Independentismo no relvado, o puzzle do futebol espanhol

Se existe algum país no complexo puzzle de fronteiras do velho continente que vive sob um fantasma parecido ao que assombrou os Balcãs nos anos noventa, sem dúvida que é Espanha. Aí, também, o futebol transformou-se em mais um campo de batalha entre nacionalismos regionais e nacionais e vários jogadores renunciaram a vestir a camisola da Roja por uma questão de ideologia.

As bandeiras de Espanha

Durante as celebrações da primeira grande vitória internacional do futebol espanhol, em Julho de 2008, no palco montado em Madrid, misturaram-se bandeiras catalãs, bascas e espanholas. A ideia era de unidade, de um triunfo de todas as partes que integram um país que se nega a afirmar-se federal mas que não consegue resolver nos corredores da política uma velha questão de identidades particulares. Três anos depois, enquanto a seleção de sub21, celebrava a mesma conquista, vários dirigentes federativos espanhóis arrancaram das mãos a dois internacionais as bandeiras catalãs e asturianas e guardaram-nas no balneário.

Só estavam autorizadas, extra-oficialmente, símbolos nacionais. Numa seleção onde a presença de jogadores dos quatro cantos do país é mais do que evidente essa atitude poderia parecer estranha. Mas não é. Resume perfeitamente como um sector importante da sociedade espanhola, e do seu futebol, não consegue ainda lidar com as nações que convivem dentro do Estado. Não são os únicos. Os futebolistas, ou pelos menos alguns de forma pública, também decidiram deixar clara a sua posição. Negando-se a vestir a camisola nacional.

Os rebeldes dos relvados

Dentro do quadro político espanhol, a presença de desportistas independentistas com a camisola da seleção sempre levantou muita polemica. Até ao final do franquismo a participação era obrigatória, apesar do próprio regime ter o cuidado de evitar seleccionar os desportistas mais conflictivos politicamente. Com a época da Transição, começaram a surgir as primeiras imagens públicas de negação a colaborar com a seleção espanhola. Num derby basco, os capitães da Real Sociedad e Athletic Bilbao exibiram orgulhosos a bandeira de Euskadi perante uma multidão eufórica. Foi precisamente nessa zona que surgiram os primeiros casos de oposição frontal ao conceito de seleção espanhola por parte de futebolistas.

Em 1976, Iñaxio Kortabarría, então internacional absoluto, renunciou à seleção como símbolo da sua devoção pela causa independentista basca. Aberto o precedente, o cenário voltou a repetir-se como futebolistas galegos e catalães nos anos seguintes. Nacho, lateral esquerdo do Santiago de Compostela, reagiu publicamente aos rumores que falavam da sua convocatória para a seleção declarando que ele só vestiria a camisola de uma seleção da Galiza independente. Anos depois, o central Oleguer Presas, militante ativo do movimento de independência da Catalunha, deixou o país em suspense durante vários meses quando se especulou sobre uma eventual convocatória por Luis Aragonés para o Mundial de 2006.

Presas tinha co-escrito um livro que incitava os desportistas e personalidades da Catalunha a recusarem associar-se com elementos simbólicos do estado central espanhol. Finalmente convocado por Aragonés, o defesa apresentou-se em Madrid publicamente, sentou-se com o selecionador e voltou a Barcelona dispensado. Tinha triunfado a ideologia individual sob o peso do colectivismo nacional.

Os independentistas que vestem a camisola

Oficialmente existem sanções no futebol espanhol que proibem a desportistas recusarem vestir a camisola da seleção. Tal como o serviço militar, em caso de conflito, esta legislação transita dos tempos da ditadura mas existe, o que provoca que o tema seja tratado ainda com mais escárnio e polemica. Oficialmente, nem Nacho nem Oleguer poderiam ser sancionados visto que o primeiro não foi chamado e o segundo foi dispensado voluntariamente pelo staff técnico.

Mas essa realidade tem servido de sombra sobre muitos desportistas, politicamente ativos, mas que têm vestido as cores de Espanha nos mais variados desportos. Durante a década de oitenta muitos dos internacionais espanhóis vinham do País Basco, e apesar de alguns deles serem militantes ativos, aceitavam a convocatória por motivos financeiros e, sobretudo, uma questão de prestigio. Esse foi precisamente o mesmo argumento invocado pela comunidade catalã que nos últimos anos tem composto o esqueleto da seleção. Tal como tinha sucedido nos anos noventa com Josep Guardiola, um conhecido defensor da independência catalã, também Victor Valdés, Carles Puyol, Gerard Pique, Sergio Busquets e, sobretudo, Xavi Hernandez, são defensores públicos dos ideias de uma sociedade catalã independente  Todos eles marcam presença regularmente nas convocatórias de uma seleção da Catalunha que existe apenas para disputar jogos amigáveis fora do controlo do circuito da FIFA como uma forma de concessão política do governo de Madrid. Mas todos eles foram fundamentais nos triunfos recentes da magnífica seleção espanhola. E todos celebraram esses triunfos em Madrid, rodeados de adeptos que, na maioria dos casos, não se importam sequer com questões de cariz político. Fizeram-no não por uma devoção às cores da bandeira mas, pura e simplesmente, porque vencer uma prova internacional é uma das maiores recompensas desportivas que um atleta pode receber.

