Huddersfield, o laboratório de Herbert Chapman

Herbert Chapman. Um nome próprio que definiu a evolução do futebol talvez como nenhum outro treinador nas primeiras décadas do século XX. Um homem que questionou sempre o estilo de jogo descontrolado da sua era e que procurou o antídoto mais eficaz ao caduco 2-3-5. O nascimento da regra de fora-de-jogo deu-lhe o pretexto que precisava e que lhe permitiu transformar o Arsenal na grande equipa dos anos 30. Mas antes da sua revolução as suas teorias já tinham sido testadas com sucesso. Em Huddersfield. O seu primeiro laboratório.

A primeira revolução táctica

Hoje todos sabem o que é o WM.

Foi a maior revolução táctica dos primeiros 50 anos do século XX. Manteve-se até aos anos 50 em muitos países como o principal sistema de jogo. Nos anos 60 a televisão inglesa ainda colocava os alinhamentos das equipas com esse desenho táctico então já em desuso até nas ilhas. Caiu em desuso com a popularidade do 4-2-4 húngaro e brasileiro (que depois passariam ao formato 4-4-2 e 4-3-3 a partir dos anos 60). E resultou obra de uma mente privilegiada que resultou como peça chave na evolução táctica do jogo. Herbert Chapman morreu no zénite da sua carreira e não teve tempo para ver a real consequência da sua inovação.

Quando caiu fulminado após uma pneumonia, em 1934,  o seu Arsenal era a melhor equipa britânica. E provavelmente do Mundo. Faltavam 20 anos para que nascesse a Taça dos Campeões Europeus mas se a prova tivesse sido realizada nessa década seria provável que o clube londrino tivesse conhecido o mesmo sucesso que o Real Madrid dos anos 50. A aplicação do WM era a chave do sucesso gunner. Isso e a insistência de Chapman em rodear-se dos melhores. O técnico tardou alguns anos em fazer do seu modelo vencedor. Mas quando deu na tecla certa a equipa nunca mais o desiludiu. Montou uma geração de talentos únicos como Highbury Park não voltaria a conhecer e dominou a First Division anos a fio. Para a história ficou o seu papel como treinador do Arsenal. Mas a vida de Chapman deu muitas voltas. E o seu mágico WM não começou na cinzenta Londres. Foi antes no verdejante Yorkshire, numa pequena localidade chamada Huddersfield. 10 anos antes.

A histórica final da FA Cup

No mítico Wembley poucos perceberam que estavam a assistir a um marco da história. Naquela tarde onde uma chuva miudinha ia irritando a cabeça dos adeptos, Chapman percebeu que tinha encontrado a fórmula ideal para resolver a equação que há tanto tempo o mantinha ocupado: equilibrar as peças no tabuleiro.

O futebol mantinha-se sob a velha base do 2-3-5, com as equipas viradas constantemente para o ataque sem nenhuma organização na defesa e muito pouco jogo a meio campo. Os extremos jogavam bem abertos, com mais três jogadores no centro, onde habitualmente um dos elementos descaía para recuperar bolas. Os três médios jogavam como interiores e os dois centrais limitavam-se a colocar-se diante da grande área. Não existia ainda o fora de jogo pelo que o seu trabalho era, muitas vezes, simplesmente inútil.

Chapman não gostava do modelo. Dizia que a equipa perdia muito tempo jogando sem sentido e que isso implicava uma reduzida eficácia. Para ele vencer significava marcar mas também não sofrer. Foi o primeiro técnico que manifestou essa consciência defensiva que iria marcar o jogo daí em diante. Nesse modesto Huddersfield, Chapman começou a desenvolver a sua teoria. O técnico tinha chegado até à pequena localidade depois de ter sido banido, junto com toda a equipa do Leeds, pela FA. Foi um negócio de risco para o clube mas também para ele. A união funcionou.

O técnico entrou ao serviço em 1921. Nos três anos seguintes tornou a equipa na primeira da história a vencer três ligas de forma consecutiva, algo que só Liverpool e Manchester United lograram nos anos seguintes. A isso juntou uma vitória na final da FA Cup. Foi precisamente nesse jogo contra o histórico Preston North End, que o técnico colocou a sua inovação em prática de forma definitiva.

Chapman fez recuar um médio para a zona defensiva, colocando-o no eixo da defesa. Os outros dois centrais deslocam-se para as linhas laterais. Da mesma forma, dois dos jogadores do centro da linha ofensiva recuavam no terreno para assumir o papel de interiores ofensivos jogando à frente dos dois médios mais recuados. O desenho táctico podia descrever-se como duas letras bem desenhadas no rectângulo de jogo: um W e um M. Nascia a táctica mais revolucionária do jogo.

O aparecimento do fora-de-jogo

Nesses anos em Huddersfield muitas vezes Chapman teve de jogar com um 2-3-5 adaptado. A falta de uma regra de fora de jogo dificultava a sua inovação porque dava muitas liberdades aos avançados e extremos. Em 1925 a FIFA (e a FA) aplicaram de forma definitiva a regra que iria revolucionar o jogo.

A partir desse momento a defesa de três podia jogar na mesma linha e apanhar o trio de avançados rivais na ratoeira. O truque funcionou. O clube tornou-se no perfeito laboratório para que o técnico ensaiasse as suas inovações. Chapman tinha um desprezo supremo pelo jogo com extremos que se limitavam a centrar para a área. Obrigou os seus quatro elementos do quadrado de meio campo a trocar a bola em passes rápidos de apoio continuado. Os dois extremos abriam e fechavam conforme a equipa defendia e contra-atacava. Muitas vezes a sua função limitava-se a arrastar consigo os defesas rivais abrindo a porta aos avançados interiores. A eficácia defensiva permitia à equipa organizar rápidos contra-ataques. Em 1925 o Huddersfield tornou-se na primeira equipa da história a não sofrer mais de 2 golos por jogo em média na First Division. Para a época era um feito. O técnico sempre dizia que a melhor oportunidade para marcar resulta sempre de um contra-ataque porque apanha o rival desprevenido.

Por essa altura já o clube tinha continuado o seu caminho sem o influente técnico. Chapman não resistiu aos encantos de Londres e mudou-se para o então modesto Highbury Park. O Huddesfield manteve a sua filosofia e no ano seguinte voltou a ser campeão. Chapman recomeçou o seu projeto do zero e demorou quatro anos a voltar a saborear um titulo.  Quando o Arsenal finalmente se sagrou campeão, em 1931, o seu modelo de jogo já estava consagrado na maioria dos clubes ingleses e noticias começavam a chegar para lá do canal da Mancha.

Hegemonia gunner

Durante 4 anos o Arsenal mandou no futebol inglês.

À medida que o Huddersfield ia definhando, as estrelas que Herbert Chapman reuniu em Highbury faziam história. Em quatro anos vencerem três ligas. No final da última época a morte de Chapman representou um duro golpe. Progressivamente o Arsenal foi perdendo elementos chave da sua organização. A vantagem táctica já há muito que tinha sido perdida porque o WM foi rapidamente copiado por todos e alguns clubes, como o Everton, demonstravam já uma versão mais refinada e eficaz do modelo. No entanto o invento ficaria para sempre associado à figura de Chapman. A sua ideia foi a revolução que pautou o desenvolvimento das grandes equipas europeias até que uns mágicos hungaros destroçaram o quadrado inglês em Wembley, 20 anos depois da sua morte, e colocaram um ponto final à popularidade do WM.

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