Hughie Gallacher, o primeiro bad-boy do futebol

Poucas figuras são tão malditas na história do futebol como Hughie Gallacher. Avançado deslumbrante, um dos maiores talentos da sua geração, foi vitima do seu carácter conflitivo e explosivo que o transformaram no primeiro bad-boy do futebol.

O comboio trágico

Na maravilhosa e triste história de Gallacher, o final é perverso e significativo do seu carácter. Sem trabalho, viúvo há sete anos de uma mulher que amava loucamente, a antiga estrela dos Wembley Wizards entrou num ciclo de depressão e paranóia aumentado pela sua crescente dependência do álcool. Uma noite, ao regressar a casa, agrediu o filho mais velho com um cinzeiro que quase lhe custava a vida. Surpreendido pelo seu próprio comportamento fugiu de casa, vagueou durante dias pelas ruas e um dia, sentindo que não tinha nada mais a fazer, caminhou desesperadamente na direção de um comboio. Para a posteridade, a lenda de um jogador mítico.

Naquele dia morria um dos maiores goleadores da história do futebol escocês, um jogador com uma média superior a um golo por encontro internacional disputado. E também um dos mais acarinhados e polémicos futebolistas da Inglaterra dos anos trinta, um génio precoce, filho das minas e dos sonhos roubados.

O mineiro goleador

Gallacher nasceu em 1903 numa pequena localidade mineira do sul da Escócia.

Aí trabalhou com grande parte da família. Nas horas livres jogava futebol. E jogava bem. Com Alex James, o prodígio que Herbert Chapman tão bem aproveitou no Arsenal, fazia as delicias dos adeptos do Bellshill Athletic. Rapidamente chamou à atenção de conhecidos do Queen of the South, com quem se estreou com apenas dezoito anos como profissional. Em nove jogos marcou dezanove golos. Uma cifra recorde para o clube e que estava destinada a ser ampliada noutras paragens. Baixo e de físico débil, Gallacher fazia da técnica a sua principal arma. Escapava-se rapidamente das apertadas marcações dos centrais para fazer do seu ágil controlo de bola e disparo colocado os seus principais aliados. Já internacional pela Escócia, mudou-se para o Airdrionains onde repetiu as cifras. Noventa e um golos por cento e onze jogos que chegaram acompanhados dos primeiros sinais de instabilidade.

Durante os jogos Gallacher sofria as habituais duras marcações dos centrais escoceses. Habitualmente os avançados da época eram figuras tão possantes e imponentes que os choques resultavam negativos para ambas partes. Mas com ele era diferente. Os rivais sabiam que cada entrada passaria sem retribuição e demasiadas vezes passavam a linha. Apesar das advertências habituais dos árbitros da época, a Gallacher parecia-lhe insuficiente. Várias vezes foi expulso do campo por agressões a rivais e não foram poucas as ocasiões que esperou o seu marcador à porta do balneário para ajustar contas, ignorando a velha máxima do jogo que diz que o que passa em campo fica em campo. Esse não era o seu evangelho.

O rival de Dean

Tantos golos e exibições de primeiro nível estavam destinados a chamar a atenção dos mais ricos clubes do norte de Inglaterra para contratar o prodígio escocês que, diziam, podia rivalizar com Dixie Dean. Foi o Newcastle quem ganhou a corrida e o escocês retribuiu com os melhores anos da sua carreira, transformando St. Jame´s Park num dos campos mais difíceis de toda a liga inglesa.

Ironicamente o seu primeiro jogo em casa foi contra o Everton. Gallacher marcou os dois golos da sua equipa mas os “toffees” saíram vencedores com um hat-trick de Dean. Não seria a primeira vez que ambos disputariam, em campo, a supremacia como máximos goleadores dos campos britânicos. Em cinco anos apontou 130 golos em 160 jogos, o melhor registo da história dos “magpies“, com uma média de 0,82 golos por jogo, muito superior à de Alan Shearer (0,51), Jackie Millburn (0,58) e Len White (0,57), os futebolistas que apontaram mais golos que ele com a camisola do clube.

O seu impacto foi imediato e a conexão com os adeptos também. Acabou nomeado capitão no seu segundo ano, com apenas 23 anos, liderando a equipa para o título de campeão de forma autoritária, apontando 35 golos, o melhor marcador da prova. Tal como sucedia na Escócia, aos golos somou também expulsões por várias agressões (segundo as crónicas, sempre como resposta a agressões prévias dos rivais) e insultos. Mulherengo, amante dos trajes caros, dos restaurantes de moda e dos pubs até altas horas a fama de génio problemático começou a difundir-se pela imprensa inglesa. Quando os rumores de que Gallacher – então casado – tinha uma relação com uma adolescente de 17 anos se confirmaram a situação saiu totalmente do seu controlo. Hannah Anderson era filha do dono do bar que Hughie frequentava regularmente. Apesar de ser casado, de ela ser menor e de existir uma diferença de oito anos, Gallacher fez valer o seu carácter frontal e não escondeu a relação. Foi ameaçado de morte por famíliares da sua então mulher e da jovem Hannah, uma decisão que contribuiu para que em 1930 aceitasse a oferta do Chelsea e trocasse Newcastle pela capital. Hannah ia consigo no comboio e quatro anos depois, com os papeis do divórcio finalmente assinados, tornou-se a senhora Gallacher. A intensa paixão entre ambos foi amplamente divulgada na época, um caso pouco habitual para futebolistas, antecipando em largas décadas outras relações conjugais que fizeram história. E a sua morte, de um ataque cardíaco, em 1950, foi o principio do seu fim.

