Hoje as chuteiras negras são uma espécie em via de extinção dos campos de futebol. O arco-iris de mil cores que os jogadores utilizam nos pés, desde a maior estrela global ao mais jovem aspirante, engoliram décadas de histórica tradição hegemónica da cor negra nas chuteiras. No entanto o principio do fim da era clássica das chuteiras começou há muito tempo. Com a chancela de uma empresa alemã fadada a fazer história.

 As chuteiras brancas do campeão do Mundo

Quando se pensa em Hummel a primeira imagem que vem à cabeça são os equipamentos coloridos e garridos da Danish Dynamite. No México 86 a aposta da empresa de roupa e calçado desportivo esteve perto de ser banida pela FIFA. A queixa de então é que o equipamento podia provocar problemas para os telespectadores tal era o tom berrante e inovador das camisolas. Foi uma polemica que durou pouco tempo (a Hummel fez pequenas alterações no modelo, incluindo calções de uma só tonalidade) mas que deixou claro que a marca germânica gostava de desafiar convenções estabelecidas. Não tinha muitas alternativas. Num meio, o do futebol europeu, onde dominavam os seus vizinhos da Adidas e Puma, ser diferente era o único caminho para sobreviver. Uma lição que a Hummel tinha aprendido quinze anos antes quando decidiram colocar um ponto final ao monopólio da cor negra na chuteiras dos jogadores.

A evolução histórica das chuteiras faz parte da matriz emocional do futebol.

De velhas botas, quase em tons militares, foram tornando-se progressivamente no melhor aliado dos jogadores. Elaboradas com cada vez mais precisão, menos peso e máxima aderência, a chuteira tornou-se tão importante como a bola em si. Nos anos cinquenta a luta entre os irmãos Dassler permitiu um salto evolutivo imenso com a utilização de pitões substituíveis e de modelos mais ortopédicos que facilitavam o controlo de bola e a durabilidade das chuteiras nos enlameados campos do futebol europeu de então. O que nunca ninguém se tinha atrevido a mudar era a cor. O preto (ou o castanho escuro) tinham sido, desde o principio dos tempos, as tonalidades por excelência dos pés dos jogadores. Um toque de sobriedade cultural face aos equipamentos coloridos que vinha desde os dias do jogo de amadores na Inglaterra vitoriana. Foi precisamente em terreno sagrado que a história começou a entrar numa espiral de inovação incontrolável. Na última final da FA Cup apenas dois jogadores subiram ao relvado com um par de chuteiras negras nos pés. A maioria estava rendida aos encantos dos sapatos multicoloridos que as multinacionais oferecem a jogadores e consumidor de forma voraz. Em 8 de Agosto de 1970 o cenário era proporcionalmente inverso. Nesse dia, pela primeira vez, um jogador rompeu as regras e subiu ao relvado de Wembley a sonhar com o futuro.

 As chuteiras brancas do campeão do Mundo

Campeão do Mundo em 1966, um dos melhores jogadores da sua geração, Alan Ball era um maverick dos relvados, um produto dos swinging sixties sem os exageros crónicos de figuras auto-destrutivas como George Best.

Era uma figura icónica e também um personagem que gostava de saborear o prazer do risco. Duas semanas antes do Charity Shield de 1970, em que o Everton iria defrontar o Chelsea, o internacional inglês foi abordado por Brian Hewitt. Empresario, Hewitt tinha sido agente comercial da popular Slazenger durante os anos sessenta. Nesse Verão tinha sido abordado pela Hummel, empresa alemã a dar os primeiros passos no Reino Unido. O objectivo era assaltar um pedaço importante do mercado e para isso era necessário fazer algo diferente. Juntos, empresário e companhia chegaram à conclusão que a forma mais chamativa de captar a atenção do público dessa Inglaterra era apostar na cor como elemento original. O branco, símbolo da paz que os Beatles predicavam na música que assaltava os charts de vendas, seria a sua cor. O projeto foi estabelecido como de máxima prioridade mas mais do que ter a ideia e ter a chuteira, era preciso ter um embaixador de prestigio.

Ball foi o escolhido. Aceitou a oferta da Hummel em ser o seu jogador estrela por um valor à volta das 2 mil libras. E deixou-se encandear pela ideia de ser o primeiro futebolista a romper o tabu das chuteiras negras. O problema surgiu cinco dias antes do duelo em Wembley. Havia problemas na concepção das botas que Ball devia calçar, um problema nas provas de pés tomadas. A Hummel não tinha botas preparadas a tempo e Ball não tinha tempo a perder. Chegaram a um consenso. O jogador utilizaria as suas habituais Adidas mas pintariam as chuteiras totalmente de branco. Nos lados foi colocado o logo da Hummel. O trabalho foi feito em tempo recorde na fábrica da empresa no norte de Inglaterra e enviado por comboio de forma express na sexta-feira. Só duas horas antes de arrancar a final, já a caminho do estádio do Wembley, Ball recebeu finalmente a encomenda que tanto esperava. A experiência foi um sucesso.

A Hummel tinha avisado a BBC – que transmitia o jogo em direto – da novidade e durante o encontro a câmara focou diversos grandes planos das chuteiras à medida que o próprio Kenneth Wolstenholme fazia comentários sobre a evolução estética dos jogadores e do material desportivo. Foi o assunto mais comentado da tarde. Na semana seguinte o modelo foi colocado à venda e esgotou todos os exemplares. A Hummel vendeu mais numa semana do que em todo o ano anterior. Foi um sucesso absoluto.

Lotto, Diadora e os sucessores da herança Hummel

A moda pegou imediatamente. Durante essa temporada vários jogadores começaram a desafiar as convenções das chuteiras escuras. Charlie George, a estrela do Arsenal, provou durante alguns meses chuteiras de cor vermelhas antes de voltar às brancas. O modelo tornou-se popular ainda que pertencesse a um grupo extremamente reduzido de jogadores. A maioria mantinha-se fiel à tradição. Durante as duas décadas seguintes só os futebolistas considerados excêntricos apostavam em modelos de cores, a pesar da constante pressão das grandes marcas para explorar novos mercados.

Foram os anos noventa que, definitivamente, abriram uma nova vaga. A entrada em força da norte-americana Nike no mundo do futebol trouxe consigo a mentalidade norte-americana e com ela os equipamentos multi-colores e as chuteiras de mil e uma tonalidades. Paralelamente marcas como a Diadora ou Lotto também lançaram vários modelos populares de cores tão distintas como o azul, verde ou amarelo ao mercado. Os agentes dos jogadores também jogaram o seu papel. No pós-Lei Bosman tornou-se habitual os agentes patrocinarem chuteiras coloridas aos seus jogadores de forma a captar mais depressa a atenção dos espectadores e olheiros nos videos e transmissões televisivas. A excepção passou a ser, rapidamente, a norma.

Mesmo as marcas mais tradicionais como a Puma e Adidas, as mais reácias a entrar nesse jogo, começaram progressivamente a introduzir cores ao seu modelo convencional negro. Hoje não há um novo modelo onde o preto seja, eminentemente, uma cor periférica na oferta ao público. Nos campos de futebol profissionais ou nos torneios de rua as chuteiras negras são cada vez mais raras. Desde as chuteiras brancas de Alan Ball o mundo do calçado desportivo deu uma volta sobre si mesmo e a ideia peregrina da Hummel tornou-se na regra.

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