Uma realidade bem presente

Enquanto em Espanha o modelo federal continua sem ser discutido, os movimentos nacionalistas aproveitam a crise social para desfraldar uma vez mais as bandeiras das suas causas. Na Catalunha está previsto um polémico referendo – como que vai acontecer, esse de forma legitimada por Londres, na Escócia – que abra caminho a uma independência de facto do país. No País Basco o fim, aparente, da escalada de violência da ETA abre caminho à legitima aspiração de política de um estado com autonomia própria no concerto europeu. Mesmo no caso galego, aquele onde o nacionalismo sempre teve menos expressão política, os votos dos partidos nacionalistas têm aumentado a cada eleição que passa. Nos relvados a situação não é radicalmente distinta.

O Barcelona despertou a polemica na sociedade espanhola ao posicionar-se publicamente com o programa nacionalista do governo autonómica, oferecendo o Camp Nou em dia de “Clásico” para exibir ao mundo a bandeira constitucional da Catalunha. Os citados Xavi e Puyol foram captados por fotógrafos em jogos internacionais com as meias dobradas para ocultar as tiras da bandeira espanhola enquanto jovens promessas do futebol espanhol como o galego Joselu mostraram mais interesse em actuar por outras seleções – no seu caso a alemã – do que pela espanhola. Amorebieta, conhecido apoiante da causa basca, preferiu estrear-se pela seleção da Venezuela – país onde nasceu e onde vive uma grande comunidade de bascos – e até o jovem Marcel Susaeta, recém-convocado por Vicente del Bosque tornou-se no protagonista inesperado por um dia quando falou sobre Espanha como uma “coisa”. Sinais evidentes de que esse confronto social continua a existir no mundo do futebol e embora alguns procurem mantê-lo oculto sob o manto da demagogia, permanecerá enquanto o confronto ideológico nesse país de retalhos seja real.

3.582 / Por
  • Bom artigo. Porém, acho pouco procedente a comparação com os Balcãs. Olhemos, por exemplo, a situação no Reino Unido, onde nem existe a seleção do UK. Existem as seleções nacionais de Inglaterra, Escócia, Gales e Irlanda do Norte. E ninguém se zanga por isso. Os espanhóis sim, mas isso é problema deles. Saudações da Galiza.

    • Miguel Lourenço Pereira

      Koroshiya Itchy,

      Obrigado pelo comentário. Em relação ao assunto, não há comparação possível com o caso do Reino Unido por uma simples mas fundamental questão: o nascimento das respectivas federações inglesa, escocesa, galesa e irlandesa é anterior à formação da FIFA. Só por isso está permitido que existam cinco selecções britânicas no lugar de uma. Várias federações, incluida a espanhola, ao longo da história solicitaram à FIFA a reorganização do panorama internacional britânico mas aqui, o direito de antiguidade e re-fundação do jogo dá-lhes vantagem e naturalmente todas as federações se têm negado a misturar as realidades.

      O caso dos Balcâs naturalmente é uma posição extremada no panorama europeu, como sempre foi aliás, mas não é por acaso que Espanha é um dos poucos países que não reconhece o Kosovo como nação independente. Aliás há várias seleções autonómicas dentro do panorama francês, italiano e germânico que estariam a favor de uma abordagem similar à da que actualmente existe no UK mas que estão bloqueadas pela legislação da FIFA.

      Um abraço

    • guedes

      Está enganado, existe a seleção do UK, que participa nos jogos olimpicos!!!

      • Miguel Lourenço Pereira

        Guedes,

        Obrigado pelo comentário.
        A selecção olímpica UK formou-se exclusivamente para este torneio. É uma excepção dentro do panorama internacional e um caso pontual que as federações escocesas e galesas não pensam em repetir no Rio!

  • Logo, a solução para os galegos termos seleção nacional como qualquer uma outra nação do mundo é singela: independizar-nos e ter o nosso próprio Estado nacional! Avante, pois.