A caminho da tragédia

Quando chegou a Londres, o avançado escocês era um dos jogadores mais temidos da Europa. Para tal tinha contribuído a sua exibição devastadora no estádio do Wembley, no célebre 31 de Março de 1928, que acabou com a vitória da Escócia por 5-1. Foi a maior derrota da seleção inglesa até ao célebre duelo com a Hungria de Puskas, vinte e cinco anos depois. Nessa tarde os escoceses deixaram claro sobre o estádio imperial, recém-inaugurado, a sua superioridade técnica e a conexão entre James e Gallacher foi letal. Foi o seu ponto alto com a camisola escocesa, com a qual tem um registo igualmente devastador de golos por jogo.

Gallacher, um prodígio da estatística
Poucos jogadores podem apresentar números tão evidentes do seu talento como Hughie Gallacher. É um dos avançados mais proliferos da história do futebol europeu, um eterno desconhecido simplesmente porque as suas gestas tiveram lugar na era pré-televisão.

Rival de Dixie Dean, considerado como um dos maiores goleadores da história, é ainda hoje o futebolista com melhor média de golos marcados pelo Newcastle United e da seleção da Escócia.

Com a equipa nacional escocesa Gallacher apontou em vinte jogos internacionais um total de vinte e três golos (uma média de 1,15), largamente superior à alcançada por Kenny Dalglish (120 jogos, 30 golos) e Dennis Law (55 jogos, 30 golos), os futebolistas que o precedem.

No Newcastle a sua média ainda é superior à de qualquer dos jogadores da história do clube, incluindo a do mítico Alan Shearer. Com a camisola do Chelsea, com o qual foi melhor marcador em três anos consecutivos, Gallacher tem um registo igualmente notável de 72 golos por 132 jogos, média apenas superada pelos números de Peter Osgood, Jimmy Greaves, Bobby Tambling e Kerry Dixon.

No total da sua carreira, que durou dezoito anos, Gallacher apontou 406 golos em 510 jogos, uma média de 0,8 golos por jogo.

Com o Chelsea os seus números continuaram a ser impressionantes e apesar de já ter entrado na casa dos trinta, Gallacher continuava a ser tão eficaz quanto antes. Mas a vida da capital não casou com o seu carácter. Teve vários problemas em bares, restaurantes e com dirigentes do clube pela sua atitude frontal e reivindicativa. A mais polemica resultou numa suspensão de dois meses, por insultar um árbitro que tinha-se recusado a expulsar um defesa rival que lhe tinha deixado a perna em sangue. Uma suspensão que eventualmente causou ao clube a perda do título e o levou a sair para o Derby County, falido pelos gastos do polémico divórcio que tinha sido capa de vários tablóides durante os anos anteriores.

Até ao arranque da II Guerra Mundial, Gallacher passeou-se por vários clubes do centro e norte de Inglaterra, sempre apontando golos, sempre despertando polemicas. No final da guerra estava falido e sem emprego. Trabalhou em jornais, voltou brevemente às minas e chegou a trabalhar nas docas de Newcastle. Na rua era parado pelos seus antigos admiradores, alguns dos quais lhe deixavam algumas moedas. Era demais para o seu orgulho. A morte de Hannah apenas agudizou a sua depressão e solidão. Recusou-se a voltar à Escócia natal e viu-se acurralado pela família da mulher, que tomou conta dos filhos do casal sob a acusação de ele ser incapaz de os sustentar.

O fim foi o principio. Ao ver o comboio em Gateshead avançar a toda a velocidade, Gallacher podia ter imaginado o sorriso de Hannah, os gritos de euforia dos adeptos de St. Jame´s a celebrar os seus golos, a cara de estupefação dos ingleses naquela tarde de Wembley ou a bola que tropeçava no carvão das minas às portas da sua modesta casa famíliar. Podia ter imaginado a vida que levou e a vida que podia ter levado. Segundos depois do dramático desenlace, tudo era definitivamente parte de uma lenda única de um jogador magnifico, vitima do seu tempo, do seu carácter e da falta de memória. A que esquece todos os heróis que não consegue encontrar em vídeos do YouTube.

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