Conhece algum país onde os mais pequenos podem passar um domingo de tarde a jogar no estádio nacional…sem pagar nada? Nas ilhas Faroe o futebol existe numa dimensão estranha ao resto do mundo. Um país onde o primeiro-ministro foi internacional, onde quase não há jogadores de fora e em que o desporto ainda prevalece sobre o negócio.

Uma tarde de domingo no estádio nacional

A meio caminho da Islândia, Noruega e Escócia aí estão elas.

Perdidas na bruma, atadas pelo gelo e pela neve que transforma os Verões em Invernos com um sopro de brisa, as ilhas Faroe são o mais parecido a terra de ninguém que podemos imaginar. Sente-se na pele a sensação de viajar no tempo, de sonho hipnótico provocado por uma profecia de runas que correu mal. Mas no terreno, onde há tanta erva quanto gelo, a vida prossegue com a naturalidade de quem sabe que o fim do mundo é apenas uma utopia.

Aos domingos, quando o frio e o gelo o permitem, os pais saem com os filhos para a rua. Passeiam entre a natureza, comem à descrição e jogam futebol. Muito futebol. O beautiful game é o jogo de eleição nas ilhas ainda que a história pareça querer desmenti-lo. Aos que vivem na zona da capital, Thorsavn, deste arquipélago que nem país é – oficialmente pertence à Dinamarca embora seja gerido de forma autonómica –  aproveitam esses dias de passeio para dar uns toques. Não o fazem num campo qualquer.

A peregrinação leva os pequenos até ao relvado sintético impecavelmente cuidado do renovado estádio nacional. Um campo aberto a todos os cidadãos onde não há cadeados nem barreiras. Não é necessário. A consciência social dos habitantes permite desfrutar de um espaço comum sem esquecer a responsabilidade de o manter em condições para os jogos oficiais que aí se disputam. E que são muitos.

No estádio Tórsvøllur, vivem três das dez equipas da liga principal. As restantes sete estão distribuídas por seis das dezassete ilhas que compõem o arquipélago. A distância entra elas é de umas poucas centenas de quilómetros. Considerada pela UEFA como a mais débil das suas ligas profissionais, o campeonato das ilhas Faroe é um parêntesis no quotidiano da ilha. E quando os mais novos sobem ao relvado, há no ar a sensação de que são eles quem realmente importa.

A histórica vitória contra a Áustria

A história política das ilhas confunde-se com a própria evolução da Escandinávia.

Nunca conseguiram afastar-se dessa mudança de ventos de poder que os fez tornarem-se parte dos reinos noruegueses, sueco e dinamarquês. Oficialmente estão ligados a Copenhague, ainda que a distância seja maior do que com qualquer outro país nórdico, salvo a Finlândia. No dia a dia as ilhas Faroe existem por si mesmas. E o seu futebol também.

Em 1988 foram finalmente aceites pela FIFA e pela UEFA. Ao não ser um estado oficial, a sua luta foi árdua até transformar-se em vitória. Os faroeses pertencem a uma pequena elite – onde se incluem as nações britânicas, San Marino, Andorra, o principado do Luxemburgo, o ducado do Liechtenstein e a recém-adicionada Gibraltar – como membros oficiais das confederações europeia e mundial sem terem realmente o reconhecimento estatal necessário.

Em 1990 a seleção oficial do país, composta exclusivamente por jogadores amadores, estreou-se com uma surpreendente vitória contra a “mundialista” Áustria num jogo de apuramento para o Euro 92. Foi o ponto alto da história do futebol do arquipélago. O jogo, disputado na Suécia porque ainda não havia condições nas ilhas para receber os centro-europeus, é ainda hoje um dos maiores mistérios da história do futebol europeu. Desde então a seleção limitou-se a vencer mais três jogos oficiais em duas décadas, dois triunfos contra a ainda mais modesta San Marino e uma espetacular vitória sobre a Estónia na corrida para o Euro 2012.

Se o futebol de seleções sofre, nas ilhas, o peso da imensidão que existe entre as grandes potências profissionais e as ligas semi-amadoras, a realidade dos clubes locais não é diferente. A esmagadora maioria dos atletas federados são amadores ou semi-profissionais. Muito raramente chegam às ilhas jogadores brasileiros, à procura de um passaporte de entrada na Europa, ou veteranos nórdicos que não encontram espaço nas ligas dos seus países. 18 jogadores estrangeiros na primeira divisão atual corresponde a 4% dos futebolistas em ativo no país, uma das menores médias de presença estrangeira em todo o mundo. A realidade oposta também se aplica. São poucos os futebolistas naturais das ilhas a jogar fora. Apenas sete internacionais no ativo.

Os títulos de campeão refletem bem essa realidade. Na última década o clube principal da capital, o HB, venceu cinco ligas com o resto dos ceptros repartidos pelos seus rivais directos, o B36 e o EB/Streymur, a fusão de dois dos principais emblemas dos anos setenta e oitenta.

O primeiro-ministro internacional

Que aspirações de futuro pode ter o futebol num dos mais pequenos e solitários espaços da Europa?

A rebeldia das ilhas Faroe está, precisamente, em permanecer fiel às suas origens. Ao contrário de muitos países, são conscientes das suas limitações e preocupam-se, essencialmente, em manter o jogo no seu estado mais puro. A possibilidade de abrir as instalações aos mais pequenos é uma forma de devolver à comunidade o que o futebol gera com o cardápio de emoções que fazem com que os jogos da liga local sejam os eventos culturais mais vistos do país.

Talvez por isso só nas ilhas Faroe o primeiro-ministro pudesse ser um antigo internacional. Kaj Leo Johannesen lidera os destinos das ilhas desde 2008 e é um dos políticos mais respeitados da Escandinávia. Também é um antigo internacional, depois de ter feito carreira em part-time durante os anos oitenta e noventa ao serviço do HB. Era ele o guarda-redes suplente na mítica tarde de Landskrona, em que a equipa bateu a Áustria. Durante quinze anos partilhou a sua paixão pelo futebol com a política local e em 2008 decidiu apresentar-se pela primeira vez ao cargo de primeiro-ministro. A sua votação de então é, ainda hoje, a maior alguma vez obtida por um político na história das ilhas. O futebol como plataforma, inevitavelmente.

Desde então têm sido vários os antigos futebolistas que têm exercido cargos importantes na vida do arquipélago depois de terem passado anos a correr sobre os relvados únicos das ilhas. Ao contrário de muitos futebolistas europeus, o seu passado como jogador é um cartão de visita mais do que bem recebido. Talvez porque os habitantes das ilhas Faroe sabem que aí o jogo que no resto do mundo se comercializa ao melhor preço ainda tem a sua alma e a sua essência vivas. O futebol nas ilhas Faroe ainda é, para o bem e para o mal, o futebol em estado puro!

2.256 / Por
  • ASouza Melo

    Muito bom!!!!