma lenda chamada Independiente

Como todas as lendas, esta também tem um epilogo.

Depois de oito anos, o Independiente voltou a levantar, por última vez, até hoje, o seu troféu mais apreciado, deixando um recorde que ainda subsiste. Bochini já não era a máxima estrela argentina, título merecido nos ombros de Maradona, mas continuava a ser o génio superlativo que sempre fora e apesar da imensa maioria dos seus companheiros dos anos de glória terem abandonado o clube, ele seguia como o seu lider indiscutido. Tudo começou depois de um hiato sofrido de quatro anos sem títulos. A última liga nacional tinha sido levantada em 1979 quando, em Dezembro de 1983, o clube logrou voltar a ser campeão nacional vencendo o seu histórico rival, o Racing, em sua casa, com um resultado que lhes permitia igualmente enviar a “Academia” para a segunda divisão. Parecia prenúncio do que estava para vir. As grandes figuras agora eram outros e começavam finalmente a mostrar-se à altura da sua herança. Bochini fazia-se acompanhar por Burruchaga, Giusti, Trossero, Villaverde e Marangoni, nomes que foram fundamentais na sequência final de títulos entre 1983 e 1984.

Aberto o caminho de regresso à Libertadores, o Independiente superou o primeiro grupo com solvência frente ao Estudiantes, Olimpia e Luqueño, para depois medir-se a Nacional de Montevideo e Universidade Católica na serie que compunha as meias-finais. Em ambos casos os argentinos empataram fora e venceram os duelos em casa o que lhes permitiu disputar a final contra o Grémio sem nenhuma derrota na ronda prévia. Os brasileiros eram favoritos – o futebol canarinho vivia um novo apogeu – mas em Porto Alegre uma exibição memorável permitiu ao Independiente sair com um triunfo pela mínima que no final foi determinante já que ambas as equipas empataram o jogo da segunda mão a zero. Era o sétimo título continental para o Independiente e o prelúdio de outra façanha histórica, semanas depois. Durante a época dourada dos anos setenta o clube tinha vencido apenas uma das três Intercontinentais disputadas – num dos anos não houve edição por falta de interesse dos europeus – e agora, frente ao Liverpool, em Tóquio, aí estava a oportunidade de fechar com chave de ouro o ciclo. Assim foi. Os ingleses treinados por Joe Fagan foram incapazes de dar a volta ao marcador depois do tento inicial de Percudani e Bochini logrou assim levantar, por última vez um grande troféu. Foi também o último grande eco do histórico Independiente. Para muitos esquecido, por detrás de outras equipas míticas sul-americanas, o certo é que o “Rey de Copas” dos anos setenta é, por direito próprio, uma das mais simbólicas e maiores equipas da história do futebol mundial!

696 / Por
  • Junior jackal

    Grande Indepediente …7 Copas …coisa para poucos…