Tinha mais de 30 anos quando chegou à Serie A, sem chamar a atenção, sem levantar mais do que uma nota de rodapé. Foi um dos seus mais prolíferos e polémicos goleadores, veterano de mil batalhas que acabaram sempre com o seu braço levantado no ar. Dario Hubner foi um goleador de outra era no virar de século, um protagonista de madeira no capitulo final de uma história com heróis forjados a ouro e prata.

O rei dos golos na idade de ouro do Calcio

Quando Dario Hubner cumpriu o seu segundo jogo completo na Serie A contava com trinta anos recém cumpridos. Em cento e oitenta minutos de futebol já tinha deixado a sua marca. Quatro golos em dois encontros, no fundo, a história da sua inesperada viagem de fénix.

Estávamos em 1997, o apogeu da era dourada do Calcio, quando pelos campos italianos deambulavam alguns dos melhores jogadores do mundo. Nesse universo de glamour e nomes sonantes aterrou o mais inesperado dos protagonistas, já depois da hora alguns podiam pensar. Mais de uma década nos escalões secundários sem que ninguém tivesse reparado nele não podia ser coincidência. Talvez era. Nos seis anos seguintes Hubner transformou-se no anti-divo por excelência do Calcio, o jogador que marcava golos como uma estrela mundial mas sem glamour. O avançado que não era Ronaldo, Crespo, Shevchenko, Adriano, Recoba, Vieri, Inzaghi, Montella, Batistuta, Totti ou Del Piero mas que era capaz de lutar de igual para igual com qualquer um deles na tabela dos marcadores. Um futebolista que além de marcar golos lutava por cada bola como se a vida lhe fosse escapar das entranhas, colecionando amarelos e vermelhos a um ritmo parecido ao dos golos. E por isso os italianos amaram-no como a poucos e converteram a sua imensa figura numa das lendas mais alternativas da história do futebol europeu.

Anos de ouro em brescia

Os 38 anos de Luca Toni pulverizaram o recorde de Hubner mas não o deixaram votado ao esquecimento. Toni, outro herói anónimo no meio da elite quando apareceu, há mais de uma década, era o melhor herdeiro possível para a herança de Dario, o inimitável. Um jogador que fez mais de metade da sua carreira na Serie B e Serie C e que se sagrou, contra todo prognóstico, o Capocanonieri de 2002, escrevendo o seu nome com o mesmo tipo e tamanho de letra ao lado de algumas das maiores lendas do futebol mundial.

Na sua primeira jornada da Serie A, em 1997/98, Hubner marcou o seu primeiro golo. Contra o Inter. No Giuseppe Meazza. Uma semana depois, debaixo da sombra das montanhas de Brescia, anotou um hat-trick no duelo contra a Sampdoria. Quatro golos, dois jogos, uma lenda em potencia. Um ano antes, Hubner tinha sido parte da equipa do Cesena que tinha caído no poço da Serie C. Entre as duas divisões secundárias do futebol transalpino tinha passado a sua carreira em clubes como o Fano e o próprio Cesena. Nunca ninguém tinha notado pela sua presença. Até que chegou o Brescia, um clube da Serie B recém promovido à primeira divisão e sem grandes pergaminhos. Hubner foi uma das contratações menos mediáticas desse ano mas também das mais eficazes. Com a camisola azul ao peito marcou dezasseis golos no seu primeiro ano da elite. Insuficientes.

O Brescia foi despromovido como esperava a maioria dos analistas mas Hubner ficou na retina. Algo difícil numa liga onde cada clube presumia da sua estrela mundial. Ninguém tentou sequer contratar o avançado e o Brescia agradeceu. O goleador ampliou o seu registo, marcou 21 golos, e uma vez mais o Brescia voltava à elite. Em dois anos tinha apontado quase meia centena de golos. Com o regresso do Brescia à elite o clube conseguiu contratar também a sua estrela – e basta ver o onze da esmagadora maioria dos clubes de então da Serie A para perceber, realmente, o nível desses planteis – o inimitável Roberto Baggio. Não podiam ser jogadores mais diferentes, mas Hubner e Baggio encaixaram na perfeição como duas peças do mesmo puzzle. Hubner era letal onde “Il Codino Divino” era pura arte. Juntos transformaram o clube lombardo numa equipa atrativa para qualquer adepto neutral.

A liderança de Carlo Mazzone foi chave para organizar taticamente a equipa mas também para controlar o conflituoso carácter de um jogador feito da argamassa de outros anos. Hubner era polémico em todos os sentidos. Fumava no banco de suplentes, entrava sobre os defesas rivais com mais dureza do que lhe entravam a ele e colecionava suspensões como quem colecionava golos. E eram muitos, em ambos casos. No seu segundo ano na Serie A marcou outros dezassete golos e desta vez o Brescia não só não desceu como inclusive conseguiu qualificar-se para a Intertoto no oitavo lugar. Nessa equipa jogavam três dos maiores mitos da história do futebol. Ao próprio Baggio tinham-se unido um jovem Andrea Pirlo, emprestado pelo Inter e mais à frente chegaria Pep Guardiola. Três estrelas únicas. Mas o grande símbolo dos azuis lombardos era o veterano Hubner. O Piacenza colocou seis milhões de liras sobre a mesa e o jogador trocou o azul pelo vermelho para escrever o capitulo mais dourado da sua história. Em Brescia achavam que, aos 35 anos, o “Il Bisone” tinha dado tudo o que tinha e contrataram para o seu lugar outro ilustre desconhecido, um tal de Luca Toni. Enganavam-se.

O mais veterano Capocannonieri

Em 2001/02, o futebol italiano foi sacudido por um furacão goleador inesperado. Hubner era presença regular entre os goleadores mas ninguém esperava que, com três décadas e meia nas costas e apenas três anos na Serie A, o avançado de origem alemã fosse capaz de disputar ás maiores estrelas do continente o titulo de melhor marcador. No final do ano Hubner tinha vencido, marcando 24 golos, os mesmos que o italo-argentino da Juventus David Trezeguet mas com menos minutos nas pernas. O Capocanonierri era seu. Nunca um futebolista tão veterano, nem nos dias de Silvio Piola ou Giani Riva, tinha sido capaz de tal feito. Em Piacenza celebrou-se o feito como se de um Scudetto se tratasse. A imprensa clamou pela sua inclusão nos convocados para o Mundial da Coreia e Japão mas Giovanni Trapatonni foi tão irredutível como tinha com Roberto Baggio, também ele a vive ruma segunda juventude.

Nenhum viajou para o Sudeste Asiático e portanto nenhum sofreu na pele a humilhante e polemica eliminação à mão dos anfitriões. Foi o seu canto do cisne. Dois anos depois, com mais uma serie irrepreensível de golos antes de voltar ao seu palco inicial, as divisões secundárias, para continuar a sua carreira longe da ribalta. Hubner foi um avançado especial. Um desconhecido – como tinha sido Bieroffh ou seria Toni – e um futebolística que subia ao terreno de jogo sem nada que perder, lutando cada bola como se fosse a última. Sem ter tido a consagração de um mito dos ilustres desconhecidos como Salvatore Schillachi, não deixou de ser um jogador de lenda. O último grande guerreiro anónimo dos anos de ouro da Serie A. Um jogador tão bom – só Igor Protti tem, como ele, o titulo de melhor marcador da Serie C, B e A –  à hora de marcar golos que precisou de uma década para ter a sua oportunidade no meio da maior constelação de estrelas do planeta. Não a desperdiçou. A história jamais o esquecerá.

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